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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Louvor à Assunção de Nossa Senhora

Louva, minha alma, o Deus altíssimo
porque se dignou elevar ao céu em corpo e alma
a humilde donzela de Nazaré.

Louvem todas as criaturas ao Pai
Porque escolheu uma mulher da nossa raça
A fim de nela manifestar
a vitória sobre a morte e a corrupção,
fazendo de Maria, juntamente com Cristo,
a primícia do nosso destino.

Louvem todos os redimidos
a Nosso Senhor Jesus Cristo,
porque faz brilhar em Maria, sua Mãe,
assunta ao céu, todos os matizes da salvação.

Louvemos o Espírito Santo
que incendiou no ser de Maria de Nazaré
o Fogo que não se consome
e a luz que nunca se apaga.

Que todas as criaturas,
Em união com Maria, louvem a Deus!

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Desaparecida

Encontrei algures uma notícia e fiquei olhar para ela. Como quem vê um boi a olhar para um palácio. Um boi não sabe distinguir uma janela duma porta, o frontispício do telhado, uma estátua duma floreira. Para o boi aquilo é um palácio ou lá o que é, mas como não se come não é nada. Fiquei mais ou menos assim quando li uma notícia sobre o roubo duma ponte. Uma notícia assim não parece o que é, e deixa-nos incrédulos. Eu fiquei. Olhava para as letras e via-as juntas e ordenadas, formavam um texto que era uma notícia, ou brincadeira. Dei por mim a pensar: é daquelas notícias papa-tolos, bem escritas mas sem sentido! Seja. Mas seja o que seja vou trazê-la para aqui.
Os conteúdos eram estes: Na República Checa, entre os inícios de Dezembro e meados de Janeiro deste ano roubaram uma ponte. Era uma ponte de aço, ali disposta para unir duas cidades. Não era um viaduto qualquer, era mesmo uma ponte e pesava 4 toneladas. (Um carro pesa uma e meia!)
As pontes são para mim das construções mais interessantes. São como as vitórias, juntam o que andava separado, vencem abismos, unem as margens que porque o são andam sempre desavindas, fazem comunhão, fortalecem comunidades. São causa de alegria e de júbilo, facilitam a vida e antecipam os encontros. É porque provocam união que as pontes me seduzem. Para além de me ser incompreensível como foi possível roubar uma ponte e ficar mais de um mês sem saber que fora roubada, passo a enumerar os meus outros espantos por causa desta notícia: Não foi o David Coperfield porque ele encena ilusões, não muda a substância da realidade!; Como é que duas cidades ficaram tanto tempo sem se aperceberem que estavam separadas?; Era mesmo uma ponte, ponte?, uma ponte que fazia falta? Era mesmo uma ponte que servia para o que serve uma ponte: unir?; O mais certo é ter sorrateiramente acabado na casa dum socateiro qualquer: mas poderá uma ponte de um só homem ser verdadeiramente uma ponte?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Um sorvo

Era um encontro de jovens, em Agosto, em Segóvia, no convento de S. João da Cruz. Ali os dias são quentíssimos, a paisagem é de restolho ressequido; os corvos grasnam o dia todo por cima da Igreja da Senhora de la Fuencisla. São tantos e tão insistentes que quando se calam, nos sentimos melhor. Em chegada a noite também ficamos melhor, porque a temperatura amaina.
Nesse dia de que quero falar saímos enquanto o sol era meigo. Calcorreamos caminhos de pó por entre restos de searas e de campos enormes. Parámos bem antes do meio-dia, bem antes do sol queimar. Parámos sob as únicas árvores que se viam por ali. Mas antes de merecermos almoçar, reunimo-nos à volta dos textos de S. João da Cruz. E como é diferente lê-los naquela terra quase só terra, quase só céu!
Passámos ali a tarde. Chegámos por fim a casa cansados e suados, com os corpos a suspirar por um banho. Antes da ceia, porém, estava prevista uma hora de oração. No meio da frescura da capela depuseram uma vela no chão e uma tina de água.
Quero lembrar que entre nós havia um catalão, de 17 anos, que ninguém sabia ao que viera. Estava ali tão deslocado como um peixe a apanhar banhos de sol. Não sabia nada daquilo. Não sabia nem rezar nem o que era um convento nem porque tínhamos de nos juntar a horas certas e fazer tudo junto. O nome, julgo, era Rufo. Apesar de destoar Rufo era simpático, embora quase só falasse de bebedeiras de vinho!
Foi também à oração, que começou e foi decorrendo junto ao Poço de Jacob, onde Jesus se encontrou com a Samaritana e lhe pediu de beber; onde Jesus foi remoçando o coração ressequido daquela mulher, acabando ela a pedir-Lhe: — Dá-me, Senhor, dessa água!
Era assim entre cânticos, o Evangelho e os apelos da Santa Madre, que ia decorrendo a oração. Ali, se traçava o itinerário de fé que cada um de nós deve percorrer: Jesus aproxima-se. Depois é reconhecido e acolhido como a única água que pode matar a nossa sede.
A certa altura, foi cada um de nós até junto da água e só tinha que fazer aquilo que quisesse fazer: mirar, tocar, santiguar-se... Havia um cântico: — Dá-me, Senhor, dessa água. O cântico ia correndo e a fila andando, e à medida que cada um se aproximava da água cumpria o ritual. E regressava ao seu lugar.
Rufo foi o último. Todos vimos como se tardou diante da água. E nós cantando. Ficou ali, imóvel, impressionado, resoluto. Depois, ajoelhou e deu um grande sorvo antes de lavar a cara. O cântico parou mas ali deve ter nascido um santo, pois no restante do encontro o rapaz já não foi mais igual!
(Ignoro o que posteriormente se passou com a vida de Rufo; se ficou a gostar mais de vinho ou de água. Mas o que é certo é que se naquela tarde não foi tocado pela sede de Deus, fomo-lo nós perante o seu gesto tão inesperado.)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Santos impopulares

Chega Junho, chega o Menino. Digo, a peregrinação ao Menino. É também o mês, dizem, dos santos populares! Curioso nome o de santos populares que, talvez, não inocentemente, estabelece a divisão com os outros, os não-populares. Pelo contrário, não deveriam existir senão santos, santos populares. Mas já que criaram a designação deixem-me que discorde dela. Os Santos Populares são santos visivelmente impopulares! Vejamos.
S. António, dizem-no de Lisboa, os portugueses; e de Pádua, os italianos. Paulo VI foi mais consensual e chamou-lhe António-de-todo-o-mundo. O nome verdadeiro era Fernando de Bulhões, nasceu em Lisboa e morreu em Pádua. Celebra-se a 13 de Junho e foi um pregador. Impressionava pela palavra, fustigava as consciências, era um intelectual de grande craveira. Quando o não quiseram ouvir — isto é, levar à prática a sua pregação — foi pregar a peixes! Esses tinham pelo menos uma virtude: ficavam calados enquanto pregava! Já que não converteu os homens dedicou-se aos bichos!
S. João nasceu em Ain-Karim, Palestina. Mereceu o nome de Baptista por ter baptizado o primo, Jesus, e as enormes multidões que se aproximavam de si. Celebra-se a 24 de Junho. Era seis meses mais velho que Jesus. O seu nascimento foi uma alegre bem-aventurança para a família, mas deve ter deixado muito cedo o lar e para ir viver no deserto. Era austero no viver, e fustigava a sociedade do tempo como se as víboras habitassem as suas casas. Denunciou a hipocrisia do rei do tempo e como prémio Herodes ofereceu a sua cabeça num prato, a uma bailarina cujo bailado o encantara. Arrastou multidões, avivou as brasas da esperança, mas morreu ingloriamente, desamparado e à mercê da iniquidade do poder ao tempo.
S. Pedro celebra-se no dia 29 de Junho e com ele Paulo. Não é certo que tenham morrido no mesmo dia, embora haja quem o diga. Popularmente só se referencia o primeiro e só se festeja o primeiro. Pedro foi o primeiro chefe da Igreja de Jesus. Era um pescador bruto, rude e impulsivo. Era imponderado e belicoso. Estava mais habituado a tratar com peixes que com homens. Falava sem pensar e sonhava demasiado elevado. Quando teve de defender o sonho (porque lhe prendiam o Mestre) foi o único a deitar mão à espada. Mas só cortou uma orelha, que o Mestre logo repôs! Já entronizado chefe da Igreja reserva-se demasiado para dentro da comunidade, ao ponto de Paulo ter de o enfrentar para ganhar espaço e liberdade a fim de se dedicar a anunciar Jesus aos não-judeus. Por fim, deu a vida por Cristo, mas como nem disso se julgava merecedor pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. Parece-se muito a um santo impopular e ao contrário.
São Paulo era rabino judeu, fariseu radical, evangelizador de helenistas, cidadão romano, escritor exímio, missionário incansável, fundador de comunidades, pastor dedicado, fabricante de tendas, Apóstolo de Jesus. Foi tantas coisas que parece não ter tido tempo para sardinhas, pimentos e pão. Também não é por aí que é um santo popular. Era homem de amizades sinceras, profundas e exigentes, daquelas que magoam por que muito amarram ou muito dividem. É convertido, melhor dito: um zeloso homem de fé radical que se converte ao Cristianismo. Mistura explosiva que fazem dele um homem frenético sem tempo a perder. A urgência era a sua marca, tão urgente que parecia impaciente. A sua personalidade forte, a vontade férrea e a defesa da fé verdadeira chegaram a deslaçar amizades. Não parece e não é um santo suave, ameno, popular. Com a sua festa neste ano, iniciamos o jubileu bimilenário do seu nascimento.
António, João, Pedro e Paulo são santos impopulares que o coração do povo ama. São muito impopulares e muito contra-corrente aos apetites do povo. Sim, são do povo. São nossos. Mas são tão fiéis a Jesus que parecem avessos ao que o mundo hoje consome. (E nesses dias quase só consome sardinhas, pão e vinho!) A culpa não é deles, é da radicalidade de vida exigida por Quem os chamou. São impopulares porque se abriram a Jesus. Mas porque se abriram de forma tão bela à fonte da alegria, teríamos de fazer festa quando os festejamos. E fazemos. Mas ainda que os convoquemos para a festa a sua impopularidade é como o vinagre, que apesar de sadio tempero e benéfico purificador, recordámo-lo mais por não caçar moscas.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Reformar as palavras


Às vezes nem temos palavras. Outras vezes é necessário levá-las à fonte e lavá-las. Para que digam o que disseram na vez primeira, quando foram criadas. E não digam todo o pó e roupagem que os séculos lhe colaram.
Por exemplo:
Em Julho de 1938 realizou-se em Berlim o congresso internacional dos editores. A guerra se sentia já no ar e o governo nazi revelava-se mestre na manipulação das palavras com fins de propaganda. No penúltimo dia, Goebbels, que era ministro de Propaganda do Terceiro Reich, convidou os congressistas à sala do Parlamento. E pediu aos delegados dos distintos países uma palavra de saudação. Quando chegou a vez de um editor sueco, este subiu ao estrado e com voz grave pronunciou estas palavras:
«Senhor Deus, devo pronunciar um discurso em alemão. Careço de vocabulário e de gramática, e sou um pobre homem perdido no meio dos homens. Não sei se a amizade é feminino ou se o ódio é masculino, ou se o horror, a lealdade e a paz são neutros. Assim que, Senhor Deus, recupera as palavras e deixa-nos nossa humanidade. Talvez consigamos compreender-nos e salvar-nos.»
Estourou um aplauso enorme, enquanto Goebbels, que havia percebido a alusão, saía furioso da sala.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Prece pelas minhas dores

Nesta tarde, Cristo do Calvário,
vim pedir-Te pela minha carne enferma.
Mas ao ver-Te, os meus olhos vão e vêm,
do teu corpo ao meu corpo com vergonha.

Como hei-de queixar-me dos meus pés cansados,
quando vejo os Teus despedaçados?
Como hei-de mostrar-te as minhas mãos vazias,
quando as Tuas estão cheias de feridas?

Como hei-de falar-Te da minha solidão?
quando Te vejo só e levantado na Cruz?
Como hei-de dizer-Te que não tenho amor,
quando vejo rasgado o Teu coração?

Agora, já de nada me lembro,
todos os meus queixumes se afastaram.
A ânsia de pedir que eu trazia
afoga-se-me na boca pedinchona.

E já só peço nada Te pedir,
estar aqui, junto da Tua imagem morta,
ir aprendendo que a dor é só
a chave santa da Tua santa porta.

(Autor desconhecido)

sábado, 31 de maio de 2008

Há uma porta de vidro


Há uma porta de vidro. É ali. Não sei se por ela o que entra é mais do que sai. Sei que há ali uma torrente de luz e de mundo que entra, e, concerteza, não é menor a que sai. Depende do olhar, claro. Depende do nevoeiro do olhar, como é óbvio.
Mas o que é certo é que ali está aquela porta. Impressiona-me aquela porta! Já vi uma vez uma porta florida, que ajudei a fazer. Gostei de a fazer. Gostei de por ela entrar. Gostava daquelas flores todas a sorrir e a saudar quem por ela entrasse. Já vi uma porta tão velha tão velha que parecia a Avó-de-todas-as-portas, mas depois que a maquilhamos dá gosto ver o garbo dos que entram por ela.
Já vi portas seculares, grandes, gigantescas, antigas, nobres, humildes, simples, modestas, discretas, convidativas, a evitar. Já vi. Mas agora não interessa o que vi. Interessa-me aquela porta, mas que porta! Entram nela os apressados, os apresados, os livres, os santos e os pecadores. As crianças, os carros, os lavradores. Os doutores.
É uma porta como uma janela por onde o mundo espreita. Eu ali, ela acolá. É por ela que o mundo entra. É por ela que um rio sai. Cá dentro há luz, muita Luz, tanta Luz, excesso de Luz. Luz. Luz que ninguém vê, porque não se vê de olhos bem abertos. Luz que aquieta, que pacifica, que serena, que. Lá fora a noite caiu. Caiu a noite e há luz. Ou sombra. Sim, sombra-luz. Sombra que descai como um vestido de mulher cinderela. É noite. Por isso sai mais luz que aquela que entra. É um rio que vai.
Que vejo agora? Serás tu, Senhora? Terás, desapercebida, deixado o teu altar? Foste procurar o teu Menino? Que é isso que vejo?
Vejo que além, do outro lado, daquele lado outro da fronteira, onde antes houve uma sebe verde cujas folhas eu gostava de partir delicadamente num clic macio e agora impossível (porque já não há sebe alguma), vejo, vejo que te vejo além dessa fronteira levantando o menino, o teu Menino. Ficas a olhar, ficas a apontar. Demoradamente, de braço levantado e os lábios junto ao ouvido. (Para que, longínquos, não ouvíssemos?) Dizes onde é. — Mas onde é o quê? Mostras o quê? Será que lhe mostras o caminho, o lugar donde veio, a divina prisão onde O adorarmos?
Vejo tudo por essa porta de vidro que me mete cá dentro o mundo, por onde sai o rio. Há essa porta ou janela, não sei. E uma Mãe e o seu Menino aqui, comigo, connosco, enquanto rezamos ave marias.
Ave Maria, porque te vejo aí? Porque não hás-de estar aqui quando te dizemos os piropos de que tanto gostas?Ave Maria.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Em que posso ajudar?


Dizem que em certo lugar havia um menino que todos os dias e à mesma hora ia rezar à igreja. O facto era sabido. O sacerdote vendo que o garoto vinha todos os dias à mesma hora e que passava sempre uns minutos diante do Santíssimo Sacramento, perguntou-lhe:
— Que vens pedir a Deus todos os dias? Qual é o teu problema?
Ao que o menino respondeu prontamente:
— Senhor Padre: Eu não lhe peço nada. Nem tenho grandes problemas. A única coisa que pergunto a Deus é em que O posso ajudar!

A Nossa oração deveria ser como a daquele menino que vivia perguntando a Deus como O podia ajudar todos os dias. Perguntemos-Lhe neste domingo o que nos pede Ele e peçamos-Lhe a graça de podermos cumprir a sua vontade de salvação.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Divinas mãos e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas,
Meu Deus, que por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às vossas são devidas,
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer no vosso transformado.

Em Vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso, cada um deu do que tinha.

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas de meu Senhor, redenção minha!

(Hino da Liturgia das Horas)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A Jesus sacramentado

(Eis uma breve oração de louvor a Jesus sacramentado. Pode ser uma bela oração diária. Não é muito comprida e até é fácil de memorizar.)

Seja louvado, adorado,
amado e correspondido a cada momento,
o Coração de Jesus
em todos os sacrários do mundo
até à consumação dos séculos.
Amen!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Uma palmeira, pardais e meninos

Reclamaram comigo porque trago o blog abandonado. Foi a primeira vez que resmungaram, nunca tal tinha acontecido. Porque há quem leia e não quero que se sinta desprezado, pobre, triste e abandonado, aqui vai.
Confessarei então o meu pecado e penitenciar-me-ei dos meus erros. Sim, penitenciar-me-ei, apesar do blog se chamar DEPOIS DA HORA, o que pretende indicar que depois da hora tudo pode acontecer, até ganharmos o jogo num penalti inexistente.
Isto às vezes é tão depois da hora que pode nunca chegar a ser blogado. Nem tudo é blogado, obviamente. Não é porque o pão está cozido que se abre o forno. Nunca se abre logo o forno. Por isso, podemos sempre esperar que depois da hora nada haja.
Mas confessar-me-ei, como disse.
A meus pés correm agora as águas dum rio calmo. Não me beijam logo os pés porque entre as águas e os pés está um oceano de crianças aos gritos de hora a hora. Gritam tanto as crianças, agora!, ou sou eu que estou a ficar velho? Mãe, eu gritava assim, antigamente? Ou são os novos heróis que são mais belicosos e em mim adormeceram os antigos e a ferrugem que corrói as suas armaduras não os deixa mexer-se muito?
Entre as crianças e a minha cela há ainda uma palmeira enorme que me entra pela janela e enche quatro quintos do quarto que está num alto primeiro andar! Por essa razão eu quase nem vejo as crianças, apenas os gritos. E o rio apenas sei que corre ali, já ali.
E depois há aquela palmeira enorme. É uma palmeira da Judeia, julgo eu, embora aqui se alimente melhor que acolá. Quase sempre que ergo o olhar vejo a palmeira a espreitar e digo-lhe: - Olá, palmeira da Judeia! E ela que gosta que fale com ela, agita os braços mais altos, que os debaixo são tão velhos e secos que já nem caem nem se mexem.
Na palmeira da Judeia há uma colónia de pardais ou verdelhões. Brincam tanto e tanto cantam que já nem sei se são os pardais que estão no recreio, se são os meninos da Judeia que treparam à palmeira e dali saúdam com ramos e cânticos Aquele que vem em nome do Senhor!
Sei, sim, que os meninos e os pardais, onde quer que estejam, estão ali, mesmo à beirinha da minha janela. E eu a vê-los, e eu a ouvi-los. E por testemunha a palmeira da Judeia.
De manhã e também há noite há uma porta de vidro que se abre. E por ela entram pessoas e saem pessoas. Entram comboios que saem ronceiros da Ponte Eiffel e saem comboios que entram ronronantes na ponte sobre o rio que quase banha os meus pés. E entram camiões e carros, turistas e devotos. E tantos outros, e tantos muitos. E tantos sem rumo e muitos buscando um porto de abrigo.
Antes que a noite chegue conto os camiões vazios que dão saltos no trapézio duma tampa do saneamento que está no trilho deles, um pouco ao lado da palmeira da Judeia.
E depois que desce a noite voam gaivotas em torno da torre sineira, até que se afastam ou até que adormeçam.
E ao sair do carro que me trouxe, a primeira coisa que vi foi uma pomba, um juvenil, que andava ali, esperava-nos por ali, aguardando que lhe déssemos migalhas e não saiu de junto de nós enquanto não repartimos com ele meio biscoito.
E tendo-me confessado, julgando nada ter esquecido, submeto a esta confissão os pecados da minha vida passada, e a vós peço penitência e absolvição!

segunda-feira, 31 de março de 2008

Ser padre

Ser padre é ser pai.
Pai que cobre com o manto de Deus o frio da humanidade.
Pai que vela de noite pelo rebanho, em benefício da sociedade.

Ser padre é ser sacerdote.
Sacerdote que reza de joelhos,
intercedendo humildemente pelo seu povo.
Sacerdote que pede a Deus para que jamais se rompam os laços
que unem o rebanho ao Bom Pastor.

Ser padre é ser ponte.
Ponte que liga margens separadas, que liga o céu e a terra.
Ponte que une as diferenças,
para construir a fraternidade que come do mesmo Pão.

Ser padre é ser candeeiro.
Candeeiro que traz luzes que iluminam as nossas vidas;
luzes claras que clareiam os caminhos dos que caminham.

Ser padre é ser servidor.
Um servo forte e corajoso que vai aonde é preciso.
Um servo que leva a bandeira da paz aos desavindos.
E que aos fracos oferece o Pão que alimenta até ao fim.

Ser padre é também ser mãe.
O Padre é uma mãe que traz ao mundo a ternura e a misericórdia de Deus.
É uma mãe que nos ouve e nos abençoa,
e, que quando caímos nos perdoa e nos envia de novo a caminhar.­

terça-feira, 18 de março de 2008

Sigamos o Rei

Sigamos o Rei!
Desçamos ao vinco dos vales, bebamos fontes.
Sigamos atrás de muito mais que a fantasia:
subamos promontórios e montes,
subamos com amor e com alegria.


Sigamos o Rei antes que morra!
Sigamo-l’O. A viva água
serena desça dos olhos ao coração
e banhe em nós os rios imensos de mágoa
e banhe em nós os cofres de solidão.


Sigamos o Rei depois da cruz!
Sigamo-l’O a vida inteira
aonde quer que Ele vá.
Sigamo-l’O como a vez primeira,
Sigamo-l’O ontem, hoje e amanhã.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Bem-aventuranças

O Evangelho deste Domingo apresenta-nos Jesus rodeado pelos seus discípulos, no alto dum monte. O Mestre senta-se e ensina. É assim que prova a autoridade e a segurança da doutrina das Bem-aventuranças. Elas resumem a força e a dinâmica do Reino de Deus, pois Deus semeou no coração humano a semente da confiança e da bondade, da mansidão e da misericórdia, da inocência e da constância.
Tudo está a começar e isso se vê na abertura à proclamação da Boa Nova e na forma simples e cooperante com Jesus. Que assim de simples são os bem-aventurados.

O porteur

A Nouwen chamaram-lhe o santo ferido, que é mais ou menos o título dum livro seu. Era ao que parece um homem brilhante. No momento mais alto da sua vida chegou, com alguma frequência, a dar conferências em três continentes diferentes em apenas uma semana. Era muito estimado e reclamado. Mas também inseguro, de altos e baixos e depressivo. Conseguia entreter, sem enfadar, uma assembleia de milhares de pessoas durante duas horas.
Estava sempre em busca, sempre insatisfeito, sempre agitado, sem paz. Muitos depois de lerem os seus livros, ao conhecerem-no pessoalmente ficavam desiludidos: não era como o haviam imaginado...
Admirava o circo e nele via o outro lado da espiritualidade, ou, melhor dito, uma maneira outra de a ver. Gostava sobretudo dos trapezistas. Deles dizia, pensando na experiência de Deus que somos chamados todos a viver: «Eu só posso voar livremente quando sei que há um porteur para me amparar. Se temos de arriscar alguma coisa, de ser livres, no ar e na vida, precisamos de ter a certeza que há um porteur. Temos de saber que, ao descer em queda livre, alguém nos vai amparar, garantindo a nossa segurança. O grande herói é o que menos se vê. Confiemos no porteur.