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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Solnado
O senhor Raul Solnado cumpriu cinquenta anos de vida artística. Houve o foguetório do costume, mas talvez não tanto como mereceria. Registo apenas um breve declaração sua «em cinquenta anos aprendi a dizer “não” e foi isso que me fez chegar até aqui». Também o ouvi dizer não ser rico, que escolhera o outro caminho, e que era isso que o fizera chegar às bodas de ouro com uma imagem inatacável. Lá terá razão. Se o diz é porque tem razão.
Não posso deixar de destacar a humildade da afirmação: aprendi a dizer “não”, e em consequência sou pobre... Mas está no coração de todos nós, concluo eu!
Por estes dias lia algo parecido. Era uma reflexão sobre o saber dizer “não” quando deve dizer-se não, ou dizer “sim” quando é de se dizer. Sobretudo, espelhando-me na reflexão de R. Solnado, penso ser nosso dever reflectir (e dizê-lo urgentemente aos nossos jovens) sobre o drama da nossa sociedade que nos prepara para a aquisição e não se atreve a falar e a propor o despojo; que nos amestra para a acumulação e a posse de coisas e mais coisas (e de pessoas e ideias), mas nunca nos ensina o desprendimento! É verdadeiramente espantosa a simplicidade da resposta à pergunta por que não temos mais Solnados em todas as áreas da nossa vida colectiva!...

Martínez
Ainda é jovem e tem duas filhas que vivem longe. Actualmente vive em Espanha, mas já residiu nos EUA «onde tinha tudo»... É calmo, tranquilo, comedido. Durante cinco anos e meio esteve preso, três dos quais no «Corredor da morte» à espera duma injecção letal que nunca chegou porque se descobriu o erro judicial e foi ilibado. Na prisão estudou Ciência Política e Teologia.
Como é que, na prisão, se vive e se resiste à espera da morte? Joaquín José Martínez resistiu confiando. Sempre confiou e confessou corajosamente a sua inocência. Confiou em si, e sobretudo em Deus. Veja-se:
«Deus é tudo para mim. Ele é a vida. É fácil de dizer isso, mas a verdade é mesmo essa. Se não acreditasse em Deus, se não confiasse que Ele me ajudaria, que sempre estaria a meu lado eu teria ficado louco»!
«Com tantas horas para pensar como as que tive alcancei um contacto pleno comigo mesmo e com Deus».
«Acreditar é a única maneira que existe para se continuar a viver quando a linha do horizonte é a cela da frente e se tem data marcada para morrer».
«Hoje estou vivo [na terceira parte da minha vida] e é apenas isso que conta»!
Hoje vive em Espanha. Livre. Vive a terceira parte da sua vida com a consciência de que é pequenino, mas vive calmo, sereno, comedido e sem raiva. Porque existe só Um que pode preencher a nossa necessidade de posse.

Divinus
Apareceu aí nos escaparates um disco com «sucessos portugueses». O autor é o grupo Divinus. O disco está no top por uma de duas razões e até talvez pelas duas, e quem sabe, até talvez por outras... A primeira tem a ver com o nome que remete para o além, para o sublime, para o diferente, o inusual e o sagrado. A segunda porque os sucessos são interpretados segundo o modelo do canto gregoriano. Depois, claro, a palavra «sucesso» é em si apelativa, logo também ajuda a subir no top. Dizem os entendidos que os sucessos foram bem escolhidos e bem interpretados. Só que aquilo não é canto gregoriano, é outra coisa.
Mas a coisa resultou.
Estes «sucessos» têm duas virtudes. Uma é a de chamar a atenção para essa grande música que é o canto gregoriano. Outra é que é sempre preferível ouvir interpretações originais do gregoriano, aliás disponíveis nas discotecas, porque, essas sim, revelam toda a espiritualidade e transcendentalidade que vai falhando aos nossos dias. Valerá a pena ouvir os Divinus?, talvez. Mas melhor que a água do cântaro é a da fonte!

Votar
Domingo há eleições. A democracia não é possível sem exercermos a nossa obrigação cívica depondo o nosso voto na urna. Por isso, domingo vá votar. Não votar é votar no partido da abstenção. E a abstenção é a negação da democracia. Exerça o seu direito, cumpra o seu dever. Não nos deixe governados por alguém que não venceu o partido dos que se negam a construir a democracia, a abstenção.

Vitória
Em Nova Iorque onde antes estavam as Torres Gémeas estão agora dois enormes fachos de luz. Excelente ideia. Já muitos haviam referido que a vitória fora derrota. Os EUA não se amedrontaram e ultrapassaram por cima aquele drama enorme.
Mas resistir à tentação da reconstrução das Torres foi uma vitória maior ainda. Nem construir umas torres ainda maiores seria vitória tão grande. Onde uns semearam escuridão outros fizeram renascer luz; onde reinou a morte impera agora a luz. Honraram-se os mortos com dignidade e ilumina-se a memória dos vivos. Olhando aqueles dois enormes fachos de luz todos seremos impelidos a dizer «Nunca mais»! Parece-me uma excelente ideia. Quem poderá agora derrubar a luz? Que aviões ou que armas, que idologias ou fanatismos poderão derrubar a luz? Quem poderá apagar a memória de tal horror?

1’ de sabedoria
O Mestre tinha um discípulo obcecado pela ideia da vida após a morte; um dia disse-lhe o Mestre:
-- Porque vives perdendo o teu tempo pensando no que vem depois da vida?
-- Mas, é impossível não pensar.
-- É claro que é possível não pensar.
-- Mostre-me então, desafiou o discípulo, como se pode viver não pensando no que vem depois da morte?
-- Simplesmente vivendo o céu na terra!
-- E onde está o «céu na terra»?
-- está á sua volta, aqui e agora!

[12 de Março 2012]

domingo, 14 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Montanhas
O ano de 2002 foi consagrado como o ano das Montanhas e do Ecoturismo. É intenção primeira promover o contacto com a natureza. E defendê-la também. Penso que é uma excelente ideia. Uns promoverão, estou certo disso, o contacto com a montanha; outros chamarão a atenção para as agressões de que ela é vítima. Creio que as duas acções são legítimas e necessárias. Pela minha parte devo dizer que da minha janela vêem-se montanhas. Mas as montanhas que vejo já não são as mesmas que eu via antes. Estão a mudar muito as montanhas. Agora rebentam lá bombas e pouco a pouco vão aparecendo feridas. Grandes feridas. É o que vejo. Onde antes via verdura e água transluzindo como prata sob o sol de Inverno hoje vejo restos escuros de pedra. E só podem ser grandes esses restos, por que a distância a que os vejo também é grande...
É a febre do ouro em Marco de Canaveses! Não é bem a do ouro, mas a da pedra. Claro que compreendo que se tenha de trabalhar para “ganhar a vida”. E também compreendo que também aqui deve existir a oportunidade de se ser rico. Mas o que já não compreendo bem é que a nós, cá debaixo, só nos reste a possibilidade de contemplar os restos das entranhas da montanha de Rosém...

Oração
Canta um poeta que quando a terra quis rezar surgiram as montanhas. E tem razão. Só as montanhas sentiriam o apelo de se elevar (e nos elevar) para o alto. São as montanhas como braços que a natureza elevou para louvar o Autor da criação. Digno de todo o louvor é quem criou a criação! E não podendo cantar com hinos nem com trinos a natureza inventou as montanhas que se elevam para Deus. É o seu jeito de louvar, elevando-se...
Sensível à beleza da criação S. João da Cruz canta assim: «Ó bosques e espessuras, / plantados pela mão do meu Amado, / dizei-me se por vós terá passado»... Há na natureza algo da beleza de Deus. E quem passa pela natureza como que passa a caminho dAquele que por ela primeiro passou vestindo-a de formosura, Deus! A natureza é assim espelho da Sua beleza e possibilidade de bem nos caminharmos para Ele. Daí que menos se percebam as agressões de que ela é vítima...

Retiro
O primeiro domingo da Quaresma fala do retiro de Jesus antes da sua vida pública. Foram quarenta dias e quarenta noites de deserto, de solidão! É extraordinário como o retiro está de novo na moda! Novos e velhos não resistem ao apelo e retiram-se do bulício do dia a dia, e às vezes do de fim de semana que não é menor. Os retiros dos velhos não são como os dos novos. Os primeiros são mais certinhos, mais calmos, mais ponderados, mais atentos, mais sintonizados. Os segundos são também interessantes, levantam mais interrogações, explodem em energia, convicções e generosidade. Não prefiro uns ou outros, ambos têm a sua beleza.
Porém, outro tipo de retiros começa a ganhar terreno. São os retiros de silêncio. Durante um fim de semana desligam-se os telemóveis, os televisores e telefonias, a internet e os jornais... Não se fala, ouve-se. Não se comenta, silencia-se. Não se aprende, abre-se o coração.
A Laurinda Alves, na última Xis fala disso. Diz que são retiros que roçam a poesia e que curam! Ajudam a ouvir-nos e a entender-nos; separam o principal do acessório e são de uma força tremenda! Afinal de contas, é nos retiros de silêncio que ela tem encontrado as respostas para os maiores mistérios da vida!

Quaresma
Há quem não goste da Quaresma. Lá têm as suas razões. Acabamos de celebrar o segundo domingo quaresmal, o da Transfiguração. A Trindade Santíssima revelou-se como o Deus fiel que cumpre a sua palavra. Ficamos a saber que o futuro do homem fiel não é nem a ruína nem a cruz, mas a glória. Que não estamos ameaçados de morte, mas de transfiguração. E embora isto não elimine a sombra e a tentação, dá, contudo, sentido ao nosso caminho ainda que caminhemos (quase só) de noite.

Domitília
É portuguesa, de Faro. Tem 46 anos, é solteira e vive há 33 anos nos EUA. Primeiro lavou a roupa de emigrantes e deu explicações de matemática, e à noite estudou com os pés metidos numa bacia de água fria porque era preciso tirar vintes. Hoje gere fortunas, vive num apartamento pequeno e as horas vagas oferece-as como voluntária. O mundo de Wall Street,  do Carnegie Hall e do Metropolitan, e os sub-mundos da fome e do horror da Etiópia, Haiti, Angola, Guiné não lhe são estranhos.
Chama-se Domitília dos Santos, deu uma entrevista a Adelino Gomes publicada na Pública e diz coisas assim:
«[Quando fui trabalhar como voluntária para a Etiópia] entrava no meu quarto às nove da noite e só podia sair dele às cinco da manhã. Pedi uma tábua para dormir no chão, tinha ratos na cama»;
«Para se ter sorte é preciso trabalhar muito e bem»;
«Um homem ou uma mulher só vencem com trabalho, trabalho, trabalho»;
«Há pessoas cuja vocação é dar aulas a crianças. A minha é ajudar crianças e velhos a morrerem com dignidade»;
«[Quando olho para o mundo ocidental, penso:] Você está a discutir por cinco dólares, a discutir porque não lhe deram não sei quê? É irrelevante. Na Etiópia as pessoas não têm nada, pão, açucar, nada para comer»;
«Desejo ir à missa todos os dias. Fico mal disposta quando não vou»;
«A pessoa rica é aquela que consegue ser feliz gerindo o seu dinheiro»;
«O meu ídolo é Jesus Cristo. E depois a Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela, Martin Luther King, Gandi»;
«O meu lema é ‘faz o teu melhor, e não te preocupes com o resto»;
«Actualmente quero aumentar o negócio e ganhar menos. Para distribuir mais pelas pessoas à minha volta»;
«Rezo e conto em português».
Felizmente ainda existem pessoas interessantes! Alguma destas coisas poderá ser afirmada logo à noite por algum dos candidatos a Primeiro Ministro?

1’ de sabedoria
O Mestre parecia que frequentemente desencorajava os seus discípulos a viver dependendo sempre dele. É que o Mestre sabia que caso isso acontecesse eles jamais conseguiriam entrar em contacto com a Fonte interior.
Por isso, um dia, disse-lhes o Mestre:
-- Existem três coisas que, estando perto de mais são nocivas; e estando longe de mais são inúteis. Devem, portanto, ser mantidas a uma distância média. São elas o fogo, o governo e o director espiritual.

[26 de Fevereiro de 2002]

terça-feira, 9 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Arley
Arley era jovem e tinha sonhos. Mas trucidaram-lhe os sonhos de jovem. Tinha 30 anos e de nome completo Arley Arias García. Era sacerdote, colombiano, e foi assassinado numa emboscada. Em Maio de 1999 a guerrilha queimou-lhe a igreja paroquial e Arley voltou a construí-la. No dia 22 de Novembro do ano passado uns desconhecidos assassinaram-lhe um irmão. Mas nem assim Arley, o P. Arley, abandonou o sonho de ver o seu país pacificado, e por isso se preocupava em ser ponte de paz. Várias vezes, com sucesso, junto da guerrilha, tinha solucionado vários sequestros. Até que chegou a sua hora de ser mártir. E foi. Testemunhou com a vida o amor ao seu povo, à Igreja e a Deus.
Na Alocução do Angelus de 3 de Fevereiro, como se falasse do P. Arley, dizia o Papa: «Os mártires não desprezam a vida. Permanecem, isso sim, fiéis ao Deus da vida e aos seus mandamentos e aceitam o martírio».

Eleições
Saídos de umas aí vamos nós para outras eleições. É interessante verificar como alguns dos nossos políticos usam carimbos que não autenticam nada. À luz da doutrina social da Igreja Católica aí vão dez princípios que o Papa tem proclamado no sentido de orientar os políticos (sobretudo, os cristãos):
1. Servir a sociedade procurando o bem comum e promovendo a participação solidária de todos.
2. Viver e trabalhar em coerência com os princípios cristãos que o inspiram.
3. Fundamentar a sua actuação na inalienável dignidade da pessoa humana.
4. Interpretar a justiça de acordo com a doutrina social da Igreja, conforme o seu leal entendimento.
5. Promover a justiça e a igualdade de oportunidades para todos, em especial para os mais necessitados ou desfavorecidos.
6. Cuidar que a lei positiva se enraíze na lei natural.
7. Defender a cultura e a vida, de modo especial, em relação aos mais indefesos: os não nascidos, crianças, idosos e doentes terminais.
8. Defender a família como célula básica da sociedade e como escola de valores.
9. Promover o diálogo, longe dos afrontamentos.
10. Submeteras leis do mercado à justiça e à solidariedade.

Assis
Em Assis o Papa reuniu as religiões do mundo. Fê-lo mais uma vez num tempo em que já ninguém esconde o enorme esforço para remeter a religião para trás da cortina. No palco vê-se de tudo menos religião. Porém, quanto mais se remete para trás do cenário mais a religião vem para boca de cena. Assis é sinal disso. O 11 de Setembro também. O que antes remeteram para o oculto e o privado veio para a rua e para a luz do dia! Existem dois trabalhos muito comuns na sociedade actual. O primeiro, como fica dito, trata de ocultar a religião. O segundo é lançar poeira aos olhos. E já que vamos para eleições aí vai o desafio do esclarecimento. Porque não nos dizem os senhores políticos o que pensam fazer à Lei da Liberdade Religiosa? E à Concordata? E às Instituições de Solidariedade Social? E à presença das Igrejas nas escolas e nos meios de comunicação social? E já agora, as religiões são espinhos na sociedade ou parceiros de diálogo?
Que o Estado seja laico e não se deixe manipular. Mas que quem nos governe reconheça a nossa matriz cultural, a nossa história, as nossas referências religiosas. Não defendam a (nossa) fé, clarifiquem as vossas opções. Digam o que entendem por direitos, deveres e privilégios. E nem importa que coloquem o assunto religião na gaveta, mas depois não se aproveitem dos nossos recursos e potencialidades sociais renunciando às responsabilidades próprias.

Milagres
D. Fernando Mascarenhas, marquês de Fronteira, desafiou a Comunidade de Leitores a ler e debater um livro policial. Começaram a falar de detectives e personagens suspeitas e acabaram a falar da Bíblia. Alguém disse: «à parte os milagres, a Bíblia podia passar-se hoje».
Devo esclarecer que tanto quanto percebo a Bíblia passa-se ainda hoje, até nos milagres. A verdade é que aquilo que se passa na Bíblia é o grande diálogo de salvação entre Deus e Humanidade. E aí está o milagre: Deus faz-se entender e amar pelo coração humano! Inclinou-se sobre a Humanidade para a elevar até junto do seu coração! Querem maior milagre? Que Deus me desafie todos os dias a saltar para os seus braços não é isso um grande milagre? Serão precisos mais milagres?

Quaresma
Começou a Quaresma. Repete-se à comunidade cristã o convite oficial para renovar a sua cordial adesão ao projecto de Jesus. O Povo  de Israel nasceu na quaresma do deserto. Por isso, todos os anos peregrinamos ao deserto onde nada há — ou melhor onde só há Deus! — para renovarmos as raízes. Foi no deserto que Deus educou o seu povo, ali lhe provou o seu amor de pai e lhe falou ao coração. «Desejo convidar todos os crentes, diz o Papa, a uma ardente e confiada oração ao Senhor, para que conceda fazer a cada um uma renovada experiência do seu amor». Boa Quaresma...


1’ de sabedoria
O mestre perguntou aos seus discípulos:
-- o que é mais importante, a sabedoria ou a acção?
Os discípulos responderam todos juntos:
-- A acção, naturalmente! De que vale a sabedoria que não se concretiza em acção?
E o mestre retorquiu:
-- E de que vale a acção que não nasce dum coração iluminado?

[12 Fevereiro de 2002]

sábado, 6 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



€urros
Chegou o Euro. Finalmente. Chegou o euro, chegaram os €urros. Inevitavelmente. Um bar duma área de serviço das auto-estradas francesas recebeu um pagamento em euros de brincar: eram do jogo do Monopólio!; em Lisboa um restaurante pagou-se 600 contos duma refeição de 4.000$00; e no Funchal um outro pagou-se 3000 contos!; Lionel Jospin, primeiro ministro francês, pagou dois ramos de flores a preços exorbitantes... Aparentemente sem fazer contas!; o nosso ministro das finanças sabia a que correspondiam 50 euros, mas já não sabia quanto eram 100!; e o balcão duma instituição bancária austríaca entregou euros aos clientes a preços 25 vezes menos o seu valor! Dizem que a SIC saiu por aqueles dias à caça dos €urros. Andou a filmar e a interrogar velhinhas a contar euros. Parecia o Minas e Armadilhas! Filmou muito, mas não muitos erros. Chegou o euro, chegaram os €urros. E em boa verdade os €urros vieram de quem menos a SIC esperava.

Geração
O Vicente Jorge Silva inventou a Geração Rasca. Outros responderam dizendo que afinal era à rasca! O Carlos Cruz acaba de inventar a Geração Fantástica. São meninos e meninas de dez/doze anos. Algo há neles, na óptica de quem e de como os apresenta, que faz deles fantásticos. Talvez estejamos mesmo contemplando uma geração fantástica que, a sê-lo, será sempre devedora da actual. É fantástica até nos tiques que inevitavelmente copia. Afinal é filha do nosso tempo, não haja dúvida.
Parece que o futuro está garantido. Há matéria prima, faltará trabalhá-la.
Vi quase todos os testemunhos fantásticos e parece-me que nem tudo vai mal. Temos um compromisso com o futuro e existem as condições que impedirão de o falharmos. Mas como ninguém é fantástico antes de tempo faltará sê-lo convicta e persistentemente. A ver vamos.

Mestre
Como se abraça um mestre? Um destes dias passava pelo Porto e já era quase noite. Numa rua com um jardim minúsculo mas bem iluminado vi um velhote todo embrulhado no seu surrão escuro. Vi-o e tive a tentação de lhe dizer que se animasse porque, afinal de contas a vida é bela e o ano só tinha começado ontem... Pensei e ia a dizê-lo quando reparei que o velho era o meu velho mestre R. Castro Meireles (um dos poucos a quem me atrevo a chamar assim.). O diálogo foi assim:
-- (surpreso) Ó senhor doutor...
-- (surpreso também) Ó carmelitano!
-- O senhor está bom, sente-se bem?
-- E tu onde estás agora?
-- Estou em Avessadas. Sente-se bem? Quer que o leve a casa?
-- Não. Não. Subi agora da ponte D. Luis por aí acima. Parei aqui e estava a rezar. (Atrás havia uma trupe de outros velhos a jogar às cartas.) E tu como estás?
-- Mas sente-se bem?...
-- Sim, sim... Parei só p’ra rezar. Estava a rezar... Cuidado com os quarenta anos, cuidados com os quarenta anos... Podes ir-te embora, fico aqui a acabar de rezar e já vou embora.
Ainda me ofereci outra vez para o levar a casa. Mas não deixou. Só queria ficar ali a rezar por nós que andamos nos quarenta anos. Despedi-me saudando-o mas sem o abraçar, afinal estava a rezar por mim. Por mim que não sei como se abraça um mestre que está a rezar.

Xis
Há uma revista feita ao contrário das outras. Ao menos é o que eu acho. É feita com fé, com amor e com muita esperança. É feita pela positiva, a pensar em ajudar. E ajuda, ajuda muito. Sai ao sábado juntamente com o jornal Público e chama-se XIS. A revista é interessantíssima e como é feita ao contrário das outras serve, ajuda, sugere, voluntaria-se, anima, encoraja, acalenta, arrisca, aponta caminhos e soluções.
Eu gosto da XIS, e não sou só eu. Quem a faz também. Costuma dizer-se que as boas notícias não são notícia. A Laurinda Alves acredita que a boa notícia é duplamente uma notícia. Ainda bem que assim pensa. Porque do seu esforço e do esforço da sua equipa sai uma revista diferente porque é capaz de anunciar boas notícias.
Vivemos um tempo anestesiado pelas más notícias e pelos comentários que no dia seguinte elas provocam. Basta ouver os telejornais e confrontar-nos com as tais conversas. E basta verificar o choque que as más notícias já não nos provocam.
Uma revista como a XIS não deveria existir. Quero dizer, não deveríamos precisar duma revista a dizer bem, a dizer boas notícias. Não deveria existir simplesmente porque o que não precisamos mesmo é de más notícias. Mas já que o nosso céu noticioso é tão escuro ainda bem que lá apareceu uma estrela polar.

Escolinhas
Entrei para o Seminário tinha acabado de fazer dez anos. Pouco depois só se aceitavam rapazes com 12 e mais tarde com 15. Agora preparamo-nos para aceitar com idades superiores. As coisas mudam, e entre elas a disponibilidade das famílias em libertar os filhos para os Seminários. Além disso o tempo da infância e da adolescência alargou-se o que torna cada vez mais tardia as rupturas necessárias. Recordei-me disto quando há dias vi uma reportagem sobre escolinhas de futebol. Não sei dizer mas talvez fosse na França ou na Suiça.
A reportagem mostrou o dia a dia duma dessas escolinhas, a captação de vocações, o acompanhamento, as práticas e prelecções, os treinos e os estudos, as visitas às famílias e aos amigos, as saudades das famílias e as dos eleitos, as lesões, as competições, os ciúmes, os anseios, as esperanças, os sonhos. Havia uma ressalva, salvo dum ciganito, de ninguém se dizia que pudesse vir a ser uma estrela.
Havia uma coisa que mantinha aqueles adolescentes unidos no sonho: poder vir a brilhar numa constelação qualquer do futebol europeu! Era isso que os fazia suportar todas as dificuldades que todos diziam detestar.
Só não os vi rezar, porque se os visse a caminho da capela diria que até parecia um Seminário.
Enquanto ia vendo a reportagem pensava nas similitudes entre as escolinhas de futebol e os Seminários. Porém, as primeiras são, sem dúvida, mais sedutoras que os segundos. As primeiras estão cheias, os segundos vazios. E, sinceramente, não sei dizer quem mais falta faz, se o sacerdote se o fazedor de sonhos que é o futebolista!

1’ de sabedoria
Disse o mestre a certo aluno que o venerava com certo exagero:
-- Quando a luz iluminar um muro não tentes venerar o muro iluminado. Venere antes a luz que ilumina o muro!

[21 de janeiro de 2002]

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Assis 3
João Paulo II convocou as grandes religiões do planeta para a cidade italiana de Assis. No dia 24 de Janeiro de 2002 haverá nova jornada de oração pela paz. Será a Assis 3!
Foi no 27 de Outubro de 1986 que o Papa convidou pela primeira vez as religiões para uma jornada de oração. Era um encontro «para estar juntos para rezar pela paz». A convocatória estranhou a todos. O mundo vivia o risco sério de confronto nuclear entre Este e Oeste. Três anos depois do encontro caía o Muro de Berlim!
A 9 e 10 de Janeiro de 1993 o Papa convocou cristãos, muçulmanos e judeus para um «Encontro especial de oração pela paz na Europa e especialmente pelos Balcãs». Vivíamos a guerra da Jugoslávia...
Na sequência da crise de 11 de Setembro o Papa convoca, pela terceira vez, as religiões para Assis. Recusando-se a ver neste conflito uma guerra de religiões o Papa está convencido de que a matriz do mundo muçulmano é a tolerância e o convívio com as outras religiões. No dia 24 de Janeiro estaremos juntos a rezar pela paz. Ninguém mandará em ninguém porque todos desejamos o bem precioso que a todos faz falta, a paz.

Gatos
Dizem que têm sete vidas. Cá tenho as minhas dúvidas. Explico-me. Na novo troço que traz a auto-estrada à ponte de Canaveses (e em muitas outras estradas do país, estou certo.) tenho visto gatos e até cães mortos. Um destes dias contei onze! Negros eram oito! Passados oito dias continuavam lá, e uns dias depois também. Não me espanta o azar dos gatos em quem reconheço certa habilidade na gestão no gastar das vidas, mas já me espanta que ninguém se sinta responsável a poupar-nos aos tristes, repetitivos e incómodos espectáculos dos animais mortos nas nossas estradas...

Bin Laden
O Pedro não sabia quem era o bin Laden. Na cara do Pedro vi a estranheza que eu mesmo devo ter feito quando ouvi tal nome, que é sinónimo de terror e medo. Um dia depois o Pedro não vira ainda o filme, porque o imediato impedira de absorver toda a informação sobre o 11 de Setembro. Muitos disseram que o mundo pós-11 de Setembro estava diferente, tinha mudado. Só não mudara no casulo mais vigiado. Porque não havia informação!
Será talvez exagerado afirmar mas hoje é a informação que nos faz. A informação, não a formação. Por isso somos tão voláteis, porque aquilo que nos vai formando — a informação — também o é. Como não aguentamos informação requentada necessitamos de nova dose de novidade que sacie em nós a ânsia de saber o que se passa no mundo que passa. Há nisto algo de perverso: vivemos demasiado projectados para fora, assustamo-nos se temos de parar e de fazer introspecção. Logo, ou recebemos informação — isto é, coisas novas, até estapafúrdias — ou estamos mortos de tédio.
Ninguém aguenta o silêncio...
Antigamente as grandes personalidades construiam-se sobre o a calma, a atenção prestada ao que deveras era essencial. Em razão disso levavam tempo a construir e muito mais a passar de moda! Hoje as grandes banalidades constroem-se sobre o que passa, o secundário e o banal. E como tudo passa tão depressa não admira que tenhamos medo de nos encontrarmos connosco próprios. Até porque é difícil encontrar-nos connosco próprios que — até para nós — estamos de passagem.

Rir
Temos de estar sempre a rir. Quem não ri não tem piada, e quem não faz rir não serve para amigo. Ou estamos na onda (Sabes a última, perguntamos.) ou remamos contra a maré. É curioso e talvez trágico verificar que rimos, parece-me, para não pararmos para pensar. O real é tão impróprio para consumo que tacitamente assinamos um acordo que diz: bora, pessoal, vamos rir. E rimos para que que nos vejam rir, e não porque tenhamos razões para isso.
Dizia S. Teresa de Jesus que um santo triste é um triste santo! Não me parece que devamos ser soturnos e carrancudos. Não, isso não! Somos portadores da melhor notícia: Jesus ressuscitou (e nEle, e por Ele ressuscitaremos nós!)! Quem se confia à dinâmica da fé no Ressuscitado só pode ser feliz. O católico é alguém que ri, que é feliz. E nos tempos que vivemos rir é sinal de fé.
Não é, por conseguinte, disso que vinha falando. Porque o que a mim me surpreende é o absurdo do riso de quem ri porque já não acredita em nada.
Feliz 2002!


Chico Fininho
Estudava eu Teologia e uns colegas quiseram visitar/conhecer o meu convento. Foram, e visitaram. (Não sei o que esperavam, hoje penso que talvez um centro comercial com muita música, muito ruído, muito movimento...) Não estavam ali há dez minutos quando me pediram, vamos embora que este silêncio (o meu querido silêncio conventual!) cansa e oprime! Acabamos a tarde no bar da Faculdade ao som do Chico Finhinho...

2000
Tudo passa, só Deus não muda. Passa o tempo e passa a desgraça, e por graça só Deus é que não passa. Embora em nós passe a percepção e a relação que temos com Deus. Assim como uma aurora entrega à outra a mensagem e o segredo do recomeço, assim um ano entrega ao outro o desejo de novidade.
Começou 2002. Na Igreja ouvimos textos de paz e de bênção. Ao Deus que não passa imploramos a graça da bênção sobre tudo o que passa. O amanhã não será sem o ontem, mas como temos necessidade do novo e do diferente há em nós desejos de paz. Porém, a frieza do nosso cepticismo diz-nos que o passar dos dias pode cunhar na nossa memória datas como a de 11 de Setembro, e por isso armamo-nos de falsa prudência. No fim de contas, não queremos que se repita a cena mas pouco fazemos para construir esperançadamente a paz. O Papa ensina que só há paz onde existe justiça, reconciliação e perdão. São coisas que requerem tempo, exigem muito trabalho e nós não temos paciência. Mas valeria a pena... Feliz 2002!

1’ de sabedoria
-- Desejo ver a Deus..., disse o discípulo.
-- Pois está olhando para Ele agora mesmo, disse o mestre.
-- Então porque não o vejo?
Mais tarde o mestre explicou aos outros discípulos:
-- Pedir que Deus se revele totalmente nesta vida é pedir que o olho veja o próprio olho; ou que a faca se corte a si mesma; ou que o perfume da flor se cheire a sim mesmo.

[1 de Janeiro de 2002]

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



As boas festas da Estrela Rabuda

O meu cartão de Boas Festas aos leitores do jornal A Verdade será este que segue junto ao texto. Não é um cartão habitual e na minha perspectiva dispensaria palavras. Mas por ser tão inusual direi que ofereço uma Estrela Rabuda (nome que em algumas terras dão à estrela que guiou os Magos até ao presépio) cujo interior guarda um labirinto. À entrada do labirinto estão três personagens; à saída do labirinto estão três cruzes.
Não parece cartão de Boas Festas, pois não? Mas a Estrela Rabuda não engana. Ela é, essa parece-me ser a mensagem, a luz que ilumina o Natal e a Páscoa. E nos ilumina a nós entre o nosso natal e a nossa páscoa!
Diz o povo que escreve Deus direito por linhas tortas; ou, direi eu, escreve a historia de Jesus, a Luz que nos guia, nos labirintos da história dos humanos. E embora os errados caminhos da humanidade sejam o labirinto de linhas onde se inscreve Jesus, a verdade é que este é um labirinto de Luz porque por ali passa Jesus. A Luz orienta Jesus e orienta-nos desde o Nascimento e Morte.
A luz é Jesus!
Na Sexta-feira Santa as lágrimas impedem-nos de ver luz num dia tão escuro como o dia da cruz. Mas o dia tenebroso só tem sentido, como só tem sentido o dia luminoso, se a luz for Jesus!
Há nestes jogos que costumam surgir nas páginas dos passatempos dos jornais uma tarefa que se torna obrigatória a quem a lê. Depois de passearmos os olhos pelas páginas das notícias e de comprometermos o coração e a razão com tanta notícia nem sempre boa alguns jornais oferecem-se para nos fazer passar ainda mais tempo. A tarefa proposta é a de ir desde uma origem a um fim guiando alguém aparentemente perdido pelo contexto de linhas escritas por mão todo-poderosa e  sábia.
Curioso que aqui a mão humana obstaculize o caminhar divino! Sim, porque aqui no labirinto da Estrela Rabuda é mesmo Jesus no seu Natal entrando nos labirintos da história humana que inapelavelmente O levarão à cruz!
Pegue o amigo leitor ou leitora num lápis e mostre o caminho a Jesus. Mas primeiro, feche os olhos e lembre aqueles tempos pequeninos em que tudo nos parecia demasiado grande. Recorde aqueles tempos em que começamos a aprender a rabiscar e depois a transformar rabiscos que só nós entendíamos em letras entendíveis por todos. Recorda-se de quando a mão do professor, da mãe ou do pai segurava a nossa para nos guiar no desenho da redondez do ‘a’? Pois, então, feche os olhos. Não importa que não veja a Estrela Rabuda! Está a imaginar o labirinto? Sim, o labirinto da Estrela Rabuda? Sim, o labirinto da vida? Pronto. Então agora aceite percorrer o labirinto. Você está de olhos fechados, a sua mão vai guiando Jesus pelo labirinto da sua vida. Mas não esqueça: se vai guiando Jesus é porque a mão de Jesus guia a sua mão!
Isso é Natal! Jesus vindo ao seu labirinto, você sendo levado (levada) por Jesus!
Isso é Natal! A luz vindo sobre as chagas dum povo ferido e sobre os ombros dos paralíticos incapazes de caminhar!
Isso é Natal! A luz já se vislumbrando nas covas sem luz dos cegos e já se anunciando nas poderosas trombetas interiores que só os surdos atentos à Palavra ouvem.
Feliz Natal!

 [12 de Dezembro de 2001]

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Radical
O Padre Custódio Campos foi para Cabo Verde quando Portugal ainda não conhecia a palavra stress. Quando para lá foi há 47 anos!, como missionário, disseram que fora castigado. Ele nega. Foi por gosto, com sentido de missão. Agora quem não quer regressar é ele. E só virá de vez se for castigado! Mas o Padre Campos já não é um garoto da quarta classe... Ficará por lá, estou certo.
Em 47 anos veio três vezes a Portugal, a última foi em 1987! É um missionário itinerante e radical. Tem uma moto, uma Yamaha Cross 125 cc, na qual percorreu vinte e dois mil quilómetros nos últimos dois anos. A sua vida não pode ser uma vida chata, de certeza. Para quem gostar de motos, claro. E não só...
É um homem de fé e de humor. Nos tempos que correm a primeira implica o segundo. Não duvido que tenha fé, e humor tem de certeza. Repare-se no que diz sobre o dia da sua morte: «costumo dizer que quando morrer vou de mota para o cemitério, chego lá, tiro o capacete e digo ao coveiro: — ‘agora tome conta da mota, que eu vou pelo meu pé’». E para quem se questionar sobre a sua saúde mental remata dizendo: «temos de levar a vida com optimismo». E a morte também, digo eu.
Pode não gostar-se do tom; por mim aprecio a imparcialidade.

SIDA
No dia mundial contra a SIDA deste ano a Igreja fez saber que não está alheia à Peste. Faz saber a quem não sabia... Eu já sabia. Entre outras coisas, a Igreja não se encontra indiferente ao esforço colectivo de avisar toda a gente que:
a)      Dada a gravidade da SIDA poder vir a contagiar alguém é grave Responsabilidade Moral;
b)      A prevenção dos riscos da SIDA é uma exigência de Dignidade da Sexualidade
e do Amor;
c)      Na Sociedade há excluídos, mas não há excluídos no Projecto Amoroso de
Deus.
É verdade. A Igreja não está indiferente por muito que (nos) queiram provar (e se queiram autoconvencer) que está.

Silvina
Palavras de João Paulo II na sua recente visita pastoral à Ucrânia: «Hoje não é suficiente falar de Cristo. O grande desafio dos cristãos é ajudar as pessoas a vê-lO. Dai ao povo a possibilidade de ver o seu Salvador. Testemunhai com a vida e com as obras a presença do Ressuscitado entre vós».
Irmã Silvina, não deixe apagar a vela que apresentou ao altar no dia do seu jubileu de consagração religiosa. Precisamos de luz que ilumine e esparse as sombras que ocultam a sua Presença.

Dalai Lama
Da passagem do Dalai Lama por Portugal fica-me esta frase: «para que sejamos felizes é necessário que os outros também estejam felizes». Deixo todas as peripécias para trás e guardo para sempre esta frase como bandeira contra todos os egoismos, contra todos os ostracismos. Fico-me a pensar (inspirando-me mais uma vez no Dalai Lama:) que eu nunca sou individual porque integro o outro, os outros. Não sou isolado; acampanular-me é um risco de morte.

Harry Potter
O mundo anda sério demais. Carregado demais. Escuro demais. Quem, em algum momento, não precisou dum tempo e dum espaço de evasão? De galgar as ameias que nos prendem à dureza e ao sufoco do real? Não admira por isso que o cinema fantástico tenha sucesso. Dentre tanto fumo e nevoeiro ou surge um arco-íris ou perdemos o norte. Não me estranha o êxito do Harry Potter: três horas de ilusão compensam muitos dos sem-sentido da vida do dia-a-dia.
Os avós deixaram de contar histórias, e os pais ou não aprenderam a contá-las ou não têm tempo. E com isto se perde o nosso património cultural. Salve-nos o cinema que ainda nos vai concedendo pitadas de magia e evasão. A escala é global, não tem o sal próprio dos regionalismos. Mas ao menos não nos falte o pão da magia que acrescenta e multiplica mundos ao mundo.
O mundo anda sério demais. E mais sério fico eu quando ouço dizer que a autora do Harry Potter viveu (e passou fome) em Portugal, Vila Nova de Gaia. E ainda mais quando me confirmam que um editor português recusou publicar a primeira aventura do Harry Potter. Talvez que se nascesse português Harry nunca chegasse a ser global; afinal, a língua da magia e do sonho é, nos tempos que correm, o inglês!


1’ de sabedoria
O amado foi visitar a amada. Quando chegou junto da tenda bateu à porta. A amada perguntou: — Quem é?
O amado respondeu: — sou eu!
E fez-se um enorme silêncio após o qual, triste, o amado regressou a casa.
No dia seguinte o amado regressou a casa da amada. Ao chegar bateu e chamou. A amada perguntou: — Quem é?
O amado respondeu: — sou eu!
E fez-se um enorme silêncio após o qual, triste, o amado regressou a casa.
No terceiro dia o amado foi de novo a casa da amada. Ao chegar bateu e chamou. A amada perguntou: — Quem é?
O amado respondeu: — sou tu!
E foram felizes para sempre.

[5 de Dezembro de 2001]

sábado, 30 de março de 2013

Notas de Roda-pé



Mais
O Comandante Ezequiel está mais crescido. Que me perdoe este modo de entrar com ele, mas as palavras — ou pelo menos a ideia — são dele. O Com. Ezequiel foi quem comandou as operações de resgate na tragédia da ponte de Entre-os-rios. Agora conta tudo num livro. A epopeia está lá toda. Devo dizer que o homem já me impressionara na altura. A clareza, a economia do discurso (dizia o que devia ser dito sem exageros nem falsas esperanças), a solicitude, o empenho, a responsabilidade. Na braveza daquele mar de água em que, no Inverno passado, se tornou o rio Douro o Com. Ezequiel comandou a armada sem perder um navio. E como tinha a televisão a fazer permanentemente directos estava directa e permanentemente a ser policiado. Enquanto andava responsavelmente a esquadrinhar o fundo do Douro nós espiolhavamos-lhe a alma e os pensamentos, as hesitações e o medo, a fé e a técnica, a tática e a sabedoria.
Agora o Comandante escreveu um livro para nos contar o que aconteceu. E aconteceu que ao menos um de nós cresceu como homem. Desde que a ponte falhou sobre o abismo alguém é mais homem. Amadureceu muito o Comandante!
Todos vamos amadurecendo na vida. Andamos a amadurecer até morrer e caímos de maduros quando morremos. É certo que a vida a todos vai concedendo oportunidades de amadurecimento. Uns aproveitam-nas, outros não. Em trinta e cinco dias o Com. Ezequiel cavalgou a experiência do limite e da pequenez, e fez o que tinha a fazer: cresceu como homem! No Inverno passado Gil Eanes regressou ao Bojador. E saiu mais homem!

César
A César o que é de César. João César das Neves é economista e perguntaram-lhe pela fé. Respondeu afirmando que era católico e que o católico deve viver com os olhos postos no céu, porque é para aí que está a caminhar. Se vamos passar a maior parte da vida no céu (e agora só estamos na sala de espera) o melhor é, pensa César das Neves, ir praticando o que havemos de viver. Como bom economista César das Neves sabe bem onde se fazem as melhores apostas. E já fez as suas. Não desprezou as de cá, mas apostou descaradamente tudo nas de lá!

Prática
João César das Neves não é padre, é católico casado. Perguntaram-lhe o que pensa dos católicos não-praticantes. A resposta é interessante e sem teias de aranha. Respondeu que respeita todos os que estão em processo de adesão e seguimento de Jesus. E rematou dizendo que lhe é difícil entender um católico não-praticante como lhe é difícil entender um casado não-praticante!...

Sem Deus
Pela mesma altura Jorge Coelho também foi entrevistado. E também lhe perguntaram sobre a fé e sobre Deus. Vejamos: é baptizado, é de formação católica, fez militância católica, conhece os valores da Igreja Católica e navega por referência a eles; não é praticante (mas é casado e tem dois filhos baptizados), não é católico mas agnóstico. No que faz não precisa de Deus, mas sempre nos informa que respeita os crentes e as Igrejas. Se a entrevista não tivesse seis meses diria que o Governo queria eleições.

Credebilidade
Há tempos o Instituto das Ciências Sociais divulgou um estudo sobre valores e comportamentos dos portugueses. Na altura causou surpresa — embora mais em quem mais doeu — a alta percentagem de confiança depositada na Igreja Católica: 63% consideram-na ‘extremamente importante’! Respondeu quem respondeu, doeu-se quem se doeu; sendo que, lá diz o provérbio que se sente quem é filho de boa gente.
Por mim anoto que o século XXI está nomeado para ser o século da religião. O século XX terá tentado ocultá-la, negá-la ou amordaçá-la. Não conseguiu. O actual talvez nos mostre a não-utilidade da religião e nos (in)forme àcerca do seu não-ser descartável, reutilizável, consumível. Talvez o século XXI nos revele como a religião é integradora de todo o homem e do homem todo. A vida humana não pode ser amputada na sua ligação à Fonte, sob pena de que não ligado à Fonte o rio deixe de ser rio e nunca sinta aquele apelo integrador que é o que o constitui como rio: querer correr para o mar.

1’ de sabedoria
Os alunos do Mestre passavam o tempo pedindo-lhe umas palavras de sabedoria só para eles. Um dia o Mestre declarou:
— A sabedoria não se exprime em palavras. Ela revela-se na acção.
Depois de ouvirem isto os discípulos mergulharam de alma e corpo em plena actividade. Então, o Mestre deu uma gargalhada e comentou:
— Mas isso não é acção! Isso é apenas movimento!

[18 de Novembro de 2001]

quinta-feira, 28 de março de 2013

Notas de Roda-pé



Deus
Ouço dizer que uma revista colocou na capa o seguinte: «liga a televisão, vais precisar de Deus!». Não é da minha memória porque não o vivi; mas é da minha memória porque li e ouvi falar muito sobre isso. E ouvi que o século vinte viveu sinceras tentativas de arquivar Deus. Uns remetiam-nO para a pasta dos casos sem solução; outros para os assuntos ‘top secret’; outros para a secção dos perdidos e achados. E como o século vinte e um é filho do anterior não admira que este tenha aprendido daquele. O que admira, e admira a muitos, é que, apesar de tudo, Deus acabe por entrar por uma das janelas que mais ajudou a arquivá-lO: a televisão!
Parece que, ultimamente, nenhum outro fenómeno como o de 11 de Setembro, em NY, levou tanta gente às igrejas e os reencaminhou pelos caminhos de Deus! E não foi só em NY, mas porque o fenómeno teve repercursões mundiais o reflexo foi também mundial.
S. João da Cruz diz que Deus não deixa uma prece sem resposta, um problema sem solução. E dá um exemplo. Imaginai, diz, que alguém reza pedindo: Senhor, livrai-me dos meus inimigos. E continua: imaginai que fugindo dos seus inimigos esse que assim reza cai nas mãos dos seus temíveis inimigos e estes lhe dão a morte. Que diremos? Muitos dirão que as suas preces não foram atentidas. O que não é verdade, porque, de facto, esse que morreu às mãos dos seus inimigos se encontra agora fora do alcance das suas mãos, e, por isso, livre dos seus inimigos. Assim é Deus nos seus/nossos negócios!
Se, pois, ligardes a televisão — diz a revista — ireis precisar de Deus. Eis que Ele entra suscitado por um dos inimigos que mais O combateu. As muitas tentativas de O arquivar e afastar surtiram efeito contrário: aproximaram-nO e provocam em nós fome dEle.

Centros comerciais
São espantosas as romarias e as procissões que em dias de Domingo se fazem pelos centros comerciais. Há profetas que dizem que a tendência se inverterá. Por uma razão muito simples: nada ali preenche o vazio que o 11 de Setembro tragicamente desvelou em nós. São locais de ausência, e a fome não se mata com fome. O mesmo é dizer que o vazio não enche, enche-se. O regresso às igrejas recorda-nos — a nós que navegamos desde esta margem — que ali há Presença. Presença misteriosa, silenciosa, libertadora, acolhedora.

Todos os dias
É quando a festa vai acabando que mais se vai ouvindo o refrão: Natal é todos os dias. Creio mesmo que quem mais o afirma mais falha. É como naquelas histórias do tempo de garotos que terminam com juras. E quem mais jura mais mente, dizíamos.
Sinceramente aquilo que vejo — e vejo olhando desde a minha margem —, Natal não é todos os dias. Infelizmente, mas não é. O que até é bom para o marketing que vende a marca Natal.
E a prova aí está. Outubro ainda não terminou e, na rádio, já ouço anúncios de Natal. Um jornal para vender mais oferece postais de Natal. Não será por essa razão que haverá mais Natal, nem será por essa razão que o Natal é todos os dias. O jornal venderá mais, estou certo. Porque também é certo que o Natal já não é nosso, pelo que aquilo que as boas vontades não realizam é alcançado pela força do dinheiro. Se não conseguimos fazer Natal todos os dias o dinheiro impõe o Natal cada vez mais cedo. Não é mais Natal, nem melhor Natal; mas para nós é cada vez maior a obrigação de sermos Natal.

B. Frei Bartolomeu dos Mártires
Bartolomeu nasceu em 1514, em Lisboa, e na pia baptismal deram-lhe o nome de Bartolomeu do Vale, nome que aos 15 anos trocou por Frei Bartolomeu dos Mártires ao consagrar-se como frade dominicano. Na idade madura era um dos grandes intelectuais europeus, e aos 45 anos foi eleito Arcebispo de Braga. Participou no concílio de Trento que influenciou decisivamente. Foi mentor e mestre do bispo de Milão, S. Carlos Borromeu que se reconhecia discípulo do Arcebispo Santo. Morreu em Viana do Castelo em 1590. E foi no dia do seu discípulo, 4 de Novembro, em Roma, que o Arcebispo Santo, Frei Bartolomeu dos Mártires foi proclamado Bem-aventurado (Beato) pelo Papa João Paulo II. Em Braga, entre os pobres, foi pobre e humilde; em Roma, entre os bispos, foi grande e profeta. A sua voz profética escandalizou, em plena aula conciliar, o papa e os cardeais ao afirmar: «Os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais estão a precisar de uma ilustríssima e reverendíssima reforma»!

Simplicidade
Felizmente Frei Bartolomeu dos Mártires tem seguidores e herdeiros. Ainda hoje. No recém-encerrado Sínodo dos Bispos que decorreu em Roma, uma voz se levantou sugerindo — e até pedindo — mais simplicidade de vida aos bispos da Igreja. Foi o bispo equatoriano D. Victor Alejandro Corral Mantilla. Nas suas palavras o bispo equatoriano entendia «que a pobreza evangélica implicaria a renúncia aos títulos de monsenhor, excelência, eminência; e que os bispos se chamassem simplesmente padres (pais)». Ao concluir o Cardeal presidente respondeu: «muito obrigado, excelência!», ao que, ironicamente, o primeiro respondeu: «não tem de quê, eminência!».

1’ de sabedoria
Perguntaram ao mestre: - Como posso chegar a ser um grande homem como o senhor?
O mestre respondeu: - Porque razão deseja ser um grande homem se ser homem já é ser grande?  

[5 Novembro de 2001]

terça-feira, 26 de março de 2013

Notas de Roda-pé


O mundo aqui tão perto
Pegou a moda dos Emails. Num mundo a consumir excesso de informação eis uma nova fórmula que cria adição, mas que nos faz sentir próximos, unidos e em comunhão com os membros que se encontram no extremo da Aldeia Global e nos afasta da nossa mesma aldeia e dos vizinhos com quem vivemos paredes meias.
Nos últimos tempos recebi carradas de mensagens pela Net. De anedotas a histórias vem de tudo. Prefiro aquelas que, porque apelam à caridade e à solidariedade, me fazem sentir vizinho de gente a muitos milhares de quilómetros e me faz viver problemas de pessoas que eu nem sei que existiam. Não sabia, mas agora sei. E são meus vizinhos que fazem parte da minha história. Vejamos.

Membro honorário

Um chefe índio da Amazónia pede a minha solidariedade em forma de denúncia contra os estranhos que lhe invadem o território. Trazem progresso, dizem, mas só destroem. Depois que chegaram os homens do progresso a tribo nunca deixou de regredir em saúde, qualidade de vida, respeito pelas tradições antigas, paz, serenidade. Pedia que eu denunciasse e reenviasse o mail para as Nações Unidas e foi o que fiz. Devo ser membro honorário duma tribo amazónica de que já não lembro o nome!

Desaparecimento
Em Portalegre desapareceu um garoto dum colégio. Os pais recorrem a todos os meios para o localizar. Não têm Internet mas conhecem um amigo que tem. O amigo cumpre o seu dever de solidariedade e lá me chega mais um mail. Junto vem um anexo com a fotografia do garoto. Nem era preciso. Mantenho-me atento, mas nunca mais dou ou recebo notícias. Que terá sucedido a este habitante da Aldeia? Não sei, mas ainda continua na minha teia de preocupações. E desde esse dia há mais uma ausência em mim. E lá foi mais uma carrada de mails.

Dar sangue
Num hospital há um amigo à espera duma operação. Claro que não o conheço, mas a mensagem apresenta-o assim e eu estou disposto a ser amigo de todos os que estão em privação e necessidade. O seu sangue é do tipo B-, um tipo raro, como se sabe. Não é o meu e não posso fazer muito, mas a operação é mesmo urgente senão eu não teria recebido um mail. Em poucos minutos faço operação de reenvio, e logo à noite muitos dos meus amigos vão receber a mesma mensagem. É assim a solidariedade...

Burlas
Alguém em nome de uma operadora de telemóveis anda a cometer fraudes. Não percebo muito bem, não sei bem quem ganha. Mas todos — quase todos — os meus amigos usam o telemóvel. Aqui é para bem dos que conheço e nem hesito, aí vai mensagem para todo o pessoal. No fim aquilo soou-me a publicidade implícita, mas, sem pensar, colaborei.

Vírus
Os computadores são ferramentas sensíveis. Não há nenhum que o não seja. E os que estão ligados à Rede são-no ainda mais. O mínimo percalço provoca danos terríveis. Às vezes perde-se o trabalho de muitas horas... Quase todos os dias recebo notícias de novos vírus e da forma — simpática, sugestiva, insinuadora — como se apresentam para nos lixar. Agradeço aos que pensam no meu bem, e já que devo fazer bem sem olhar a quem, aí vão, indiscriminadamente, novas mensagens a avisar do mesmo.

Estórias
Também há estórias bonitas, mensagens encorajadoras. Há muitas fontes de esperança e de confiança. Se és pai, tens estórias de pais; se és joven, encontras estórias de jovens; se és professor, tens estórias edificantes para professores. Ainda não encontrei estórias para padres — ou se calhar são todas... Mas, talvez não tarde. Porém, até as que são para os outros eu leio. Desta forma fico a saber como está o mundo, como palpita o seu coração, quais são as suas preocupações e centros de interesse. E, claro, no fim lá re-envio as histórias segundo os destinatários e os interesses.

Inquérito
Também me chegou um inquérito. Há nele perguntas interessantes, outras nem por isso. O objectivo é ficar a conhecer melhor as pessoas que já conheço bem. E vice-versa. Li com curiosidade. Mas não respondi, embora seja obrigatório. Nestes inquéritos pode disfarçar-se muito ou maquilhar-se a preceito. Eu prefiro conhecer as pessoas no confronto do dia a dia. Mas não deixa de ser interessante mais esta utilização da Rede.

Só Deus basta
A Verónica vi-a ainda no fim de semana passado. Como gosta de nós e sabe que precisamos dela e da coragem dela, à noite, envia-nos mensagem a todos. Aqui vai: Boa noite, MUNDO!!! Bem, é só para dizer um grande OLA, que estou viva e que me lembro muito dos amigos com quem caminho apesar das distâncias, de todos... Muitas beijocas a até qualquer dia (quando menos se esperar...). Só quem tem paz em seu coração pode semear a paz! Teresa convida: "Mira que te Mira" E com o olhar a tranquilizar o que vivemos! Pois "Solo Dios Basta"... É importante que haja apoio mútuo dos amigos... de Deus!
Obrigado, Verónica.

Zacarias Kamuenho
Esta não chegou por mail. Vem na imprensa. Zacarias Kamuenho recebeu o prémio Sakarov de Direitos Humanos atribuído pelo Parlamento Europeu. Pelo dr. Mário Soares fiquei a saber que era o mais importante prémio europeu. O eurodeputado Ribeiro e Castro comenta dizendo que “é a primeira vez que o mundo reconhece um interlocutor que não tem o dedo no gatilho”.
Zacarias Kamuenho é angolano e é o bispo de Lubango. A sua palavra é de paz. A sua vida de fé. Talvez, talvez, quem sabe! Talvez já não veja a paz em Angola. Mas nós e Angola e o Mundo — e como precisamos disso nestes tempos! — ficamos a saber que no meio da guerra sem quartel há homens que parecem meninos. Nas mãos trazem flores, na boca sorrisos.

[19 de Outubro de 2001]

domingo, 24 de março de 2013

Notas de Roda-pé


Provérbio
Há, algures, um provérbio que diz assim: se queres educar uma criança precisas dum povo. Coisa difícil. Vivemos um tempo em que encomendamos a uma classe especializada — amas, educadoras, professores, gurus, treinadores... — a nossa responsabilidade de educar. Dispensamos o povo, isto é, a comunidade de identidade, e entregamos as crianças a uns oficiais, digo aos profissionais da educação. Mas como educar nasce do coração e não apenas da razão e do título de competência a coisa pode dar para o torto. Estes dias lia num jornal espanhol um cartoon (desenho). Dois rapazes vão falando pela rua:
-- Não digas baboseiras. Se os Reis Magos existissem estariam na internet., diz um.
-- Não necessariamente; os meus avós existem e não estão na internet, estão num lar.
-- Boa. Como sabes?
-- Porque um dia fugiram e encheram-me de beijos.
Realmente cada vez é mais difícil educar.
Vimos, a meu ver, cometendo no mínimo dois erros: primeiro, entregamos os nossos filhos à tal classe especializada. Mas esta nem sequer educa os seus filhos, pois os reencaminha pela mesma via que seguem os nossos. Como poderá ela educar os nossos filhos se não educa os seus? Segundo erro: limitamos o acesso das crianças ao conjunto do povo. O diálogo que transcrevi é disso sinal. Dividimos a sociedade (e a família) em secções: secção um: os que produzem; secção dois: os que já não produzem; secção três: os que produzirão no futuro. Por vezes parecem secções estanques, sem comunicação. E como o povo anda separado é difícil ensinar o que é um beijo e aprendermos (porque nós também andamos a aprender) que os beijos são a maneira como os velhos nos educam.

Futuro
Antes do Ataque à América os jornais falavam dos meninos católicos da Irlanda do Norte que para ir à escola tinham de ser escoltados por soldados. Se nos olhos dos meninos de seis e sete anos semeamos balas e camuflados que esperamos colher dentro de quinze ou vinte anos?
Nos desenhos do Luis Afonso é que está a razão. Antigamente os avós contavam histórias e mantinham viva a memória da história que parecia demorar em passar. Agora parece que contam coisas mais práticas. Por alguma razão o Luis A. desenhou dois avôs na cadeira de rodas. Um é palestiniano, o outro judeu. O palestiniano ensina o neto a escolher pedras e como se colocam e atiram com a funda da Intifada; o judeu ensina a armar uma metralhadora e a disparar contra os árabes. Já nem nos avôs se pode confiar...
O melhor é educar as crianças com um povo inteiro por mestre.

Efeitos
O Ataque à América, para além da enorme depressão e do que não sabemos estar ainda para vir, teve algumas consequências interessantes. Por alguma razão o discurso oficial diz mais ou menos que se deu um empate técnico. Morreram seis mil pessoas ou perto disso, é verdade, mas, o orgulho da jovem nação americana saiu reforçado; a solidariedade subiu para o seu lugar, o primeiro; Deus está mais presente.
São vários os sintomas do reforço do patriotismo. Fixemo-nos apenas no epicentro do Ataque. As Twin Towers ruiram mas o povo anónimo — não todo, claro — quer vê-las reconstruídas e ainda maiores e mais esplendorosas, ainda mais afirmativas do poderio da única superpotência.
A solidariedade subiu, vinda de vários quadrantes, e alguns até inesperados. Chegaram muitas ajudas, vindas de muitos sectores. Os heróis dos americanos são os bombeiros. São eles quem têm direito a sentar-se nos bancos dos transportes públicos; para eles abrem-se alas quando passam a pé pelo meio da multidão; vão para eles as palmas sejam espontâneas, sejam em cerimónias oficiais. Há, porém, um efeito ainda mais interessante, e até inesperado. Os novaiorquinos passaram a cumprimentar-se no metro ou no elevador, falam de si na rua uns com os outros como se fossem conhecidos. E irmãos são, pelo menos na ressaca da tragédia.
Deus parece, de facto, mais presente. Aparece presente em discursos que o acusam de ausente. Uns queriam-no tipo big brother, controlador de tudo e todos; capaz de desviar as Torres antes do Ataque e de as colocar no sítio depois dos aviões passarem. Outros, como não encontram formas capazes para dar de beber à dor vão lavá-la ao silêncio das igrejas, à presença do sacrário, às mesquitas e às sinagogas. Lêem poemas e salmos, cantam e acendem milhares de velas. Deus anda mais perto de Nova Iorque.

Arquitectura
Depois do Ataque a América deixou de rir. Naturalmente. Mas o Presidente já disse que os americanos se podem rir, ou pelo menos sorrir. É mais um efeito sintomático. Há, contudo, outros lugares de reflexão da qual o futuro se encarregará de recolher os frutos.
Vai ser necessário repensar as cidades como lugares de mega-concentração de pessoas e consequentemente — ainda que nem sempre visível — de declínio da qualidade de vida.
Vai ser necessário repensar a arquitectura vertical. Eu que estou convencido que reconstruirão as Torres teria muitas dúvidas em lá viver. Prevejo uma fuga para o campo. Vai ser necessário repensar uma nova ideia de cidade e de organização das pessoas. Como manter os mesmos níveis de eficácia sem a concentração de pessoas e de serviços que se verificam nas cidades? Como pensar as cidades do futuro?
Vai ser necessário repensar a segurança das sociedades, até porque ninguém duvida daquilo que nos apresentam como evidência: a falha de segurança. Sem xenofobias é necessário pensar nos que estão dentro, nos que são de dentro. Até porque, por vezes, desde este dentro se comanda o mundo. E ninguém gosta dum punhal apontado ao coração quando tem de decidir.
Os momentos de crise são fonte de crescimento. Diz-se que quem tropeça e não cai anda mais rápido. A ver vamos se é o caso.

1’ de sabedoria
O Mestre tinha um discípulo de quem gostava mais do que todos os outros, o que despertou o ciúme nos companheiros. O  Mestre — que conhecia os corações — deu-se conta disso.
-- É superior a vós em cortesia e em inteligência, disse-lhes. Façamos uma experiência para que o compreendais.
O Mestre ordenou então que lhe trouxessem vinte pássaros, e disse aos discípulos:
-- Pegai cada um num pássaro, levai-o para um lugar onde ninguém o veja, matai-o e trazei-mo cá.
Todos os discípulos saíram, mataram os pássaros e tornaram a trazê-los. Todos... menos o discípulo favorito, que devolveu o pássaro vivo.
-- Porque não o mataste?, perguntou o Mestre.
-- Porque o Mestre disse que tinha de ser num lugar onde ninguém nos visse., respondeu o discípulo. Ora, em todos os sítios onde fui Deus estava a ver.
--Vedes?, contestou o Mestre. Vedes o grau da sua compreensão? Comparai-o com os outros.
E os discípulos pediram perdão a Deus.

Boa noite MUNDO!!!

Bem, é só para dizer um grande OLá, que estou viva e que me lembro muito dos
amigos com quem caminho apesar das distãncias, de todos...
Muitas beijocas a até qualquer dia (quando menos se esperar...)

Só quem tem paz em seu coração pode semear a paz! Teresa convida: "Mira que
te Mira" E com o olhar a tranquilizar o que vivemos! Pois "Solo Dios
Basta"...

È importante que haja apoio mutuo dos amigos ...de Deus!


[17 de Outubro de 2001]

sábado, 23 de março de 2013

Notas de Roda-pé



Surpresa
Havia um rei a quem sempre liam o jornal. Desde o trono e com ar sério o exigente rei não permitia que se omitisse o mais pequeno dos títulos. E os servos liam obedientemente ao rei todos os títulos do jornal. Porém, jamais liam as letras pequeninas das notícias. Achava o rei que não deveria perder tempo com as letras pequeninas. E como não tinha paciência para elas ninguém lhas lia, e o rei não se inteirava do que diziam. Um dia o povo expulsou o rei do seu país e só o rei estranhou a ínfame expulsão de que se julgava vítima. Porém, isso era algo muito claro para os que liam as letras pequenas do jornal.

Herói
Se se puder falar de heróis depois do Ataque à América eu já tenho o meu. Chama-se Mychal Judge. Para ele era banal entrar na Casa Branca porque era habitual convidado dos presidentes norteamericanos, e por isso franqueava com naturalidade as portas da residência oficial do Presidente. Entrar ali ou na sede dos bombeiros de NY, socorrer os pobres ou visitar os doentes da sida era quase a mesma coisa para Mychal Judge.
Judge era o padre capelão dos bombeiros que socorreram as vítimas das Twin Towers. O seu colega Bill Feehan morreu ao ser atingido por uma mulher que caíra de um dos andares do edifício. Contra toda a prudência — porque mais que colega e bombeiro Judge era padre — recusou abandonar o local e ficou junto do moribundo celebrando com ele o sacramento da Unção dos doentes (há quem ainda lhe chame extrema unção...). E de lá não regressou, porque não teve tempo de retirar-se. A derrocada veio por aí abaixo e sepultou-o vivo.
Quando a noite do absurdo cai e nos cobre Deus dá-nos pequenas luzes que nos revelam que a esperança tem raízes no Seu coração, e que, por isso, nascerá sempre uma nova aurora!
Obrigado, M. Judge.

Ressuscitado
Eu vi a fotografia do P. Judge morto. Está sentado numa cadeirinha e cinco fortalhaços trazem-no até nós. Três são bombeiros, um é polícia e o outro é, supõe-se, um voluntário civil. O P. Judge vem reclinado sobre o seu lado direito, a dormir. A dormir, não. Vem sossegadamente, ressuscitado. Como só um herói que oferece a vida merece!

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Antes de morrer Todd não ligou para a mulher. Podia tê-lo feito, mas não ligou. Desde o avião que ajudou a derrubar para que o Ataque à América não fosse maior Tood preferiu, antes de morrer, falar com uma telefonista de Chicago. Como sabia que ia morrer perguntou-lhe se ela sabia rezar e pediu à telefonista que rezasse com ele. E rezaram juntos.
Grande é o mistério da oração. Um homem arbitrariamente condenado e morto levantou-se em contra-ataque contra os seus iníquos juízes, e num acto heróico frustou-lhes os planos. Grande é o segredo da oração. Tão grande que tem de ser partilhado.

Vou rezar
Dai-nos, Senhor, um olhar limpo que não Te manipule; dai-nos um coração que sinta como sente o Teu coração; dai-nos, Senhor, um coração que ame como ama o Teu coração; dai-nos, Senhor, um coração que se indigne como se indigna o Teu coração; dai-nos, Senhor, um coração que perdoe como perdoa o teu coração.
Ajuda-nos, Senhor, a crescermos juntos. Amen.

1’ de sabedoria
Você se orgulha demais da sua inteligência!, disse o mestre a um dos seus discípulos... Você lembra-me um condenado que, dentro da prisão, se gloria da grande vastidão da sua cela!

[23 de Setembro de 2001]

sexta-feira, 22 de março de 2013

Notas de Roda-pé



Dia Mundial da Criança
O dia 1 de Junho é o Dia Mundial da Criança. Na sequência das celebrações as minhas meditações foram estas:
Nkosi Johnson. O Menino Nkosi tinha só onze anos e nasceu com sida. Já não tinha pais mortos às mãos da Peste. Um escola havia-se recusado recebê-lo. Nkosi vestiu fato e gravata e para anununciar a sua doença, protestar contra a exclusão e fazer valer os seus direitos de criança. O Parlamento Sul-africano recebeu-o, ouviu-o e debateu o assunto. Também Nelson Mandela o recebeu ouviu e apoiou. Morreu menino, mas morreu a lutar pelos direitos dos meninos. Triste sina a dum menino que morre a lutar! Foi no Dia Mundial da Criança.
Menino guerreiros. É a moda, embora requentada. São usados sobretudo em África, mas não só. São mais baratos, mais fiéis, mais fiáveis, mais obedientes e menos exigentes. Com eles as guerras são mais baratas e nem por isso há mais derrotas. São trezentos mil em mais de trinta conflitos internacionais. Não ganham nada, só perdem. Uma vez li uma reportagem sobre os ex-guerreiros desmobilizados. Era todos meninos. Meninos? Talvez feras ou bestas, se crermos no relato do jornalista. Não tinham alma, nem regras, nem valores, nem futuro, nem história, nem comando. Estavam ali. Simplesmente apodreciam num charco de esquecimento e de drogas. Eram meninos que nunca tinham chegado a sê-lo.
Barco negreiro. Penso que foi em finais de Março. Um barco que conseguiu ser denunciado mas não encontrado transportava, algures, lá para o Atlântico Sul, meninos. Não se chegou a saber quantos eram (200? 300?), mas sabia-se para o que eram. Tinham sido comprados à miséria dos pais e iam como escravos, dum país para o outro. O comprador, ao que parece, não ia no barco. Quando a opinião pública mundial se começou a mover o barco começou a ter dificuldades em atracar: todos os portos africanos se recusaram dar entrada ao Barco Negreiro.
Quando finalmente atracou não trazia meninos, mas também não os tinha deixado em nenhum outro porto... E claro, o dono não vinha lá, mas se disser que é daqueles que gosta de champanhe e morangos e frequenta os locais onde a ementa se serve talvez não erre muito.
Timothy McVeigh. Ficará como nome maldito. De olhos abertos morreu executado depois de uma injecção. Tinha a minha idade e escolheu como últimas palavras as de um poema que diz: “Sou o senhor do meu próprio caminho, sou o senhor do meu próprio destino”. Fora o autor do maior atentado terrorista nos EUA. Custa-me compreender muita coisa, inclusivé como é que o Estado se assenhoreia daquilo a que não tem direito, a vida.
Na Suiça prenderam uma imigrante portuguesa. Era toxicodepende. E mãe. Três semanas depois a polícia entrou no apartamento da senhora e encontrou o cadáver de um bébé de ano e meio que morrera porque a mãe, presa, lhe faltara. Parece que, entre outras coisas, a polícia não atendeu a tempo a situação familiar da mulher. Mais uma vez o Estado se portou como um senhor feudal; e nem quero pensar que assim tenha sido por a mulher não ser suiça...
Para que cria um homem um filho? Que vale a vida?
Unamuno. Razão tinha dom Miguel de Unamuno num poeminha que eu recordo muitas vezes sem o saber de cor:
Aumenta a porta, Pai,
Para que eu possa passar.
Fizeste-la para os pequeninos
E sou crescido, para meu pesar.
E se a não aumentas, ó Pai,
Empequenece-me, por piedade.

S. João
S. João Baptista é o único santo que a Igreja além do dia da morte celebra também o dia do nascimento. Ao nascer os habitantes de Ain Karim, aldeia em que viviam os seus pais Isabel e Zacarias, perguntaram-se: “Quem virá a ser este menino?”
O dia 24 de Junho é um dia bonito para meditar na vida como dom. E nas surpresas da vida. E na recusa do dom! Espanta-me como nos tempos que correm as famílias jovens se vão escusando de ter filhos e vão fechando a porta à vida. Portugal mudou, já está moderno, ao menos na baixíssima taxa da natalidade. A moda é ter dois filhos, ou então um filho e um cão, ou pior ainda, dar lugar só aos cães.
Uma coisa é certa há uma enorme riqueza humana de que nos estamos a privar por causa da mesquinhez dos casais jovens. Quantos grandes homens e mulheres não teriam nascido se a regra fosse os dois filhos! Apostar num carro novo em vez dum filho é uma má aposta e a melhor aposta para se conseguir uma família triste. Há quem para lá da busca de conforto e bem-estar arrisque outra explicação — uma explicação bem pior. Se os casais jovens se recusam a ter filhos é porque perceberam que ‘assim não merece a pena viver’ e limitam os nascimentos. Assim como os animais exóticos em cativeiro se recusam a procriar, assim as gerações jovens. Se baixam os nascimentos é porque não querem oferecer uma jaula aos filhos. É capaz de ser duro de mais. Mas... não andarei muito longe da verdade.
Já vistes, Lili, que se os teus pais pensassem assim não terias nascido?

Prémio
Há uns tempos os noticiários informaram-nos que a Câmara de Figueira de Castelo Rodrigo oferecia um prémio. O critério era original: teria de nascer um filho na família! Portugal parece que é a região (região?) da Europa que mais favorece, logo menos combate, a desertificação do interior. O prémio concedido pela Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo é um triste sinal.

Prémio
S. Demétrios fora convidado por Deus para um encontro bem longe da cidade, na estepe. O encontro era com o próprio Deus. Quanto mais pensava no encontro mas S. Demétrios apressava o passo. Eis senão quando o seu caminho se cruza com o caminho de um aldeão cuja carroça se encontrava atascada na lama. O barro era espesso e o buraco fundo. Durante uma hora o aldeão e S. Demétrios lutaram a bom lutar para arrancar para cima a carroça. Quando tudo terminou o santo correu como pode para o lugar do encontro. Mas Deus já lá não estava.
Conclusão de alguns: há sempre alguém que se atrasa para o encontro com Deus. É que existem demasiadas carretas e outros tantos azelhas que as deixam presas na lama dos caminhos por onde havemos de passar.
Outra conclusão (certa): é bom estar preparado para o encontro com Deus. Ele acontece mais cedo do que contamos.

[3 de Julho de 2001]