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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Letreiro
Na estrada de Manhuncelos para o Castelinho há uma tabuleta. É uma tábua envelhecida pelos invernos a que ficou cravada num pinheiro. A tábua está escrita a letras azuis. E diz assim: «Deite o lixo no que é seu ou comam-no». Claro que a frase carece de concordância mas cumpre o que se lhe pede: faz passar a mensagem.
Como o local é semi-desértico proporciona-se para os atentados ecológicos (chamemos-lhe assim...). Passa-se por ali, e como ninguém vê, deixa-se ficar o que quer que seja.
Tal como estamos não estamos bem. O lixo que não serve ou que não se quer reciclar despeja-se num quintal ou num terreno bem longe de nós. Quem leva com ele em cima é que não fica bem, daí o tom ameaçador da mensagem: se não sabe destruir o seu lixo coma-o!
Infelizmente não posso estar mais de acordo. Reconheço que nem todos se podem responsabilizar pelo ‘desaparecimento’ do seu lixo, mas todos podemos ser mais responsáveis com o lixo. E como ninguém se atreve a comer o seu lixo também ninguém devia atrever-se a dá-lo a comer a outros, que amor com amor se paga!

Lixo
De algo parecido me lembrei eu quando vi as notícias da poluição ali para os lados de Várzea de Ovelha. A notícia veio publicada duas vezes. Mesmo assim (e apesar de terem sido publicadas com pouco tempo de intervalo) as denúncias parecem-me poucas.
Eu já lá tinha passado e sou testemunha. Se não de tudo do muito que as palavras e as fotos documentam.
Não sou publicitário. Mas passando a ironia sugeriria das notícias de Várzea algo parecido à receita da tabuleta de Manhuncelos. Seria assim: «Você deseja, você merece. E nós pensamos em si. Venha passear pelas nossas encostas, apreciar as nossas paisagens! Não pense, disfrute!
«Oferecemos destroços de carros e pneus, frigoríficos, televisões, latas de tinta e roupa velha, tralha variada e restos de materiais de construção. E brindes-surpresa.
«Por vezes o cenário é polvilhado de vísceras de animais (e se for o seu dia de sorte até poderá assistir ao espectáculo de vários e diferentes anatomias de animais mortos!).
«Como bónus extra programa e sem onerar o preço poderá ainda contemplar em acção a fauna local: insectos, ratos, ratazanas, cobras...
«Ao terminar o espectáculo oferecemos um copo de água recolhida no local.»
Eu sei que é exagero. E daí talvez até nem seja. A verdade é que se nós somos os agredidos pela paisagem violada alguém há que, mais abaixo de nós, bebe da água que conspurcamos.

Traição
Falemos de escândalo. Talvez até exista uma razão obscura, ou talvez até seja simples coincidência. Mas quase não há dia em que não se relatem escândalos com padres. O modelo do escândalo português passa sobretudo pela incompatibilidade de diálogo entre o sacerdote e os fiéis; o escândalo anglosaxónico é mais violento e repugnante, a pedofilia.
Àcerca do segundo existem algumas reflexões que se podem construir. A primeira é sobre a eleição. Jesus quando escolheu os seus primeiros apóstolos rezou muito e foi em diálogo com o Pai que os elegeu. Depois ensinou-os, falou-lhes intimamente, deu-lhes poder, enviou-os a anunciar e curar, lavou-lhes os pés, matou-lhes a fome. E no fim de tudo foi traído por um dos seus. Traído com um beijo...
Contemplando a morte de Jesus vemos que, nada menos nada mais, foi um eleito quem O atraiçoou! Contudo, a Igreja não se centrou na traição, mas na força transformante da vida da Comunidade Apostólica. Infelizmente o escândalo não é algo novo para a Igreja!

Lupa
Segunda reflexão. A Igreja Católica dos EUA reconhece a gravíssima gravidade das acusações de abuso sexual de menores. Mas também reconhece (como o afirmam testemunhos exteriores à Igreja) que as acusações são exageradas e exageradamente empoladas o que configura a ideia de perseguição. E nem sequer se chama a atenção para a imensa maioria de sacerdotes que permanecem fiéis e serenos, de conduta exemplar ao serviço dos fiéis.
É verdade que existe pedofilia na Igreja dos EUA. São cerca de 30 casos nos últimos vinte anos. Não escusa, mas são uma pequena porção comparados com os mais de cem mil (103.660) acontecidos na sociedade estadounidense só em 1998! Não é a Igreja que está doente, é toda a sociedade norteamericana! O crime é sem desculpa, mas de que lupa se servem os meios de comunicação para transtrocar os dados, para hiperinflacionar uns valores e encobrir outros? Melhor seria não ter de se falar do tema — por não existir assunto, claro. —, mas já que se fala deve dizer-se que 30 casos de pedofilia ou cem mil são sempre crime independentemente de quem os cometa.

Validade
Terceira reflexão. Quer seja o Papa João Paulo II a celebrar a eucaristia quer seja um sacerdote condenado à morte a eucaristia é sempre eucaristia porque o actor principal é Cristo que nos dá o seu Corpo e Sangue. Na verdade, nunca a eucaristia depende da santidade dos sacerdotes. Eles, como qualquer humano caiem em pecado. Isso o sabia já quem os escolheu... e, contudo, escolheu-os.
Porém, tal não invalida nem desculpa a má conduta e escândalo de alguns sacerdotes.  Nos tempos difíceis que se avizinham mais que nunca se exige a opção pela santidade. Sim, esta deveria ser a opção radical e permanente dos cristãos, ordenados ou não.

Napoleão
Conta-se que quando Napoleão e os seus exércitos engoliam a Europa o Imperador declarou a um cardeal: «-- Vou destruir a vossa Igreja!». O cardeal respondeu: «-- Não, não poderá!». Napoleão repetiu: «--Vou destruir a vossa Igreja!». Confiante o cardeal respondeu: «-- Não conseguirá. Nem sequer, alguma vez, nós o conseguimos fazer»!
Uma coisa é verdade: é cada vez mais difícil ser-se padre. Mas Jesus continua connosco e connosco quer reescrever os novos Actos dos Apóstolos do século XXI! Que resposta alcançará?

1’ de sabedoria
-- De que serve ter um mestre?, perguntou um visitante a um dos discípulos.
-- Para ferver a água você precisa de um caldeirão que seja intermediário entre a água e o fogo..., respondeu o discípulo.

[23 de Abril de 2002]

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