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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Notas de Roda-pé


A raposa

Todos falhamos, eu também. Intimamente propus-me no início do Ano Pastoral publicitar em tempo útil os pequenos oásis espirituais que, em tempo de férias estivais, brotam aqui e ali, à sombra de mosteiros ou santuários, como pequenas elevações de meditação e reflexão que a tantos renovam e convidam a subir. São recantos vários de tonalidades várias que por esse pequenino Portugal fora vão vivificando comunidades e gentes com a água viva do Espírito de Deus. São oásis, pronto. Pequenos remansos que purificam a seiva de comunidades, famílias e fiéis, sacerdotes e consagrados. Existem para todos os gostos, quero dizer, formatos, e são normalmente bem dirigidos e de substância consistente e nutritiva.
Seriam coisas do género Semanas de Espiritualidade, Jornadas de Oração, Encontros de Amigos de Orar – actividades promovidas pelo Centro de Espiritualidade de S. Teresa, adossado ao Santuário do Menino Jesus de Praga. São momentos fortes pensados para pessoas que chegam em família ou em grupo e até individualmente para regenerar o corpo, descansar o espírito e rezar.
Propus-me, dizia, publicitar esses pequenos oásis. Não o fiz e penitencio-me. Mas por que não o fiz, pergunto-me? Porque perdi essa oportunidade de conduzir alguém para esses quase secretos recolhimentos? Não o fiz por desorganização. É certo que não tenho nem muito espaço nem muitos meios, mas a disponibilidade de que disponho poderia ter sido usada para divulgar tanto bem que brota silencioso, tanta fonte generosa que por aí corre discreta. E não o fiz porque o ruído me caiu em cima, me dispersou, forçando-me ao lufa-lufa que cansa e distrai, obrigando-me a correr e a esquecer que é mais importante a atenção à beleza interior que a da fachada.
Falhei, está dito. Quero agora reorientar-me. Falarei por isso de raposas e de cães.
Conta-se num conto, talvez inglês, quem sabe, que numa caçada à raposa alguém se pôs a observar os cães. E que verificou? Verificou que numa dessas célebres caçadas os tempos são distintos e para resolver com naturalidade. Assim, há o tempo da espera, da perseguição e o fim. Enquanto se espera parece que nada passa, mas passa. Os senhores vão chegando com as suas matilhas trazidas por criados e servos. Chegam em suas jaulas, não por serem ferozes mas para os transportar seguros. À chegada a maioria dormita, parece desinteressada, mas na realidade não dispersam forças, e latem para sinalizar a presença e trocar pequenas mensagens, como quem diz: pensavam que eu não vinha?­­
Depois dá-se a largada e ao que parece um ligeira vantagem à raposa, que é hábil e ladina como se sabe. Logo de seguida largam-se matilhas enormes de cães que são seguidos pelos seus senhores a cavalo. Aqui vem o interessante da história. Depois que se dá a largada da cãozoada aquilo torna-se latir infernal. Todo o cão que por ali há, de tão excitado que se encontra, grita e esganifa-se na sua linguagem canina, e persegue o mais que pode a pobre raposa. Diz quem viu que a chinfrineira é infernal. Todo o cão berra, todo o cão late, todo o cão ladra no limiar da excitação. Correm como loucos, saltam valas e valados, vencem outeiros, ribeiros e muros. Tudo vale para se animarem a correr, para perseguir a prima raposa que lhes largaram à desfilada mesmo à frente do focinho.
Diz quem viu que alguns cães acabam por abandonar a perseguição. Não, não é que não saibam do ofício. O certo é que muito antes do fim alguns canídeos o abandonam. No entanto, a maioria prossegue a demanda. Mas logo outros, mais à frente, se vão deixando ficar. Também não é por se terem cansado, que alguns certamente se cansam mais rapidamente que outros. A verdade é que ainda muitos animam outros muitos. E todos correm e os senhores lordes também. Creio que a caçada ainda não vai a meio e mais de metade da matilha já se deixou ficar!
Creiam que é verdade, quem viu foi quem me contou. Aquilo é desporto de senhores, mas não dispensa as mais ágeis destrezas dos fiéis amigos dos humanos. Quando, falta um pouco menos dum terço são já pouquíssimos os cães dedicados a sinalizar a espantada raposa fuginte. E serão cada vez menos até serem poucos e raros.
Algumas vezes a raposa não é alcançada. Quando assim é merece o prémio da liberdade. Outras vezes é. Mas a pergunta que aqui conta e a que quero chegar é: por que tantos cães desistem da perseguição? Só sei o que me disseram: a grandíssima maioria desiste. Porque será? A resposta não é óbvia e de fácil alcance, por isso a adianto: os perseguidores vão desistindo porque vão deixando de ver a perseguida! À medida que a vão deixando de ver abandonam a correria louca e param! Enfim, alguma vantagem a raposa há-de ter sobre os primos. Eis o interessante: o ver é fundamental para manter vivo o interesse da perseguição. Não ver leva ao desânimo e à desistência. Na verdade parece que estas caçadas já não se realizam. Porém, a moral da história mantém-se.
Vertida a metáfora para a pastoral cristã, também por aí, creio, se pode justificar o porquê de tantos baptizados abandonarem os seus compromissos, o seu testemunho. Enfim, uns após outros, e muitos depois de muitos, vão deixando-se ficar e deixam de seguir o Senhor que caminha bem lá à frente de todos!
Creio que é bem plausível a hipótese. E é por essa razão que me penitencio. Enfim, neste Verão, terei contribuído para que alguns deixassem de ver a raposa? E esfriassem a sua fé e confiança no Senhor que chama a segui-Lo? Não sei. Mas sei que gostaria de não ter esta dúvida.

Máxima
«Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me.» (Lucas 9:23)

Mínima

«Onde é que te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido?
Como o cervo fugiste, havendo‑me ferido;
Saí, por ti clamando, e eras ido.» (S. João da Cruz)


[20 de maio de 2010]

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Notas de Roda-pé




Coração

(Não queria falar da crise. Por que muito se fala dela a propósito e a despropósito. E isso faz-me frio, um frio de descrença a que nós não estávamos habituados. Mas não falar dela torna-a ainda mais presente. Por isso falarei da lareira onde a crise se derrete: o coração!)
Que o coração é de carne todos o sabemos, mas é carne-músculo, o que por si só indicia que deve ser enrijecida. Mas haverá músculo e músculo, rigidez e rigidez, esclerose e esclerose.
Dou por mim a pensar em corações. O de Paulo de Tarso deve ter sido bem rijo, atlético e até guerreiro, não é só por ter anunciado o Evangelho em muitas asperezas, mas pela maneira como o fez: ardente, combatente, irresignado, em constante labuta apologética, em permanente estado febril.
O de Bartolomeu de las Casas foi igualmente imenso e amplo, ardente como um tempestade de fogo e com um arco-íris, inquieto mas justo, digno, livre e paterno, persuasivo e exigente e inflexível se necessário.
O de Martinho de Porres foi pequenino e dócil e piedoso, atento e escravo, paciente e humilde, desapegado, piedoso e com espaço para uma vassoura, uma bacia de água e ligaduras.
O de João da Cruz foi sereno, suave e puro, decidido, austero e terno, forte, doce e amigo, nele cabiam frades e passarinhos, primaveras, santos e anjos, profetas, pobres e poesia, e tinha de certeza uma mangedoura e um calvário!
Os das mulheres, de que aqui não falei, são iguais, mas talvez ainda mais fortes, mais valentes, mais ternos, mais decididos.
Já tenho descansado em corações e corações. Já tenho tropeçado e encalhado neles. E até levado por eles como em carroças aos solavancos. Nada de mal, nada de mais. Assim é com todos. Corações há por aqui e ali, por onde vou, cuja solicitude e meiguice é um descanso, um refrigério, uma praia amena com areia quente e ondas suaves.
Também há os que esperam algo de mim, muito de mim: serenidade e paz na confissão, fortaleza e unção na Eucaristia, silêncio e ternura nas voltas pelo claustro, compreensão e perdão num locutório, atenção e ouvido no inesperado dum sobressalto qualquer, sorriso e bênção pelos carminhos. Direi apenas que se faz o que se pode, que nem sempre o coração chega a todas as cambiantes. E há outros que esperam que me deponha nas mãos deles e eu com tanto medo das duras tenazes de ferreiro!
Estamos em início de ano. Chegamos aqui tão cansados, que cansados havemos de por uma e outra vez os pés ao caminho.
Num dos acasos típicos destes tempos dei de frente com uma canção. Poderia transcrevê-la toda aqui, que valeria a pena. Mas tenho dificuldade em traduzi-la na sua simplicidade. É espanhola e chama-se Gente. Os intérpretes, Presuntos Implicados, é um nome que, julgo, supõe trocadilhos que eu não alcanço. Fui procurar a canção deles. Fala ela de gente banal, de pessoas simples, muito simples. De pessoas anónimas que vão fazendo milagres que se coam na tecedura do tempo. Gente em quem não reparamos, mas em quem eu quero reparar neste início do ano. Não governam empresas, não gastam salários estapafúrdios, não realizam milagres financeiros na Bolsa. São gente simples de sacos plásticos na mão, com dores de cabeça e artroses como os demais. É gente assim que precisamos, que vamos precisar de valorizar mais e mais. Gente sem preço, a quem peço que não desista. Gente que não põe preço no que faz, a quem de quando em vez nos esquecemos de sorrir, de agradecer. São heróis, os meus heróis de coração que não encolhe em tempo de crise. Só não movem o mundo, mas sem eles o mundo fica mais perro. São gente assim que aquece o mundo, que espanta o frio ao nos trazerem para junto de nós o suave latido do coração.
Há tanta gente que encurta as horas dos cansados, que faz sonhar desanimados; gente que reza junto dos altares, que acredita, infunde e traz a paz. Gente forte de olhar seguro que leva gente aos hospitais, que visita lares e esparze a solidão de tantos apartamentos que parecem túmulos. Gente bem lembrada que não pensa em si, cujo tempo estica, estica, estica, e junto de quem duas horas parecem dois dias soalheiros. Gente que adivinha o tempo, que tem sempre tempo para dar. E nenhum preço para cobrar. Há gente de olhar que não olha, não fere, não inquire. Gente como anjos, como anjos serenos que beijam o sulco das lágrimas.
Estamos cada vez mais frios, mais separados, mais ausentes uns dos outros, mais incapazes de nos levantarmos do chão porque há tesouros que ignoramos, valores que começamos a esquecer, que preferimos não ver, não imitar, não aprender, não agradecer. E assim a malha vai ficando mais larga mais larga e o calor esvaindo-se por aí expõe-nos ao gelo da crise.
Bom ano, bom coração.

Máxima
«Jesus vive perpetuamente para interceder por nós.» (Hebreus 7:25)

Mínima

«Deus visita-nos, mas, a maior parte do tempo, nós não estamos em casa.» (Joseph Roux)

[11 de Fevereiro de 2007]

domingo, 11 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé



You’ll never walk alone*

Escrevo a meio da visita apostólica de Bento XVI a Portugal. O peregrino do Bem da Verdade e da Beleza chegou, entretanto, ao Santuário de Fátima, como um filho que veio visitar a Mãe rodeado de muitos irmãos e irmãs. A sua simplicidade e pequenez já nos tocaram: não parece um pastor rijo de cajado na mão, é um valente, um menino manso como um cordeirinho dos Pastorinhos. Os frutos da sua visita serão abundantes, porque semeados na humildade de quem vive da esperança.
Nestes dias de beleza e de espiritualidade apostólicas parece-me quase descabido citar o que citarei, o hino do Liverpool, equipa de futebol de Inglaterra: *«Tu nunca caminharás sozinho.» Mas é isso que leio na força de Bento XVI ao vê-lo caminhar lento mas firme, trémulo mas resistente, cansado mas confiante. Vejo-o a espaços e vejo que não caminha só. Caminha como um pai, acena como um patriarca, fala como quem confirma, puxa a justeza das palavras como quem lança caboucos. Vejo que lhe batem palmas, que abre com gosto a janela do papamóvel, que sorri e acaricia como um avô, que vem uma e outra vez à varanda da nunciatura, que acarinha aqui um menino, ali uma turminha, e além beija dois bébés. (Ah, os meninos, meu Deus!) E abençoa sempre. Vejo que as multidões acorrem, correm, se apinham. Os corações abrem-se, os ouvidos ouvem, as famílias franqueiam-lhe os sorrisos da alma. (No Terreiro do Paço havia tantas famílias jovens que não foram poucos a surpreender-se com a multidão daqueles trambolhos que são os carrinhos de bebé!)
Ninguém merece caminhar sozinho. Bento XVI não caminhou sozinho em Portugal. Não caminhará nunca sozinho.
Ninguém merece ficar parado com medo de caminhar só. Ainda que agrilhoado à mais redonda e pesada das impossibilidades ninguém está impedido de caminhar e crescer. Se não física, pelo menos espiritualmente. O lugar duma pessoa, muito mais se tem fé, se é peregrino, são muitos lugares e sobretudo os caminhos. Peregrino foi quem nos iniciou na fé, peregrino foi Jesus, peregrina é a Igreja. Sou eu, és tu. Enquanto vives esperas caminhando. Enquanto vives muito há por caminhar. Caminhar é algo que tardamos em aprender, embora alguns aprendam e depois não sejam mais que múmias. Caminhar é sempre caminhar com. Connosco, com os pecadores, com Deus, com os anjos e os santos.
Quem acredita em Deus nunca está só, gritou ao mundo uma nuvem de jovens azul turquesa! Sim, quem caminha acreditando nunca está só, porque Deus vai lá bem no íntimo, mais íntimo a nós mesmos que nós próprios, como hóspede sereno e valoroso companheiro de jornada. É essa, parece-me, e atrevo-me, a alma do Papa: Ele sabe que não caminha só. Por isso, muito gosto eu daquele caminhar feito de passinhos curtos, passinhos de quem é certo que caminha cansado, de quem, porque também é certo, quer caminhar connosco, com todos, os que têm fé e os que a não têm. São uns passinhos de quem jamais deixará alguém para trás porque nunca caminhou só.
O seu caminho é o da verdade, o íngreme caminho do Calvário de Jesus. Nem todos vão por aí, mas é por aí que ele vai caminhando. Ele sabe o caminho e sabe que por vezes não é mais que um trilho na noite, um trilho de ásperas pedras e de rudes rijos tojos. E nem por isso ele pára, hesita ou fica para trás. Ele não desiste e não desilude. Anima-nos a enfrentar a aspereza da vida e a débacle dos sonhos.
Ninguém merece caminhar sozinho. E aí vai ele pelos caminhos do mundo, como irmão cuidando do amparo de cada irmão e de cada irmã. Ao ver-te, Pedro, caminhado assim, lembro os caminhos mais belos porque menos percorridos. Que o caminho é ao Céu, que ao Céu todos chegaremos qualquer que seja o caminho — e são tantos! Lembro que é melhor ir em comunidade, dois a dois, que um só por si. Esta noite, todas as noites, todas as luas e todos os sóis, hei-de caminhar com qualquer só que percorra os carreiros da terra do sei lá, com esse que julgando-se só caminha, afinal, acompanhado, porque é assim que eu quero que ele vá.
Algum experto declarou que as batalhas só as ganham os soldados cansados. Leio caminhos em vez de batalhas, e fica assim: só chegam ao fim quem nos caminhos se cansou. É preciso sair, é preciso caminhar e cansar. Vamos, pois, sem medo para o caminho que consuma a nossa esperança: o Céu.
Venha o que vier, quer trema o mundo ou se abalem os fundamentos: ninguém está só, ninguém caminha só.
E a lamparina da fé bruxeleia tremeluzente nas noites dos nossos dias.

Máxima
«Sai da tua casa, vai para a terra que te vou mostrar.» (Génesis 12:1)

Mínima

«Onde os homens fecharam portas, Deus abriu janelas.» (Bento XVI, em Lisboa)

[20 de Maio de 2010]

sábado, 10 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé



A resposta de Jesus faz pensar
In memoriam de Paulo Sérgio Pacheco, morto no adro da Igreja de Paredes.
A meteorologia da notícia previa o seguinte: O fim de semana 27 e 28 de Fevereiro anuncia-se com dias de tempestade em Portugal (pelo que ouvi só a baptizaram quando chegou a França, Xynthia). Preventivamente, desmarcaram-se muitas actividades.
Os factos da notícia dão conta do seguinte:
Nesse fim de semana em Portugal a Xynthia derrubou 2500 árvores. Em França matou 50 pessoas; em Portugal uma, um menino de 10 anos. Morreu em Paredes, no Adro da Igreja Paroquial. Chegada a hora o pai acompanhou-o à catequese. Havia uma caminhada programada, mas o tempo não estava para aí virado; por isso ficaram na igreja para visionar um filme. Antes da catequese e com o pai por ali, o menino jogava à bola que saltou mais que a conta — o que é natural, pois até a bola do mundo salta mais que a conta nas mãos dum menino! E foi parar junto duma tília centenária onde o Paulo correu a buscá‑la. Entretanto, um enorme ranco de tília saudável caiu e caçou-o. Desprevenido e inocente. Nenhum dos presentes, nem todo o desespero e amor juntos conseguiram erguer o enorme ranco. O menino esvaiu-se e morreu perante impotência de todos. Morreu no adro da igreja, quando, como qualquer reguila, brincava inocentemente, esperando para entrar na catequese. O estupor revoltado dos presentes, dos familiares e dos que vieram a chorar a tragédia, declarava, com e sem palavras, com e sem lágrimas, que uma igreja não é lugar para se morrer tragicamente.
Uma definição de infância é o acumulado em gérmen de todas as esperanças. Um menino aos dez anos poderá vir a ser um bombeiro, um chopin, um van gog ou um missionário. Por isso dói mais a dor duma morte assim tão fim dum tesouro enorme de esperanças!
Dói-me a morte do menino reguila. E dói-me a dor da família açoreana cuja casa esbarrondou encosta abaixou, e a dor das famílias madeirenses, e das chilenas, e das turcas, e das do Haiti, e das. E hão-de seguir doendo‑me muitas outras dores. Umas que a natureza não perdoa, outras que os homens infligirão a outros homens. Mas doer-me-ão sempre mais as inocentes.
O Evangelho da Missa do domingo terceiro da Quaresma (Lc 13:1-9) informa-nos que uns desconhecidos comunicaram a Jesus a horrível notícia da matança duns homens galileus no recinto sagrado do Templo. O autor da matança foi o óbvio Pilatos. A indignação alastra entre a população, porque o sangue dos homens chacinados se juntara ao dos animais sacrificados a Deus. Mas, porque comunicaram essa informação a Jesus? Sinceramente não sabemos. Mas sabemos a resposta: Jesus responde recordando outro acontecimento trágico, a morte de dezoito pessoas esmagadas pela queda dum torreão da muralha próximo da Piscina de Siloé.
Vejamos: em ambos acontecimentos trágicos Jesus declara que as vítimas não eram mais pecadores que os que ficaram vivos, e acrescenta a mesma advertência: «Se não vos converterdes, morrereis da mesma maneira».
A resposta de Jesus faz-nos pensar. Jesus recusa sem mais que as desgraças sejam castigo de Deus.
(E não é isso que pensa a gente com fé e sem fé? Não é isso que pensaram os de Paredes quando lhes morreu um menino inocente, que andava a jogar à bola: Que Deus o teria castigado, ou por ele a sua família e comunidade?)
Não, Jesus não pensa que Deus, o Bom Deus, seja o Homem do Fraque, ou um justiceiro que anda pelo mundo castigando os seus filhos, semeando doenças e tragédias por aqui e por acolá. Deus não paga o mal com o mal. Deus não serve a frio taças de licor-maldade a nós pecadores!
Não, também não. Jesus não é filósofo. Ele não disserta sobre a origem do sofrimento nem proclama nenhuma teoria do mesmo. Não nos amarfanha nos nossos medos. Não confirma a culpa das vítimas nem acentua a vontade de Deus. Jesus não tem medo de olhar olhos nos olhos os homens que O confrontaram, e de lhes propor a sua leitura destes acontecimentos: através deles Deus chama-os à conversão e à mudança de vida.
Ainda nos lembramos bem do terramoto do Haiti, do esbarrondamento da Madeira e do terramoto do Chile. Como poderemos entender estas tragédias (e a morte do Paulo Sérgio) desde Jesus? Como nos ensina Jesus a lê-las? Assim: A pergunta certa nunca é «—Onde estava Deus naquela altura?», mas onde estamos nós. Aquilo que nos pode pôr a caminho da conversão não é perguntar por que permite Deus esta ou aquela tragédia, mas porque permitimos nós (e ainda mais os decisores) que tantos, e sobretudo os pobres, permaneçam indefesos perante a natureza!
O Pai do Crucificado encontramo-lo na identificação com as vítimas; o protesto contra a sua indiferença ou a negação da sua existência não nos leva ao seu encontro. Mas a luta contra a dor do mundo sim. Só então, de olhos e alma lavados, por entre luzes e sombras, poderemos entrever a Deus sofrendo com as vítimas e alentando os que se cansam na reconstrução dum mundo melhor.
(E na minha fé entrevejo-Lhe, condoídos, os olhos marejados de lágrimas salgadas pela familiaridade com as dores humanas; pelas dores da família do Paulo Sérgio, de Paredes; pelas dores da família do Leandro Pires, de Mirandela. Na minha fé sei que o Pai Bom Deus tem preparada uma bela bola saltitante para jogarem juntos, até ao fim, por entre árvores, e numa jubilosa sinfonia de vitória de quem sabe que já não há derrota a temer. Se choram os pais, já não choram os meninos. Na minha fé entrevejo uma partida de futebol no Céu: ambos são companheiros de recreio. Muda aos cinco, acaba aos dez… Aos dez mil! Oh, eterno recreio!)

Máxima
«Deixai vir a mim os pequeninos.» (Mt 19:14)

Mínima

«Sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança (António Gedeão)

[10 de Março de 2010]

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé


«— Olhe e já agora, veja lá se manda para ontem o seu artigo». Foi assim, de rajada seca e certeira que recebi a sentença para novo artigo, «porque o Jornalinho tem de chegar cedo a casa dos peregrinos!» Seja. Que por mim nenhum peregrino há-de chegar atrasado.


Santos impopulares
Chega Junho, chega o Menino. Digo, a peregrinação ao Menino. É também o mês, dizem, dos santos populares! Curioso nome o de santos populares que, talvez, não inocentemente, estabelece a divisão com os outros, os não-populares. Pelo contrário, não deveriam existir senão santos, santos populares. Mas já que criaram a designação deixem-me que discorde dela. Os Santos Populares são santos visivelmente impopulares! Vejamos.
S. António, dizem-no de Lisboa, os portugueses; e de Pádua, os italianos. Paulo VI foi mais consensual e chamou-lhe António-de-todo-o-mundo. O nome verdadeiro era Fernando de Bulhões, nasceu em Lisboa e morreu em Pádua. Celebra-se a 13 de Junho e foi um pregador. Impressionava pela palavra, fustigava as consciências, era um intelectual de grande craveira. Quando o não quiseram ouvir — isto é, levar à prática a sua pregação — foi pregar a peixes! Esses tinham pelo menos uma virtude: ficavam calados enquanto pregava! Já que não converteu os homens dedicou-se aos bichos!
S. João nasceu em Ain-Karim, Palestina. Mereceu o nome de Baptista por ter baptizado o primo, Jesus, e as enormes multidões que se aproximavam de si. Celebra-se a 24 de Junho. Era seis meses mais velho que Jesus. O seu nascimento foi uma alegre bem-aventurança para a família, mas deve ter deixado muito cedo o lar e para ir viver no deserto. Era austero no viver, e fustigava a sociedade do tempo como se as víboras habitassem as suas casas. Denunciou a hipocrisia do rei do tempo e como prémio Herodes ofereceu a sua cabeça num prato, a uma bailarina cujo bailado o encantara. Arrastou multidões, avivou as brasas da esperança, mas morreu ingloriamente, desamparado e à mercê da iniquidade do poder ao tempo.
S. Pedro celebra-se no dia 29 de Junho e com ele Paulo. Não é certo que tenham morrido no mesmo dia, embora haja quem o diga. Popularmente só se referencia o primeiro e só se festeja o primeiro. Pedro foi o primeiro chefe da Igreja de Jesus. Era um pescador bruto, rude e impulsivo. Era imponderado e belicoso. Estava mais habituado a tratar com peixes que com homens. Falava sem pensar e sonhava demasiado elevado. Quando teve de defender o sonho (porque lhe prendiam o Mestre) foi o único a deitar mão à espada. Mas só cortou uma orelha, que o Mestre logo repôs! Já entronizado chefe da Igreja reserva-se demasiado para dentro da comunidade, ao ponto de Paulo ter de o enfrentar para ganhar espaço e liberdade a fim de se dedicar a anunciar Jesus aos não-judeus. Por fim, deu a vida por Cristo, mas como nem disso se julgava merecedor pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. Parece-se muito a um santo impopular e ao contrário.
São Paulo era rabino judeu, fariseu radical, evangelizador de helenistas, cidadão romano, escritor exímio, missionário incansável, fundador de comunidades, pastor dedicado, fabricante de tendas, Apóstolo de Jesus. Foi tantas coisas que parece não ter tido tempo para sardinhas, pimentos e pão. Também não é por aí que é um santo popular. Era homem de amizades sinceras, profundas e exigentes, daquelas que magoam por que muito amarram ou muito dividem. É convertido, melhor dito: um zeloso homem de fé radical que se converte ao Cristianismo. Mistura explosiva que fazem dele um homem frenético sem tempo a perder. A urgência era a sua marca, tão urgente que parecia impaciente. A sua personalidade forte, a vontade férrea e a defesa da fé verdadeira chegaram a deslaçar amizades. Não parece e não é um santo suave, ameno, popular. Com a sua festa neste ano, iniciamos o jubileu bimilenário do seu nascimento.
António, João, Pedro e Paulo são santos impopulares que o coração do povo ama. São muito impopulares e muito contra-corrente aos apetites do povo. Sim, são do povo. São nossos. Mas são tão fiéis a Jesus que parecem avessos ao que o mundo hoje consome. (E nesses dias quase só consome sardinhas, pão e vinho!) A culpa não é deles, é da radicalidade de vida exigida por Quem os chamou. São impopulares porque se abriram a Jesus. Mas porque se abriram de forma tão bela à fonte da alegria, teríamos de fazer festa quando os festejamos. E fazemos. Mas ainda que os convoquemos para a festa a sua impopularidade é como o vinagre, que apesar de sadio tempero e benéfico purificador, recordámo-lo mais por não caçar moscas.

Máxima

Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. (São Paulo)

Mínima

Paulo, apesar de grande, submeteu-se a Pedro para que essa fosse a regra dos séculos futuros. (Bossuet)


[ 24 de Abril de 2008]

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé


Um sorvo
Era um encontro de jovens, em Agosto, em Segóvia, no convento de S. João da Cruz. Ali os dias são quentíssimos, a paisagem é de restolho ressequido; os corvos grasnam o dia todo por cima da Igreja da Senhora de la Fuencisla. São tantos e tão insistentes que quando se calam, nos sentimos melhor. Em chegada a noite também ficamos melhor, porque a temperatura amaina.
Nesse dia de que quero falar saímos enquanto o sol era meigo. Calcorreamos caminhos de pó por entre restos de searas e de campos enormes. Parámos bem antes do meio-dia, bem antes do sol queimar. Parámos sob as únicas árvores que se viam por ali. Mas antes de merecermos almoçar, reunimo-nos à volta dos textos de S. João da Cruz. E como é diferente lê-los naquela terra quase só terra, quase só céu!
Passámos ali a tarde. Chegámos por fim a casa cansados e suados, com os corpos a suspirar por um banho. Antes da ceia, porém, estava prevista uma hora de oração. No meio da frescura da capela depuseram uma vela no chão e uma tina de água.
Quero lembrar que entre nós havia um catalão, de 17 anos, que ninguém sabia ao que viera. Estava ali tão deslocado como um peixe a apanhar banhos de sol. Não sabia nada daquilo. Não sabia nem rezar nem o que era um convento nem porque tínhamos de nos juntar a horas certas e fazer tudo junto. O nome, julgo, era Rufo. Apesar de destoar Rufo era simpático, embora quase só falasse de bebedeiras de vinho!
Foi também à oração, que começou e foi decorrendo junto ao Poço de Jacob, onde Jesus se encontrou com a Samaritana e lhe pediu de beber; onde Jesus foi remoçando o coração ressequido daquela mulher, acabando ela a pedir-Lhe: — Dá-me, Senhor, dessa água!
Era assim entre cânticos, o Evangelho e os apelos da Santa Madre, que ia decorrendo a oração. Ali, se traçava o itinerário de fé que cada um de nós deve percorrer: Jesus aproxima-se. Depois é reconhecido e acolhido como a única água que pode matar a nossa sede.
A certa altura, foi cada um de nós até junto da água e só tinha que fazer aquilo que quisesse fazer: mirar, tocar, santiguar-se... Havia um cântico: — Dá-me, Senhor, dessa água. O cântico ia correndo e a fila andando, e à medida que cada um se aproximava da água cumpria o ritual. E regressava ao seu lugar.
Rufo foi o último. Todos vimos como se tardou diante da água. E nós cantando. Ficou ali, imóvel, impressionado, resoluto. Depois, ajoelhou e deu um grande sorvo antes de lavar a cara. O cântico parou mas ali deve ter nascido um santo, pois no restante do encontro o rapaz já não foi mais igual!
(Ignoro o que posteriormente se passou com a vida de Rufo; se ficou a gostar mais de vinho ou de água. Mas o que é certo é que se naquela tarde não foi tocado pela sede de Deus, fomo-lo nós perante o seu gesto tão inesperado.)

Desaparecida
Encontrei algures uma notícia e fiquei olhar para ela. Como quem vê um boi a olhar para um palácio. Um boi não sabe distinguir uma janela duma porta, o frontispício do telhado, uma estátua duma floreira. Para o boi aquilo é um palácio ou lá o que é, mas como não se come não é nada. Fiquei mais ou menos assim quando li uma notícia sobre o roubo duma ponte. Uma notícia assim não parece o que é, e deixa-nos incrédulos. Eu fiquei. Olhava para as letras e via-as juntas e ordenadas, formavam um texto que era uma notícia, ou brincadeira. Dei por mim a pensar: é daquelas notícias papa-tolos, bem escritas mas sem sentido! Seja. Mas seja o que seja vou trazê-la para aqui.
Os conteúdos eram estes: Na República Checa, entre os inícios de Dezembro e meados de Janeiro deste ano roubaram uma ponte. Era uma ponte de aço, ali disposta para unir duas cidades. Não era um viaduto qualquer, era mesmo uma ponte e pesava 4 toneladas. (Um carro pesa uma e meia!)
As pontes são para mim das construções mais interessantes. São como as vitórias, juntam o que andava separado, vencem abismos, unem as margens que porque o são andam sempre desavindas, fazem comunhão, fortalecem comunidades. São causa de alegria e de júbilo, facilitam a vida e antecipam os encontros.  É porque provocam união que as pontes me seduzem. Para além de me ser incompreensível como foi possível roubar uma ponte e ficar mais de um mês sem saber que fora roubada, passo a enumerar os meus outros espantos por causa desta notícia: Não foi o David Coperfield porque ele encena ilusões, não muda a substância da realidade!; Como é que duas cidades ficaram tanto tempo sem se aperceberem que estavam separadas?; Era mesmo uma ponte, ponte?, uma ponte que fazia falta? Era mesmo uma ponte que servia para o que serve uma ponte: unir?; O mais certo é ter sorrateiramente acabado na casa dum socateiro qualquer: mas poderá uma ponte de um só homem ser verdadeiramente uma ponte?

Máxima

Eu não vim por mim. (João 7:28)

Mínima

Narrei-me à sombra e não me achei sentido
hoje sei-me o deserto onde Deus teve
outrora a sua capital de olvido.
(Fernando Pessoa)

[4 de Março de 2008]

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Notas de Roda-pé


Morcegos
Há uma piada passada entre dois sacerdotes, com o seguinte diálogo:
— Tenho na minha igreja uns morcegos, e não sei que lhes fazer...
— Fazer o quê?, diz o segundo.
— Não sei. Até a Equipa de Pastoral e a Fabriqueira fizeram de tudo.
— De tudo o quê?, insistia o segundo.
— Já tentámos de tudo para os espantar da igreja.
O outro rindo às gargalhadas, responde-lhe:
— Ó pá, é muito fácil. Dá-lhes o Crisma que tu vais ver!

Jovens
Não sei se a piada se percebe de imediato, mas ela fala simplesmente da ausência dos jovens na Igreja. Já passou à história aquele momento da Igreja em que todo o nascido nela entrava pela do Baptismo e por ela saía no dia do funeral. Já não é assim. Nem todos entram na Igreja, e dos que entram a maioria abandona-a na adolescência. Por aqui vão ficando até ao Crisma. Depois vão-se, desaparecem, esfumam-se. Parece que sentem alergia, e depois do Crisma...
Eu sei que a maioria ainda se diz Católico. E são-no, mas à sua maneira. Pessoalmente não vivo sossegado só porque cá fiquei, nem por verificar que o índice de Católicos é bastante alto. Não vivo sossegado, mas inquieto. Inquietam-me muito as muitas ovelhas vagueando por aí sem pastor, à mercê de lobos e de mercenários.
Voltemos aos jovens. As Jornadas Mundiais da Juventude são um ledo engano. Mas não são de desprezar. O que ali se vê não corresponde à vida das comunidades locais. Eu que participei em três sei o que são. São uma festa que eu vivi, quase delirante, enquanto jovem seminarista. São uma festa que eu vivi, cuidadoso e cauteloso, no início do meu sacerdócio. Mas quer-me parecer, que nem no antes nem no depois têm implicações imediatas. Pelo menos ao nível comunitário, porque tal vivência tem muito de pessoal e íntimo e isso não é tão fácil de medir.
Eis um grave problema pastoral. Os jovens fogem da Igreja para as celebrações do futebol e dos concertos, dos ralis e das discotecas. É ali que os perdemos. E quando, cansados, dali regressam, porque alguns sempre regressam, o trabalho de formação — pelo menos esse — está muito atrasado. (Sempre quero aqui contar que este ano só porque o Paris-Dakar foi anulado, eu tinha mais jovens na missa desse dia: os que em Lisboa iriam assistir à partida da prova quedaram-se por cá!)

Jesus jovem
Devo confessar a verdade: O que eu venho aqui falar com os leitores do Mensageiro é sobre Jesus. Jesus jovem. Onde pára o Jesus jovem? Porque não se vê? Este ver a que me refiro é o ver celebrativo (mais que o histórico). Quero eu dizer que a celebração litúrgica ajuda a enquadrar e formar a memória do discípulo que é cada um de nós. E o certo é que os jovens Católicos não vêem o jovem Jesus! Nem nas celebrações nem na história.
Ninguém vive sem modelos e sem mestres. (Agora também Lhe chamam Guru e Coach!) E como é bom, por exemplo, podermos celebrar o baptismo de alguém recordando o de Jesus, aquele momento inesquecível em que, saindo das águas do Jordão, viu o Espírito Santo e ouviu o Pai testemunhar o seu amor por Ele.
Explico-me melhor: a nossa referência maior é Jesus. Olhá-l’O e imitá-l’O é caminho seguro. Por isso a Igreja usa sabiamente a liturgia para enfocar em Jesus o nosso olhar e amor. É assim que aprendemos d’Ele, com Ele caminhamos e aprendemos a crescer.
Vamos aos factos: na Festa da Anunciação, nove meses antes do Nascimento, recordamos que Ele começou a ser humanado e que a nossa vida tem dignidade desde a sua concepção; na Festa do Natal celebramos o seu nascimento, óptima lição para os pais, familiares e amigos; na Festa da Sagrada Família é o olhar de toda a família, como família, que é convocado; na Festa do Santo Nome de Jesus (festa celebrada oito dias depois do Natal) recordamos a missão salvadora de Jesus e a verdade do nome de cada um de nós; na Festa da Epifania, somos todos, mas todos mesmo, de todas as idades, condições, religiões ou sem ela, somos todos convidados a adorar o Menino; na Festa da Apresentação a família é mais uma vez convocada, e também aqueles que desde a longa noite da história O esperam ver, como Simeão e Ana; no Baptismo, aos trinta anos, sentimo-nos convocados para como Ele assumir o papel de anunciadores da Boa Notícia.
Enfim, não há idade que não possa ir beber a Jesus. A vê-l’O humanado e aprender d’Ele, que é o Homem perfeito. Bem, há uma idade que O não vê: os jovens. Os jovens não O vêem jovem. A sua vida oculta em Nazaré deixou-nos sem relato que iluminasse a vida dos jovens. Depois que chega aos doze anos a vida de Jesus oculta-se e só volta aparecer três anos antes de morrer.
Conheço um convento que tem um Menino Jesus carpinteiro. Um jovem trabalhador. Gosto muito desse Menino Jesus. Os frades puseram-no mesmo à entrada do claustro, onde têm as suas celas. Entra-se e vê-se o jovem carpinteiro a trabalhar a madeira, com um mascoto no ar. Há ali uma mensagem: Vê-l’O dedicado a trabalhar, afadigado e comprometido com as obrigações da família e da sociedade. Jesus foi menino e jovem crente e um aprendiz, foi um mestre da Palavra e também um mestre carpinteiro a quem São José ensinou tudo o que sabia.
É disso que se trata: sabemos que o jovem Jesus foi um jovem fiel no caminho da fé, fiel no trabalho e na sociedade, mas não há um relato que no-lo diga explicitamente. O mais que sabemos, quero dizer, o mais que ouvimos, é o relato da sua peregrinação a Jerusalém, na Páscoa dos seus doze anos. Terminadas as festas os pais regressam e Ele ali fica, sentado entre os sábios a responder e a interrogar. Quando os pais O re-encontram, regressa. Regressa para continuar obediente e a crescer em estatura, sabedoria e graça. É esse o único, discreto e pouco empolgante modelo que temos para oferecer aos jovens: o modelo de adolescente obediente, dedicado, aprendiz em formação, fiel à família (e às coisas do Pai), fiel à fé judaica em que está inserido, crescendo no corpo e no espírito, em sabedoria e em graça, carinhoso para com os familiares, solícito para com o pai na sua morte, esteio para a mãe que fica viúva e certamente alegre com os companheiros, amigo das festarolas... E também preocupado com o seu futuro.
Convenhamos que não é tão pouco assim, mas o silêncio que se faz sobre a juventude de Jesus não os ajuda muito. Porém, naquela ocorrência dos doze anos e no escuro do longo silêncio da vida oculta, vemos, com um pouco de dificuldade, um belo programa de vida para os jovens, um programa que só ali se pode encontrar!

Máxima

Quem não quiser trabalhar, também não coma. (2 Tes 3:10)

Mínima


Também entre as panelas anda o Senhor. (S. Teresa de Jesus)

[21 de Janeiro de 2008]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Notas de Roda-pé


Milagres
Os tempos vão difíceis. Os mares agitam-se. À nossa frente cavam-se vagas sobre vagas. Os abismos parecem comer-nos. O que não se ouve publicamente sussurra-se na intimidade, e traga-se no combate diário da rua. O dinheiro não chega, a contenção não estica, as dívidas crescem. O trabalho é para quem o trabalha, e esses — quase todos — vêm de fora; os empregos são para nós. O colega da secretária ao lado tosse, o outro reclama, o terceiro rezinga, o quarto barafusta por tudo e por nada (mais por nada), o do Sindicato dormita e nada vê (é o que me dizem, que eu não sou do Sindicato). O patrão quer o que é seu, liquidez. E verdadeiramente ainda não chegou o Inverno que sempre traz frios, humidades, chuvas, narizes vermelhos e entupidos, olhos inchados, cabeças a estoirar.
No meio de tudo isto a fé deveria serenar-nos, acalmar-nos as tempestades e os vendavais repentinos das iras e dos sonhos impossíveis. Deveria fortalecer-nos e robustecer-nos. Mas parece que agora já não se transmite nem se ensina paciência, mas exigência crua e o exercício do direito a rabiscar no Livro de Reclamações. Mesmo sem razão. Está bem de ver que os que têm fé seguem o caminho mais difícil, mais demarcado, mais exigente. E vemos como os outros. E sofremos como os outros. Na verdade, não se pode ter fé e ser-se depois bandoleiro e rezingão impenitente. A vida vai difícil para todos, até para quem não tem fé. Por isso, vamos pelo caminho da paciência, da confiança. E da esperança: procuremos ir sempre de bem para melhor.
Frequentemente os tempos difíceis empurram-nos para extremos, por um de dois caminhos: ou pelo da impaciência infértil, ou pelo da depressão inconsequente. E quando os sonhos de chumbo nos caem na cabeça, que fazer? E quando batemos contra o muro da realidade, que reclamar? Às vezes, quase sempre, reclama-se por milagre. Até os mais impenitentes dos não-crentes acabam reclamando-o . Estão no seu direito. Mas é nestas alturas que devemos fazer falar os sábios. O primeiro chama-se Gath Brooks e aparece cheio de razão nas últimas linhas deste texto. O segundo chama-se Einstein, e pelos vistos sabia mais coisas para além de ciência. Dizia: «Há duas maneiras de viver a vida; uma é como se nada fosse milagre, outra é como se tudo fosse milagre. Eu acredito no último.». Não podemos parar de acreditar. Porém, eu prefiro mais o que ensinava São João da Cruz: «É preferível sofrer por Cristo, que fazer milagres». Fazer, ou pedir. Ou já agora, declarar que tudo é milagre. Amar o que Ele amou; amar como Ele amou. Este continua a ser o nosso programa de vida. E não é por só olharmos para o céu que se vêm os milagres na terra. Ou, melhor dito: Não é olhando só para Ele que vemos os muitos milagres por fazer na vida de tantos pequeninos!

Sete coisas

O fenómeno da moda são os blogues. Como não sou sociólogo não poderei dizer se vamos atrasados, adiantados ou como o costume: assim assim. Esta noite o H. mandou-me um mail informando-me do seu novo blog. (Entretanto, tem outro de que eu me percebi sem dele me ter falado...) O título é uma coisa parecida com Eis-me aqui. No H. não me estranhou a referência. Fui ver. Ainda não tinha começado. Havia apenas uma breve declaração de interesses. Descobri então o outro e dei uma olhada. Percebi ali que entre os garotos blogueiros da Comunidade há um jogo; tipo — como eles dizem — tipo: 7 coisas em que sou bom, 7 coisas em que sou mau..., e por aí adiante.
O H. declara que a sexta coisa em que é bom é: «Rezar». Assim só, simplesmente. Rezar. Boa, H., pensei! Boa. É boa mesmo. Não pensei encontrar tal surpresa, mas encontrei. E na pessoa do H., como já disse, nem me estranhou.
Como estamos nos dias de Santa Teresa de Jesus, nossa mãe, lembrei-me do que ela ensina sobre a oração (registo só isto o ensinamento mais curto, para não complicar): «A oração é um diálogo de amigos, estando-se muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama». É isso mesmo, H., vai por esses blogues todos — e são tantos como as areias do mar! — e diz que gostas de rezar, que és mesmo bom a rezar. Oxalá todos sejam teus amigos, que quem não sabe de amigos e de amizades não sabe de oração. Pelo menos ao jeito de Teresa, claro. Vai, que haja muitos amigos na tua vida. Junta-te a eles, para que eles façam de ti um mestre da arte de rezar. Força, junta amigos que saibam rezar. E se não souberem, pelo menos que saibam de amizade. Depois será fácil rezar. Se há tantos que se juntam para dizer e fazer o mal, por que não haveríamos nós de querer o bem e lutar por ele juntamente com os amigos que ajuntamos? É por isso, H., que eu te digo: Vá, força, faz muitos amigos, escreve em todos os blogues e não tenhas vergonha de dizer — nem que seja em sexto lugar — que sabes rezar. Eu julgo que sim, que é fácil, pois conheço muitos dos teus amigos e o apreço que têm por ti. Ah! Só mais uma coisa e com ela termino. Depois da amizade que faz bem à oração (e ao coração) a nossa Santa Madre pedia só uma outra coisa: «Só vos peço uma coisa: que O olheis!». E é claro. E é justo. Como poderíamos gostar de rezar e de ter amigos se não incluíssemos o melhor Amigo no nosso círculo de amigos? Se não gostássemos d’Ele. Ou se gostássemos sem gostar de O olhar? Sim, H., sê amigo forte de Jesus! E olha-O!
(Quando acabei de escrever este breve apontamento já era outro dia. Dei outra olhada ao outro blog do H. e pude verificar que escrevera lá o Pater Noster.)

Máxima

Agradeço ao bom Deus pelas bênçãos que tem concedido à minha vida, algumas das maiores dádivas de Deus são orações não atendidas. (Gath Brooks, Cantor norte-americano de música country)

Mínima


Tudo o que é verdadeiro, venha donde vier, procede do Espírito Santo. (S. Tomás de Aquino)

[19 de Novembro de 2007]

domingo, 21 de julho de 2013

Notas de Roda-pé

Sinais

Há sinais e sinais. Para tudo são precisos. Não passamos sem eles. Dos caminhos às igrejas; dos bancos das escolas aos hospitais; do mundo do campo à indústria e às universidades. Eles estão presentes, falam-nos, orientam, informam, movem, comovem. Às vezes são discretos, outros nem por isso. Aqui vão alguns que eu vi recentemente.
Por estes dias ou os olhos se me abriram mais ou vi o que não costumo ver. Na verdade, fiz mais quilómetros que os que costumo fazer. E talvez por isso vi mais. Que sinais vi eu para que aqui fale deles?
Vi uma grande faixa atravessada dum lado a outro duma estrada anunciando e promovendo um encontro paroquial numa praia. Não me espantaria nada nem dela aqui falaria se a faixa falasse e anunciasse outras coisas. Mas arregimentava para um convívio paroquial. Numa estrada onde passam paroquianos de outras paróquias e nem todas católicas. Ora, perguntei-me eu e sigo perguntando-me, os convívios paroquiais anunciam-se a todos ou também ao estranhos? Anunciam-se aos de dentro — uma paróquia por muito aberta que seja é sempre um círculo fechado! — ou a todos? Bem, eu compreendo que algumas ovelhas vivam mais ou menos desgarradas, e que por força da lei do desgarro possam não ouvir a voz do pastor quando ele fala para o redil. Posso compreender o dinamismo da comissão organizadora querendo apelar a que ninguém falte. Posso também compreender que se convoquem aqueles que não são Igreja. Mas aquele acto de família paroquial não pode ser para mim. Ou para outros que como eu leram a mensagem. Poderá? Será que eu poderei aparecer na praia da Apúlia no dia certo? São sinais. Apenas sinais. É pelo menos sinal de que nem tudo se vive dentro da igreja.
Seguindo viagem vi mais à frente, já noutra cidade — e depois também na minha —, muitas bandeiras portuguesas. Ainda vi uma rua cheia delas. Estavam todas amarelecidas, debotadas, desfiadas, rasgadas. Mas que feio, pensei! Então o povo que ergueu a Bandeira porque o Seleccionador pediu, não terá agora vergonha de exibir o símbolo nacional tão degradado e deprimente. Eu sei que é um sinal. Apenas um sinal. Mas seria escusado proclamarmos tão declaradamente a proverbial depressão nacional. Ou só nos animamos quando há futebol? Ou as únicas grandes causas que nos movem são o futebol e... mais nenhuma? Ou não estamos nada deprimidos e queremos é enganá-los e por isso deixamos lá fora a Bandeira num falso esquecimento? Mas poderá ela perder assim o seu brilho? Poderemos nós ter tão pouco orgulho nacional ao ponto de não sabermos erguer a nossa Bandeira?
Será? Não sei. Mas que é um sinal, é. E de desprestígio.
E vi outro sinal. Já não é a primeira vez que saindo da auto-estrada me deparo em certo viaduto com uma inscrição: Jesus é o Senhor! E agora digo eu: é sim senhor! Não sei quem é o autor da façanha. Mas sei que o Senhor foi recentemente avivado com um amarelo forte, para não deixar dúvidas a ninguém. A mim não deixou. Quem quer que por ali passe — e passam muitos — e saiba português ou não vá a falar ao telemóvel, leva com a mensagem nos olhos: Jesus é o Senhor.
Estamos em tempos onde tudo o que cheire a religião é varrido para debaixo do tapete. Isto, porém, ainda não conseguiram. Parece-me acontecer aqui aquela história da manta curta, que para cobrir os ombros descobre os pés. Isto é, quanto mais remetem a religião para a Sacristia, mais ela estala noutros lugares bem visíveis e inesperados. Escondem-na no recato e ela manifesta-se por cima dos telhados. Resguardam-na em armazéns (ou museus) e ela desponta fresca e à janela.
Pode ser até que quem ali gritou, isto é, ali escreveu, não afirme a fé publicamente. Pode ser. Pode ser que prefira ficar anónimo, que não seja uma testemunha valente. Mas algo passou em alguém que teve necessidade de nos mostrar naquilo que acredita.
Um jornal diário fala da abertura duma esplanada no Porto. Traz um fotografia a ilustrar. E é tão bem tirada a foto que até traz um teatro onde decorre uma peça sobre Jesus Cristo. A peça está anunciada na frontaria e o nome, Jesus Cristo, aparece ali bem exibido. Não sei o que levou a reanimar tal musical sobre Jesus quarenta anos depois dele ter sido um êxito mundial. Sei sim, mais uma vez, que se não O procuramos nas igrejas, Ele surpreende-nos nas praças, nos teatros e nas esplanadas. Se não Lhe cantamos nos templos e santuários, Ele aparece a cantar nos palcos. Se não O saudamos nos sacrários, Ele faz-nos vénias desde o palco sugerindo-nos as palmas.
É assim. São quase tudo sinais imprevistos. Sinais que talvez  não devessem aparecer. Sinais que outros desejariam obnubilados ou pelo menos  discretos, e que, afinal, nos aparecem por cima dos telhados e nos assaltam as vistas e os olhos.
São sinais, simplesmente sinais, senhores.
(O Padre Rui Osório, no JN de hoje, Domingo, 19 de Agosto, fala de outros sinais similares, os do mundo do futebol.)

Mariasela

Até o nome é estranho. A primeira vez que ouvi falar dela estranhei. Cheirou-me a marketing barato. Depois ouvi-a numa soberba conversa que só o Loco de la Colina sabia fazer na TVE. E a coisa pareceu-me consistente. Perguntei a amigos meus e, sim, eles confirmam e sossegam a minha surpresa.
Mariasela Álvarez é cidadã da República Dominicana, é rica e bela. É uma mulher de sucesso. Foi Miss Mundo em 1982. Os pais eram professores universitários. Não viviam a fé, mas falavam dela e dos seus valores à filha. Frequentou alguns grupos juvenis católicos. Porém, na juventude ausentou-se da fé. Hoje é arquitecta e uma das apresentadoras da rádio e tv espanholas mais apreciadas. Mas o que aconteceu pelo meio para que aqui se fale dela? Converteu-se.
Um dia, em 2002, participou num retiro. Faltava-lhe algo. Sossego, paz, serenidade. Algo que a preenche-se. Queria algo firme e alegre, pois tinha, sem saber, a fé adormecida. E ela despertou. Não foi nada de muito extraordinário, nem caiu do cavalo como São Paulo. Despertou, simplesmente.
Nas entrevistas que concedia defendia sempre os valores humanistas, mas nunca se dizia cristã. Pudera, a fé dormitava! Pudera, tinha medo que a seguir a audiência não sintonizasse com o seu programa!
Um dia casou pelo civil. Passados anos o marido propôs que casassem pela Igreja. Antes quiseram fazer um retiro: três dias em silêncio e em isolamento total! Foi aí que se converteu e sentiu vergonha da sua ausência. Depois falou no seu programa da sua fé, deixou o coração falar. Simplesmente. Foi o programa mais visto.
Num congresso das televisões de inspiração cristã disse simplesmente: «Deus tinha-me dado tantos dons e eu nunca Lhe tinha dado nada, nem os tinha usado para Ele!»
É isso que faz de Marisela (e muitos outros!) tão especial: usa os seus dons para os devolver a Quem lhos deu!

Máxima

Depressa me dei conta de que a melhor forma de não desanimar e continuar a viver é esquecer o próprio sofrimento e pensar nos outros, (B. Marcel Callo, mártir do Nazismo)

Mínima

Tende os vossos olhos fixos em Jesus. (Heb 12:2)

[12 de Agosto de 2007]


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Notas de Roda-pé

Duas pessoas

Eu não conheço Beth Ditto. Em boa verdade nunca me foi apresentada, como diria o outro. Sei que é cantora. Não sei, porém, o que canta. Creio que as suas canções não frequentam a estação de rádio por onde por vezes me perco. Sei que defende valores que não são os meus, com os quais eu não sintonizo. É por isso que conhecê-la ou não (ou à sua música) me é igual. Indiferente, quero eu dizer. O mesmo será para ela.
Mas, pronto. A imprensa fala dela e eu sei que a senhora existe, que é uma mulher ácida, daquelas que morde a mão que lhe dá o pão. É isso. É uma mulher tão crítica (ou revoltada?) que não se inibe de criticar o seu público, aquele que lhe compra os discos e que vai aos seus concertos. Dizem que ela é uma jovem mulher que sabe quem é. (E que sempre o soube). Ela não muda, o mundo à sua volta é que muda ou tem de mudar. Por isso quando actua em concertos está tão segura de si que não se preocupa que não gostem da sua música e da sua performance. É descarada, a mulher: «Não me incomoda assim tanto que as pessoas pareçam entediadas. Toco para as duas pessoas na multidão que estão a divertir-se e a prestar atenção.»
Ora aí está uma mulher de convicções. E até de fugas, talvez. Se houver duas pessoas que gostem, ela canta para elas. Se os restantes a desprezarem, serão desprezados por ela. Mais, ela confia que existam pelo menos duas que gostem da sua música. É isso que a move. É pelo menos por isso que ela canta.
Viremos isto como me convém. Pergunto-me quantos de nós, na nossa banda, temos uma disponibilidade e um carinho assim pelo nosso público para continuar tocando apenas para esses dois que permanecem atentos, que mostram interesse, que parecem ir dar fruto. Confesso que desanimo face ao tédio, ao desinteresse, à falta de garra do público. E em boa verdade, costumo ter mais que dois ou três animados e interessados. Mas até apenas aqueles dois que se deixam abater pelo fastio me desanimam.
Se alguma vez miss Ditto me for apresentada eu agradecer-lhe-ei esta lição de vida. Afinal de contas eu tenho melhor mensagem que a dela, mas por vezes não tenho a garra e o convencimento dela.
Embora prometa que vá aprender.

Nadir

O senhor Nadir tem quase 90 anos e um cara de menino, de menino traquina, apesar da barbinha que ostenta. Ele que me perdoe se a afirmação não é um elogio. Mas aqueles olhitos e a cara miúda falam-me dum catraio extasiado com uma tarde de Verão, sem escola e passeada (ou saltada, ou saltibancada) ao ar livre.
É a segunda ou terceira vez que ouço falar dele. A primeira foi num documentário do Canal 2 em que vi uma tela muito enigmática e geométrica que afinal, depois de lhe ser sobreposta uma fotografia, mais não era que uma praça de Lisboa.
Fiquei curioso com o homem.
Agora está no Porto, na Galeria do Jornal de Notícias e talvez eu passe por lá. Para decifrar a sua pintura talvez tivesse que conhecer a sua geografia e a peregrinação da sua vida. Mas irei só para ver pedaços de cidades que o não são, que são simples telas. Embora mais que telas pintadas, claro. São linhas muito puras, quase matemática. São mapas de vidas que permanentemente se reencontram na paleta e brotam dos pincéis do pintor.
No JN de 29 de Junho, p.p., vinha uma entrevista sua. Retiro dela duas coisas: uma, o nome Nadir foi sugerido ao pai — que ia pachorramente a caminho do Registo Civil; outros tempos!, outros tempos! — por um amigo cigano. Duas, a sua pintura não é tanto de inspiração mas fruto do trabalho persistente, aturado, sujo, reclamado, insistido, cuidado. Nã, nada disso. Os pintores não pintam de smoking. «Rebolam muito pelo chão», até deveriam ter um espaço «onde pudessem ir agonizando» à espera de melhores dias, de melhores horas, de melhores soluções. Diz ele. De melhores linhas. Digo eu.
O homem leva esta coisa do trabalho tão a peito, que, considera, um quadro jamais é uma tarefa terminada. Concluída. Encerrada.
Estou mesmo a vê-lo a ver um quadro antigo seu e a ficar com formigas nos dedos. A vê-lo cheio de imperfeições a exigirem um retoque, um repinte, uma melhoria, um aperfeiçoamento. Sim, estou mesmo a ver o ciganito — que me perdoe o mestre! — reguila, atrevido, irrequieto, entrando pela casa dum amigo e logo preso a um quadro seu. E a dizer: «Hummmm! Estas linhas deveriam ter sido prolongadas, estes contrastes avivados. Sim, não está mal. Mas poderia ficar melhor.» E, então, fazendo juz à viveza do raciocínio e do olhar juvenil, à perspicácia que só o autor pode ter, ele vai à algibeira e saca dum pincel sempre pronto e conclui por ora — só por ora, claro! — a tela inacabada. Que inacabada fica. Como é óbvio.
Espantosa ideia a do Mestre Inacabado. Como deve sofrer só por que tem que vender coisas inacabadas, que lhe fogem do alcance e do penúltimo remate final.
Sim. Pego agora na ideia e viro-a para mim. E dou comigo a ler-me os pensamentos. É isto mesmo que somos, telas (ou esculturas) inacabadas pelo Criador. Histórias sem fim à vista. Histórias com fim previsto e escrito, mas prolongando-se sempre para mais além do além que nos tocou viver. Para mais além do que conseguimos aperfeiçoar, concluir.
É bem verdade. Somos inacabados, nada é ainda perfeito em nós. Ai de nós se a Graça do Mestre Ciganito — perdoe-se-me a ousadia, meu Deus! — não nos for trabalhando, limando, retocando, completando, aperfeiçoando. Sim, meu Deus. É bem verdade. As tuas mãos não param desde o início da criação. Não param de me moldar, de moldar o meu barro tosco, o meu barro seco, o meu barro áspero, resistente, bruto. Que não parem, pois. Que não parem, nunca. Que não parem, jamais. Jamais.
Visita-me, Senhor. Entra, por favor em minha casa. Contempla a minha vida, vê o quadro das minhas imperfeições e inacabamentos, repara como estropiei o que me entregaste. Traz um pouco de água que amacie o meu barro, um pouco de Espírito Santo que me sacie por dentro, que inunde as minhas resistências, que afogue os meus defeitos. Que afague as minhas feridas e inexistências. Afaga-me com os teus dedos, completa-me um pouco mais.
Não te canses, Senhor.

Máxima

Nós semeamos as sementes que um dia crescerão. Semeamos as sementes e regamos as sementes, porque sabemos que elas guardam o futuro como promessa. Pode acontecer que não vejamos os frutos. [...] Pode acontecer que jamais vejamos os resultados finais, mas há uma diferença entre o mestre de obras e o operário. Nós somos operários, não mestre de obras. Nós apenas somos ministros dos Messias (Mons. Oscar Romero).

Mínima

O Carmo é uma ordem de Maria, sob a protecção de Maria, que propaga o culto a Maria (S. Rafael Kalinowski).


[8 de Julho de 2007]

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Notas de Roda-pé


Sondagem
Seis anos depois uma revista francesa repetiu uma espécie de sondagem sobre a oração. Eis alguns dados verificados: 1) Não se modificou a percentagem dos que afirmam rezar ou meditar: 50%. 2) Destes 57% são mulheres; e dentre elas 68%, têm 65 anos ou mais. 3) Na faixa etária dos 18-24 anos, 65% declara jamais rezar ou meditar. 4) Dos que rezam 89% fazem-no sozinhos; e 10% todos os dias; dos que rezam todos os dias, 11% fazem-no em grupo ou em família. 5) 59% dirige a sua oração a Deus; 29% a Nossa Senhora; Cristo fica-se por umas migalhas.
Muito mais li, mas não muito muito mais. Não sei se o que aqui fica dito serve para a realidade portuguesa. Sem dados, atrevo-me a dizer que não totalmente. Mas...
Registo duas ou três notas que marcam a oração dos católicos franceses. Um em cada dois afirma rezar, o que ainda assim é uma percentagem alta. A oração é portanto um valor seguro, sobretudo se se tiver em conta que se não subiu também não baixou. Estando sujeita a tantas vicissitudes, admirei-me que a percentagem fosse tão alta.
A oração de que se fala é sobretudo um acto privado e individual (89% afirma rezar sozinho!), no recato da casa. A oração comunitária é frequentemente mais incómoda e provocadora; os ritmos de vida são intensos: parece que se quer viver duas ou três vidas numa. Se rezar poderá não ser muito apelativo, rezar em comum pode resultar muito complicado. E, sobretudo, a meu ver, na oração vai cada vez mais falhando a existência duma gramática comum, o que gera um fenómeno do género: eu sei rezar, mas talvez já não saiba rezar como rezam a minha mãe ou a minha avó. Logo não consigo rezar com, pelo que, ao menos será melhor rezar sozinho.
Os jovens não rezam ou melhor, quase não rezam: 65% não reza! E das duas uma ou não rezam mesmo, nem mesmo individualmente ou encontraram outras formas de rezar, ditas menos oficiais ou reconhecidas. A contemplação do belo, a generosidade e a amizade, a prática do bem e o gosto pelo diálogo, a ânsia duma sociedade mais justa e a opção pela defesa da natureza poderiam ser reconhecidas como formas de oração e a sê-lo, estou certo, diminuiriam os que afirmam não rezar.
Mas o mais surpreendente é que no ano de 2001, metade dos inquiridos dizia rezar em actos públicos (casamentos, baptizados e enterros) mas agora só um pouco mais de um quarto o faz, o que quer dizer que o grande lugar do culto é mesmo o coração de cada um.
Pergunto-me portanto, como nos reconheceremos no futuro? Em que lugares nos encontraremos? Que gestos comuns nos identificarão? Como nos configuraremos se não existirmos como povo?


Mudança
Porque sou carmelita há um motivo bíblico que de quando em vez me prende especialmente a atenção: é o rapto de Elias. Segundo a narrativa bíblica, no fim da sua cansativa vida o Profeta foi elevado ao Céu por um inesperado carro de fogo. São sempre engenhosas e grandiosas as telas que representam esta cena que muito gosto de contemplar. Conheço, porém, uma igreja que tem o mesmo profeta com uma espada de fogo na mão direita e na outra uma casa, que é como quem diz o Profeta é pai do Carmo. E é. O seu gosto ousado pela solidão com Deus inspira a nossa vida e move a barca da nossa existência.
Há tempos, folheando mais uma vez uma revista dominical dei de caras com uma imagem do Santo Profeta numa igreja inglesa. Não foi nem a espada de fogo, nem o carro de fogo, nem os cavalos de fogo, nem a casa na mão do Profeta o que me surpreendeu. Não, nada disso. O que me surpreendeu foi um atleta em voo de rappel rasante à cara da imagem! Sim, isso mesmo! Os templos de Inglaterra são agora ginásios, cafés, barbearias e até pocilgas. Pensar que ali, em França ou em Portugal tantos se santificaram pela oração e pela penitência naqueles espaços sagrados, e hoje eles apenas servem para o lazer!
Nem sei que diga! Nem sei como as imagens não choram ou fecham os olhos!
Mas já nada me admira. Se os jovens não rezam; e se os que rezam rezam sozinhos e em casa, obviamente não precisam de templos nem de espaços comuns. Basta-lhes o apartamento. E nele um altarzinho ou um ícone. Só para eles. E depois, quem poderá suportar os encargos de conservação dos templos antigos? As empresas, claro! Sim. Ao menos que não os arrasem, que fiquem ali como sentinelas e testemunhas de um tempo que parece ter passado e dum maneira de ser que não deveria perder-se. Porque se se perde todos perdemos, não apenas a Igreja.

Filhos

Brad é um Adónis, Angelina uma Diana. Brad é Brad Pitt e Angelina é Angelina Jolie. São um dos casais mais badalados, quer dizer falados e observados, de Hollywood. O que não fazem e o que fazem é diligentemente escrutinado, interpretado, imitado.
Sigo-os também eu há já algum tempo. Olho-os por causa dos filhos, que são cinco. Angelina tem 31 anos e Brad talvez um pouco mais. Acho muito curiosa esta família cuja vida pervive para além dela, nos jornais e na imprensa em geral.
Curiosa família esta a destes famosos.
Os filhos chamam-se: Maddox (do Camboja, 6 anos), Zahara (da Etiópia, 2 anos), Shilon (dos EUA, 9 meses), Pax Thien Jolie (Vietname, 3 anos e meio), Hsiao Kai-wan (Tailândia, 4 anos). Neste elenco da prole há logo qualquer coisa que não bate certo. Para já os nomes não dizem com nada, parecem tirados dos créditos finais de um qualquer filme. Depois a sequência das idades é mais que confusa. A seguir, só a do meio é que é filha de ambos, os outros são todos adoptados; por fim, tantos filhos, tantas nações e tantas raças!
A mãe Angelina é Embaixadora da Boa Vontade da Unicef. Tem como missão agitar as consciências adormecidas em favor dos pobres. Aonde vai leva câmaras e televisões consigo para denunciar a pobreza, muita dela provocada pelos ricos, muita dela sanável com os despejos dos ocidentais. É uma tarefa para uma mulher com a garra de Lara Croft.
Eu espero que a adopção daqueles meninos e meninas, não seja apenas um golpe publicitário e mais um gesto egoísta daquelas rutilantes estrelas de cinema.
Não me preocupa o bem-estar das crianças. Preocupa-me que, talvez por que os pais adoptivos sejam famosos, se torne mais fácil adoptar crianças. E mais do que criar uma família vinculada pela força que o sangue sempre tem (tê-la iam de outra maneira as crianças?, não sabemos...) geraram um Sociedade das Nações dentro de portas. Podem aquelas crianças ter de tudo, e até de muito mais do que teriam nas origens. Talvez nada lhes falte. Mas será lícito desenraizá-las, transplantá-las, como se uma família pudesse ser um jardim botânico? Não somos também o que foram os nossos antes de nós? Não somos também as tradições e preconceitos, língua e sonhos, fronteiras, desejos e anseios que nos chegam do antanho pelo combóio da história familiar? Estará isso ali garantido?
Angelina acaba de informar a imprensa que abandona o cinema para se dedicar à família. Ainda bem. Mas ainda assim é muito pouco.

Máxima
O sábio cristão Orígenes, fala assim sobre a vivência da Páscoa: «Quem compreende que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado e que nós devemos celebrar a festa comendo a carne da Palavra, esse está sempre a celebrar a Páscoa, que significa «sacrifício para a passagem», pois está permanentemente a passar das coisas da vida para Deus, e a caminhar depressa para a cidade de Deus.»

Mínima

Ide avisar os meus irmãos... (Mateus 28:20)

[20 Abril de 2007]