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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Notas de Roda-pé


Guerra
Para além do senhor Bush há mais quem acredite na guerra ao Iraque. É o que me dizem, é o que leio. Quando as bombas americanas caírem em Bagdade a vida de um amigo meu estará em risco. Chama-se Jean Sleiman e é o bispo Bagdade. O Iraque tem 270.000 católicos e Jean Sleiman é o seu bispo.
Eu não sei o que fará o bispo Sleiman, mas não é apanágio dos pastores fugir ao rebanho quando ele é fustigado. E por isso creio que Jean não fugirá. Há-de ficar ali naquela terra mártir que é a sua, que os americanos parecem odiar e cujo petróleo cobiçam. No olhar do bispo Sleiman espraiam-se dois lagos de paz. Eu sei porque já os vi. Por isso o bispo Jean não fugirá do meio daquele povo mártir.
Nunca nenhuma guerra é da vontade de Deus que aposta sempre pela reconciliação, pelo perdão e concórdia. Jean Sleiman, estou certo, ora pela paz, e, se dependesse dele, não haveria guerra porque recorreria a todos os meios para a evitar.
Dizem que a guerra vem aí, que a data já está marcada. Eu e o meu amigo Sleiman rezamos pela paz porque o americano e o iraquiano e todos os que se preparam para a guerra – para atacar ou se defender – são irmãos e filhos de Deus.
Eu rezo pela paz e só peço a Deus – como diz a canção – que o futuro (nem o presente) não me seja indiferente.

Transmissível
A rubrica Pessoal e Transmissível, da TSF, tem tudo de público e nada de reservado ou confidencial. Numa das últimas ouvi parte do testemunho de Douglas Scope cujo lema de vida é «A vida é para viver».
Desde o tremor de terra de 1985, na cidade do México, Douglas Scope já rastejou centenas de vezes (894!) por escombros de edifícios em busca de vida. Nos desastres em que participou já morreram mais de 600.000 pessoas, mas Douglas roubou algumas das garras da morte.
A catástrofe é o meio ambiente de Douglas. Ali é que ele se sente bem, porque é ali que ele realiza melhor a missão a que se sentiu chamado em 1985: salvar vidas! Para si o importante nem é viver a vida, mas fazer o bem na fracção de tempo que lhe foi dado viver. Salvar pessoas é uma experiência religiosa, diz. Ali toca-se as fímbrias da solidariedade e omnipotência divinas, ali se celebra a páscoa que resgata a vida à morte.
Desde que rasteja por entre escombros de prédios Douglas já viu de tudo. E o que mais o toca é que nunca deixou de ver a Deus. Ali em baixo, ali onde mais ninguém ousa entrar, ali no escuro e na destruição é que ele vê Deus. Costuma dizer que «no covil do lobo não existem ateus», quer dizer, as experiências limite de Douglas Scope mostraram-lhe Deus real e o encontro de muitos com Deus. Mesmo aqueles que sempre admitiram nunca o (vir a) encontrar.
Depois de ruírem as seguranças humanas a quem recorreremos para que nos espante o escuro da noite e da morte, os fantasmas do desespero e da loucura; a quem pediremos que nos acenda a chama da esperança? Douglas Scope diz que a Deus.
A vida é para viver, para salvar, para se salvar de a perder pelo encontro com Deus. E tanta gente que não vive!...

Europa
Está em preparação a futura Carta da Europa, uma espécie de Constituição da União. Uma coisa assim exige muito estudo, muita colaboração e reflexão dos homens bons. De ambos os lados, de todos os lados. O assunto passou rapidamente pelos jornais e pelos écrans. Assim como veio, assim foi. Deve ser coisa de políticos – pensou-se e desleixou-se... –, e deixou-se ficar a coisa para os políticos.
Gerou-se, porém, um pequeno debate. Melhor, falou-se da pele de galinha gerada pela notícia segundo a qual, a futura Carta, deveria conter ou não uma referência às raízes cristãs da Europa. Já se vê que não é assunto para consensos. Uns que sim, outros que não. E a maioria chutou para canto ou passou ao lado. Uns argumentam que os americanos colocaram Deus na Constituição, e os outros responderam que O retiraram da vida. E se os americanos colocaram..., mas os americanos são também fonte de muitos erros. E é verdade.
O Caminho não é por aí. Não temos por que imitar ninguém. Mas a haver uma Carta da Europa por que não incluir nela Deus? Não precisa de parecer lá nenhum capítulo da Bíblia. Mas não é despropositado reconhecer que a união da Europa não é só económica ou política, e que nos unem – mesmo antes da economia e da política! – laços espirituais. Deve a futura Constituição europeia reconhecer os comuns fundamentos e raízes cristãs? Claro que sim. Não está em questão restaurar a Cristandade, trata-se apenas de reconhecer que uma árvore sem raízes morre, morre depressa.

Crime
No HermanSic de 8 de Dezembro – tal como já o fizera em telejornais passados – Carlos Cruz foi lavar-se para a televisão. Com todo o respeito digo que foi lavar-se. Carlos Cruz fora lançado à fogueira e ao enxovalho do diz-que-disse. E do meio da fogueira, cheio de lama, lamentou-se: «Eu não moralizo, também tenho os meus pecadilhos. Mas agora onde me vou refugiar. Eu não sou católico; a justiça falhou e a Igreja tem os seus casos...». Ó senhor Carlos Cruz, pois tem. Mas em vez de ir a um programa de televisão (mais eficaz, claro!) poderia ter ido a uma igreja. Olhe que as igrejas ainda são bons refúgios. Não duvide que são. E rematava: «Já não há ideias. Não há guias. Não há condutores». Não quero crer, mas olhe que quase concordo consigo: parecemos à deriva. E talvez tenha sido ela que provocou o seu assassinato mediático. Mas de quem é a culpa? Da Igreja ou da televisão?
Compreendo a sua preocupação em deixar um património moral e de bom nome às suas filhas. Quer entregar-lhes valores, projectos, crença no futuro. Mas também lhe entregará os seus pecadilhos, já reparou? Não se orgulhe deles, nem os lamente. São o que são. Também são património, são herança. Fôssemos todos homens bons, sem pecadilhos e casos e não existiram coisas como o mega-escândalo da Casa Pia!
(Estas notas foram escritas nos dias seguintes às primeiras denúncias públicas que atingiram o locutor Carlos Cruz. Entretanto, Carlos Cruz foi preso preventivamente na semana passada. Nada está provado, nada está julgado. E enquanto não for julgado e sentenciado como culpado Carlos Cruz é apenas réu. E como tal continua a ter direito ao seu bom nome. Até que se prove, se algo houver a provar, o contrário. E como qualquer réu é digno de presunção de inocência até que a sentença transite em julgado.)

1’ de sabedoria
O Mestre nunca se mostrava impressionado com o exibir de doutoramentos, mestrados e diplomas e mais diplomas... Simplesmente estudava as pessoas e não os seus diplomas. Por isso, um dia, alguém o ouviu dizer: «Se você tem ouvidos para ouvir o canto dum passarinho não precisa de lhe perguntar qual as suas credenciais, os mestres e a escola de música que ele frequentou»!

[8 de Fevereiro de 2003]

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