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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Notas de Roda-pé


A Cruz Branca

(Não é especialmente bela, mas é dela que vou falar.)
Vá à varanda, é o meu convite.
A varanda neste caso é Paços de Gaiolo, em Marco de Canaveses. Se visitar o Santuário do Menino Jesus de Praga, recomendo-lhe que regressando à sede do Concelho pergunte ali por onde se vai a Paços. Toda a gente saberá indicar-lhe a Estrada Larga, que lhe abre a porta para a segunda peregrinação do dia.
O que lhe aparecer pela frente é digno de nota, e até vale uma canção. Se souber cantar o Hino das Criaturas, cante; o que lhe enxagua os olhos bem o merece! Mas não se detenha! Poderia parar nos doces do Freixo e comprar. Mas há coisas mais doces. Poderia parar nas ruínas vetustas de Tongobriga. Mas há coisas mais antigas.
Vá à varanda. É sempre em frente. Em caso de dúvida pergunte. Se perguntar onde fica a Barragem do Carrapatelo também dá. Quando chegar desça para a barragem. Depois, a um lanço de metros que agora não sei medir, guine à esquerda, em direcção à Prainha. A condução não será fácil, por ser um empedrado muito estreito e a pique. Os locais garantem, porém, que até um autocarro de gente já desceu ao rio!
Ali pode descansar, dormir a sesta, rezar, piquenicar e até banhar-se.
Quando lá fui a Primavera ainda não tinha rebentado. A natureza jazia escura, como fundo e escuro é o rio também. Não há muito para onde olhar: ou se olha para o rio escuro, ou para as margens que trepam por ali acima e lhe entaimpam a vista. Não se vê muito, de facto. O arruamento está limpo e asseado. Siga para montante, porque em direcção à foz logo encontraria o muro e as comportas da barragem. E se por ali há grandes quintas abandonadas e desprezadas também há quintaizinhos de gente pobre ou remediada que sabe ainda duma cavadela arrancar batatas e feijões, e do ar tirar uma pinga de vinho e outra de azeite. E também há cascatas que se não vêem mas se ouvem e nos dançam nos ouvidos. E no resto vamos por ali, andando, andando, num passeio que sabe a refresco.
Um passeio que a mim muito impressionou quando o fiz.
Algures, sem pré-aviso, há uma fraga. Uma fraga rija que se adentra ligeiramente pela albufeira e que em tempos enfrentou o Douro como um aríete. É de respeito. Dizem os dali que os rabelos carregados de vinho generoso, depois do Porto, se aproximavam para comerciar uma dormida mais fofa, umas broas frescas, um capão, uns ovos e até uns vegetais. E em troca recebiam um cântaro daquele bálsamo que ajudava a sonhar em português antes de embalar os charutos dos lordes ingleses.
É nessa fraga que se encontra a Cruz Branca. Como digo não é especialmente bela. E nem todos se aproximam dela. Infunde um certo respeito por falar ao antigo, por ser branca no meio de tanto escuro, por sei lá, por falar de dores antigas e esperanças perdidas. Ali rezei um Padre Nosso, e quando dela me lembro vem-me logo à memória a desmesura do esforço de fazer boiar rio abaixo um rabelo carregado de vinho.
(E o que não seria trazê-lo de regresso a casa!)
Se um corpo precisa de veias e artérias para que se lhe reguem os órgãos e os músculos, também o da mãe terra precisa de rios que lhe reguem a alma e o ventre para que à gente dê flores, esperanças e filhos.
Quanta água não leva o Douro! E quantas pingas tintas não recebeu ele nas suas águas, à moda da immixtio que o sacerdote procede no cálice eucarístico!
Aquela Cruz Branca infunde-me terror. Um terror sagrado, direi. A fraga em que se assentam os pés parece-me um altar donde ainda hoje se erguem orações, qual montanha de puro incenso prenhe de tanto sacrifício humano! Quem me dirá as vidas que o rio tragou? Que canção cantará tanta dor ali arrimada? Quem me falará dos seus tenros órfãos e das suas viúvas negras? Quem contou o suor dos que para salvar o lucro dum ano se esbaforiram no afago das fragas a fim de evitar o rombo no barco? Como seriam aquelas noites mal dormidas e as crespas manhãs de nevoeiro espesso? E que tremeluz não significaria aquela Cruz Branca?
Sim, já o disse. Aquela fraga é um altar com a sua cruz branca no meio. Ali se consagrou o sacrifício dum povo pobre que bebia a vida do rio e a caridade de quem sendo pobre restava no aconchego das margens e nas courelas de centeio.
Aquela Cruz Branca mais tosca que bela, hei-de visitá-la outra vez. Visitá-la-ei em peregrinação. Irei por respeito ao rio e às suas rijas gentes. Aos que o amaram e o beberam, e aos que lhe escanhoaram as margens com a enxada e a foicinha. Irei de novo àquela Cruz Branca e não irei só. Irei por respeito ao sacrifício de Jesus, dom derramado para nós em todas as veias da terra. E por respeito ao sacrifício dos que ali ergueram um naco de cultura e fundearam a fé. Irei de novo ali, cansado dos ventos que me rasgam as velas e estraçalham os mastros. Irei como quem ao aproximar-se a noite escura ali precisa de ancorar.
Às nove horas do próximo dia 16 de Abril irei rezar junto da Cruz de Paços de Gaiolo, que não é bela mas é branca.


 [28 de Março de 2011]

sábado, 19 de outubro de 2013

Notas de Roda-pé


A missão

Despertou sobressaltado e ficou à escuta. Silêncio. Era noite e ter-se-ia enganado, julgou. Ou sonhara, que os tempos não andavam nada bons. Quem é que a altas horas se haveria de lembrar de o chamar? Escorregou para dentro dos lençóis, elevou o pensamento para o Eterno e adormeceu de novo.
– Marcielo, Marcielo, chamou de novo a voz. Não se recordava de nos últimos séculos ter escutado o seu nome tão insistentemente. Mais desperto ergueu-se e perscrutou o silêncio. E nada. Não via vivalma. E novamente pensou em afogar-se nos lençóis e deixar-se de vozes que se fazem ouvir na noite. Alisou as asas e já se começava a enroscar no leito quando sentiu novo sobressalto: o Eterno que sempre é cheio de glória encontrava-se ali mesmo. Poça, pensou de um salto! Donde sou digno que o Eterno venha à minha morada? Porque é que a Sua glória enche de esplendor este humilde recanto?
Não sabia o que dizia, nem sabia que pensar. Tinham passado tantos séculos desejando ver a majestade do Eterno que não podia crê-l’O ali. Eu, eu – pensava em forma de gaguejos – eu não passo dum pobre e obscuro Anjo. E de facto era. À sua frente sempre estavam os nove solenes coros de angélicos. A si correspondia-lhe sempre o último lugar, ao jeito dos seguranças de entrada que zelam pelo recinto, mas nunca assistem ao concerto. – Meu Deus, pensou assustado, que terei feito eu? É que a Marcielo jamais lhe fora dado contemplar toda a bondade e a glória do Eterno em todo o seu esplendor. O mais que alguma vez enxergara fora um pequeno raio dum distante resplendor que lhe chegara coado pelo júbilo dos Serafins e dos Querubins e do agitar de imensas asas. Vira muito pouco, portanto. E agora Ele ali.
O que não sabia é que o Altíssimo lia as palavras ainda antes de lhe chegarem ao pensamento. E disse-lhe: – Não temas, Marcielo. Sei bem que te julgas um incapaz, que te satisfaz o último lugar. Mas tenho para ti uma missão.
 - Uma missão?, tremeu o Anjo, pensando que jamais ousara querer algo mais elevado que apanhar papéis do chão.
– Sim, uma missão, prosseguiu o Eterno. Olha, começaram os ensaios do Gloria in excelsis Deo com o qual o Céu anuncia à Terra o Nascimento de meu Filho segundo a carne. Marcielo, ainda nenhum desses famosos tenores angélicos sabe, mas eu já escolhi. Este ano foste tu o eleito para cantá-lo!
Quase desmaiou, pois não sabia cantar. Ele, o Anjo-apanha-papéis iria anunciar aos homens a feliz notícia? Ergueu-se naquele momento uma daquelas rabanadas de vento que sempre espalham os papéis para longe e lhe complicam a vida aumentando-lhe as horas de trabalho. Uma poderosa comporta abrira-se repentinamente algures. Instintivamente o Anjo levantou-se no ar, bateu descoordenadamente as asas, e depois dum espasmo aterrou aos pés do Eterno.
– Sim, é verdade que não sabes cantar. Porém, acaba de entrar o Santo Espírito que cuidará que aprendas como convém.
Já que no Céu não há como opor-se à Altíssima vontade, chegou por fim a bendita hora. Marcielo cruzou ledo e ágil os sete espaços celestiais. E por cada imenso corredor que cruzava ia sentindo admiração e surpresa. Afinal, era ele; mas quem era ele? Nunca o seu nome aparecera em folha de serviço alguma, jamais cantara diante da Glória divina, nem para nenhuma das dignidades periodicamente chegadas e logo surpreendidas com um concerto angélico. Sem o esconder havia nele uma minúscula pontinha de orgulho por ter sido o eleito para anunciar aos humanos o Santo Nascimento. E abandonou o Céu. Percorreu por fim a enorme alameda e mal os altíssimos portões se fecharam foi colhido por uma rajada de ar gélido que lhe entorpeceu as asas, pelo que deu uma desajeitada pirueta no ar e pela segunda vez em poucos dias aterrou de papo. Ainda a voz não lhe chegara à garganta para executar o MI sumido e já ele estava por terra. Sentiu uma picada numa das asas e só então deu de si reparando que estava sujo de lama e óleo escuro. Era noite. Ficara desorientado. Atrasara-se. Talvez tivesse perdido os sentidos e a noção do tempo. Estranhamente sentiu frio, mas não sabia se alegrar-se se condoer-se. Encontrava-se à saída dum viaduto urbano. Ergueu-se como preparando-se para dar às asas. Passaram carros, mais carros, mais carros mais velozes. Ficou tonto, o tempo escorria, a missão urgia. Apelou a todas as suas forças, à do dever também, e ignorando a dor da asa esquerda elevou-se imprudentemente no ar e ficou sem tempo para evitar o choque com o último autocarro da noite. O experiente condutor não pode evitar o atropelamento, mas ao ver penas a esvoaçar julgou que alguma pomba tonta, ou talvez duas, terminara ingloriamente a sua existência. E prosseguiu, que a noite era de consoada e prometera à família não atrasá-la.
Acordou muito dorido. Ferido, perdera a asa esquerda. Viu-a um pouco além. Um rato passou-lhe por cima farejando-a. Não teve medo, pois não sabia o que era um rato. A custo ergueu-se. Era impossível um voo de uma asa só, como aprendera nas aulas dos voos angélicos com o instrutor celestial. Era noite. Havia uma luz ao fundo. Pela primeira vez teve medo, mas a luz fixa era promessa de calor. Sacudiu-se, recolheu a asa solta e encaminhou-se. Era uma barraca. Havia mais barracas. Entrou porque a porta se abriu sem surpresas. O espaço era pequeno e sujo, sujo chegava ele também. Ninguém notou nada senão que repentinamente havia mais luz em casa, que se viam melhor os pedaços de pizza frios sobre a mesa e as latas de coca cola há muito abertas. Não disse que era um Anjo nem ninguém perguntou. Todos conheciam o código e ninguém invadia histórias alheias. Havia uma menina que lhe sorriu. Deveria ser bonita como todas as crianças, mas a sujeira da cara não permitia ver muito. O Anjo sorriu-lhe. Foi um momento celestial no meio de tanto negrume escuro. Ofereceram-lhe pizza que ele aceitou e levou à boca sem se lembrar que não tinha boca, que jamais comera, que apenas viera para cantar!
– Como te chamas, perguntou-lhe a menina?
– Marcielo.
– Tens nome de anjo confirmou ela.

Deve ter sido aqui que definitivamente adormeceu. Cobriram-no. Quando acordou era manhã e tinha nevado, não havia luzes ou luzinhas. Atrasara-se imperdoavelmente e já não chegaria para a Festa que nesse dia pontualmente o Pai celebra no Céu e que ele nunca perdera. Sentiu ao fundo um carro que vencia lentamente o manto de neve. Era o substituto do Pároco que vinha celebrar a Missa de Natal ao bairro. Julgando-o um freguês abriu-lhe a porta do pendura.

[30 de Novembro de 2010]

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Notas de Roda-pé


Silêncio, atenção, silêncio!


Agora, Senhor, agora que o Verão se esvai, eis-me aqui. A olhar, a ouvir, a pensar. Os recreios estão cheios de crianças nossas esperanças. Já caíram as primeiras chuvas, as uvas estão maduras e o povo que as vindima não tem tempo para se confessar. Vou por isso escrever o que prometi, caridade para quem me pediu e quem me lê.
Agora, Senhor, agora que se acabou o tempo das cigarras, dos trajes e das festas, e as casas das formigas ficam fartas, agora que nos vemos obrigados a pôr um casaco de meia-estação, seja pelo frio seja pela crise, que, afinal, sempre vem, agora, sim agora que de novo o mundo corre obstinado, eis-me aqui.
Agora, Senhor, agora que os dias vão encolher e os nossos passos não pararão de correr, agora que começam os anos escolar, pastoral e por aí adiante, agora e sempre te entrego a vontade de crescer e vencer, a vontade de lutar sem desistir, de testemunhar o sabor da tua ausência tão invisivelmente presente.
Desde aqui, Senhor, desde este recanto com um rio aos pés e um mar que o bebe dum trago, te confio o meu empenho, o meu dever de recomeçar, de acompanhar. Porque aceitas todos os começos e regressos, porque nos abres os braços e confias nos nossos bons propósitos, porque nos estimulas a ser felizes, porque sim, aqui fica uma história de vida apontada como um aguilhão a quem, como eu, tem o dever de sentinela.
Num Janeiro frio de há três anos um homem executou Bach durante uma hora para cerca de duas mil pessoas. O auditório nada selecto foram as escadas e passadiço duma estação do Metro de Washington. Três minutos depois um homem de meia-idade percebeu que havia um músico a tocar, abrandou ligeiramente e logo recomeçou a correr.
No minuto seguinte uma mulher deitou um dólar no chapéu e continuou o caminho.
Dois minutos depois um rapaz encostou-se à parede para deleitar-se, mas olhou para o relógio e recomeçou a caminhar.
Aos dez minutos um menino de três anos parou, mas a mãe apressada puxou-o. Ele tentou parar novamente mas foi arrastado. Só deixou de olhar para trás no fim do túnel. Isto sucedeu com várias outras crianças. Os pais forçaram sempre a não parar e a caminhar rápido.
Quarenta e cinco minutos depois seis pessoas tinham parado e escutado durante algum tempo; vinte tinham dado dinheiro (32 dólares; pouco mais de 25€), mas sem parar.
Uma hora depois o homem encerrou o concerto e o silêncio caiu. Ninguém reparou. Ninguém aplaudiu. Ninguém entregou flores. Ninguém soube, mas o violinista chamava-se Joshua Bell, um dos grandes músicos do nosso tempo. Durante aquela hora ele executara uma das mais complexas peças jamais escrita num formoso violino de 3,5 milhões de dólares! Dois dias antes Joshua esgotara os seus concertos em Boston, cujos ingressos custaram em média 100 dólares.
Esta história que parece ser verdadeira foi promovida pelo respeitado jornal Washington Post.
É esta a história, Senhor Menino Jesus de Praga, que hoje eu entrego aos teus leitores. Porque, afinal, andámos por aí a recarregar baterias. E elas, de tão boas, só nos servem para caminhar, para correr e saltitar, saltitar, saltitar. Não ajudam a parar e a admirar. Quantas situações destas se repetirão? Quantos homens ou mulheres, irmãos meus, me enviaste para de forma mais modesta encher de vida e alegria os dias da minha vida? Quantas margaridas e quanta beleza me vêm perfumar a vida, torná-la mais bela e levadeira e eu sem disso me aperceber?
Ah, sabes, Senhor Menino Jesus de Praga, quem me dera ser menino com muito tempo por diante, um menino de olhos grandes e arregalados, e ouvidos sensíveis para perceber a descida da beleza como a das pombas que descem pacíficas ao recreio das escolas! Quem me dera tempo e sabedoria para apreciar um valor inesperado, para me espantar com uma simples simpleza qualquer, para reconhecer um talento que se detém junto a mim!
Estamos a recomeçar um novo ano cristão. A aurora dos dias novos ainda não despontou de todo e trago já o coração atafulhado de datas, lugares, palavras, rabiscos, planos e projectos. É certo, Senhor, que a cada dia basta a sua canseira. Mas é-me impossível não começar a prever situações e consequências, a antecipar possibilidades e planos b. Aceita, por isso, Senhor Menino, a minha boa vontade de pôr os pés ao caminho, de ir de bem em melhor, e de olhos em Ti conduzir os que queiram ir. Aceita, Senhor Menino, os meus passos, o meu zelo pelos teus assuntos, faz-me acolher a leveza da beleza e calar em mim as palavras do teu servo Bento XVI: «Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.»
Ámen. Ámen. Vinde, Senhor Jesus!

Máxima
«No meio de vós está quem não conheceis.» (João 1:26)

Mínima

«Olvido do que é criado, memória do Criador. Atenção ao interior e estar-se amando o Amor.» (São João da Cruz)

[28 de Setembro de 2010]

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Notas de Roda-pé


A raposa

Todos falhamos, eu também. Intimamente propus-me no início do Ano Pastoral publicitar em tempo útil os pequenos oásis espirituais que, em tempo de férias estivais, brotam aqui e ali, à sombra de mosteiros ou santuários, como pequenas elevações de meditação e reflexão que a tantos renovam e convidam a subir. São recantos vários de tonalidades várias que por esse pequenino Portugal fora vão vivificando comunidades e gentes com a água viva do Espírito de Deus. São oásis, pronto. Pequenos remansos que purificam a seiva de comunidades, famílias e fiéis, sacerdotes e consagrados. Existem para todos os gostos, quero dizer, formatos, e são normalmente bem dirigidos e de substância consistente e nutritiva.
Seriam coisas do género Semanas de Espiritualidade, Jornadas de Oração, Encontros de Amigos de Orar – actividades promovidas pelo Centro de Espiritualidade de S. Teresa, adossado ao Santuário do Menino Jesus de Praga. São momentos fortes pensados para pessoas que chegam em família ou em grupo e até individualmente para regenerar o corpo, descansar o espírito e rezar.
Propus-me, dizia, publicitar esses pequenos oásis. Não o fiz e penitencio-me. Mas por que não o fiz, pergunto-me? Porque perdi essa oportunidade de conduzir alguém para esses quase secretos recolhimentos? Não o fiz por desorganização. É certo que não tenho nem muito espaço nem muitos meios, mas a disponibilidade de que disponho poderia ter sido usada para divulgar tanto bem que brota silencioso, tanta fonte generosa que por aí corre discreta. E não o fiz porque o ruído me caiu em cima, me dispersou, forçando-me ao lufa-lufa que cansa e distrai, obrigando-me a correr e a esquecer que é mais importante a atenção à beleza interior que a da fachada.
Falhei, está dito. Quero agora reorientar-me. Falarei por isso de raposas e de cães.
Conta-se num conto, talvez inglês, quem sabe, que numa caçada à raposa alguém se pôs a observar os cães. E que verificou? Verificou que numa dessas célebres caçadas os tempos são distintos e para resolver com naturalidade. Assim, há o tempo da espera, da perseguição e o fim. Enquanto se espera parece que nada passa, mas passa. Os senhores vão chegando com as suas matilhas trazidas por criados e servos. Chegam em suas jaulas, não por serem ferozes mas para os transportar seguros. À chegada a maioria dormita, parece desinteressada, mas na realidade não dispersam forças, e latem para sinalizar a presença e trocar pequenas mensagens, como quem diz: pensavam que eu não vinha?­­
Depois dá-se a largada e ao que parece um ligeira vantagem à raposa, que é hábil e ladina como se sabe. Logo de seguida largam-se matilhas enormes de cães que são seguidos pelos seus senhores a cavalo. Aqui vem o interessante da história. Depois que se dá a largada da cãozoada aquilo torna-se latir infernal. Todo o cão que por ali há, de tão excitado que se encontra, grita e esganifa-se na sua linguagem canina, e persegue o mais que pode a pobre raposa. Diz quem viu que a chinfrineira é infernal. Todo o cão berra, todo o cão late, todo o cão ladra no limiar da excitação. Correm como loucos, saltam valas e valados, vencem outeiros, ribeiros e muros. Tudo vale para se animarem a correr, para perseguir a prima raposa que lhes largaram à desfilada mesmo à frente do focinho.
Diz quem viu que alguns cães acabam por abandonar a perseguição. Não, não é que não saibam do ofício. O certo é que muito antes do fim alguns canídeos o abandonam. No entanto, a maioria prossegue a demanda. Mas logo outros, mais à frente, se vão deixando ficar. Também não é por se terem cansado, que alguns certamente se cansam mais rapidamente que outros. A verdade é que ainda muitos animam outros muitos. E todos correm e os senhores lordes também. Creio que a caçada ainda não vai a meio e mais de metade da matilha já se deixou ficar!
Creiam que é verdade, quem viu foi quem me contou. Aquilo é desporto de senhores, mas não dispensa as mais ágeis destrezas dos fiéis amigos dos humanos. Quando, falta um pouco menos dum terço são já pouquíssimos os cães dedicados a sinalizar a espantada raposa fuginte. E serão cada vez menos até serem poucos e raros.
Algumas vezes a raposa não é alcançada. Quando assim é merece o prémio da liberdade. Outras vezes é. Mas a pergunta que aqui conta e a que quero chegar é: por que tantos cães desistem da perseguição? Só sei o que me disseram: a grandíssima maioria desiste. Porque será? A resposta não é óbvia e de fácil alcance, por isso a adianto: os perseguidores vão desistindo porque vão deixando de ver a perseguida! À medida que a vão deixando de ver abandonam a correria louca e param! Enfim, alguma vantagem a raposa há-de ter sobre os primos. Eis o interessante: o ver é fundamental para manter vivo o interesse da perseguição. Não ver leva ao desânimo e à desistência. Na verdade parece que estas caçadas já não se realizam. Porém, a moral da história mantém-se.
Vertida a metáfora para a pastoral cristã, também por aí, creio, se pode justificar o porquê de tantos baptizados abandonarem os seus compromissos, o seu testemunho. Enfim, uns após outros, e muitos depois de muitos, vão deixando-se ficar e deixam de seguir o Senhor que caminha bem lá à frente de todos!
Creio que é bem plausível a hipótese. E é por essa razão que me penitencio. Enfim, neste Verão, terei contribuído para que alguns deixassem de ver a raposa? E esfriassem a sua fé e confiança no Senhor que chama a segui-Lo? Não sei. Mas sei que gostaria de não ter esta dúvida.

Máxima
«Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me.» (Lucas 9:23)

Mínima

«Onde é que te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido?
Como o cervo fugiste, havendo‑me ferido;
Saí, por ti clamando, e eras ido.» (S. João da Cruz)


[20 de maio de 2010]

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Notas de Roda-pé




Coração

(Não queria falar da crise. Por que muito se fala dela a propósito e a despropósito. E isso faz-me frio, um frio de descrença a que nós não estávamos habituados. Mas não falar dela torna-a ainda mais presente. Por isso falarei da lareira onde a crise se derrete: o coração!)
Que o coração é de carne todos o sabemos, mas é carne-músculo, o que por si só indicia que deve ser enrijecida. Mas haverá músculo e músculo, rigidez e rigidez, esclerose e esclerose.
Dou por mim a pensar em corações. O de Paulo de Tarso deve ter sido bem rijo, atlético e até guerreiro, não é só por ter anunciado o Evangelho em muitas asperezas, mas pela maneira como o fez: ardente, combatente, irresignado, em constante labuta apologética, em permanente estado febril.
O de Bartolomeu de las Casas foi igualmente imenso e amplo, ardente como um tempestade de fogo e com um arco-íris, inquieto mas justo, digno, livre e paterno, persuasivo e exigente e inflexível se necessário.
O de Martinho de Porres foi pequenino e dócil e piedoso, atento e escravo, paciente e humilde, desapegado, piedoso e com espaço para uma vassoura, uma bacia de água e ligaduras.
O de João da Cruz foi sereno, suave e puro, decidido, austero e terno, forte, doce e amigo, nele cabiam frades e passarinhos, primaveras, santos e anjos, profetas, pobres e poesia, e tinha de certeza uma mangedoura e um calvário!
Os das mulheres, de que aqui não falei, são iguais, mas talvez ainda mais fortes, mais valentes, mais ternos, mais decididos.
Já tenho descansado em corações e corações. Já tenho tropeçado e encalhado neles. E até levado por eles como em carroças aos solavancos. Nada de mal, nada de mais. Assim é com todos. Corações há por aqui e ali, por onde vou, cuja solicitude e meiguice é um descanso, um refrigério, uma praia amena com areia quente e ondas suaves.
Também há os que esperam algo de mim, muito de mim: serenidade e paz na confissão, fortaleza e unção na Eucaristia, silêncio e ternura nas voltas pelo claustro, compreensão e perdão num locutório, atenção e ouvido no inesperado dum sobressalto qualquer, sorriso e bênção pelos carminhos. Direi apenas que se faz o que se pode, que nem sempre o coração chega a todas as cambiantes. E há outros que esperam que me deponha nas mãos deles e eu com tanto medo das duras tenazes de ferreiro!
Estamos em início de ano. Chegamos aqui tão cansados, que cansados havemos de por uma e outra vez os pés ao caminho.
Num dos acasos típicos destes tempos dei de frente com uma canção. Poderia transcrevê-la toda aqui, que valeria a pena. Mas tenho dificuldade em traduzi-la na sua simplicidade. É espanhola e chama-se Gente. Os intérpretes, Presuntos Implicados, é um nome que, julgo, supõe trocadilhos que eu não alcanço. Fui procurar a canção deles. Fala ela de gente banal, de pessoas simples, muito simples. De pessoas anónimas que vão fazendo milagres que se coam na tecedura do tempo. Gente em quem não reparamos, mas em quem eu quero reparar neste início do ano. Não governam empresas, não gastam salários estapafúrdios, não realizam milagres financeiros na Bolsa. São gente simples de sacos plásticos na mão, com dores de cabeça e artroses como os demais. É gente assim que precisamos, que vamos precisar de valorizar mais e mais. Gente sem preço, a quem peço que não desista. Gente que não põe preço no que faz, a quem de quando em vez nos esquecemos de sorrir, de agradecer. São heróis, os meus heróis de coração que não encolhe em tempo de crise. Só não movem o mundo, mas sem eles o mundo fica mais perro. São gente assim que aquece o mundo, que espanta o frio ao nos trazerem para junto de nós o suave latido do coração.
Há tanta gente que encurta as horas dos cansados, que faz sonhar desanimados; gente que reza junto dos altares, que acredita, infunde e traz a paz. Gente forte de olhar seguro que leva gente aos hospitais, que visita lares e esparze a solidão de tantos apartamentos que parecem túmulos. Gente bem lembrada que não pensa em si, cujo tempo estica, estica, estica, e junto de quem duas horas parecem dois dias soalheiros. Gente que adivinha o tempo, que tem sempre tempo para dar. E nenhum preço para cobrar. Há gente de olhar que não olha, não fere, não inquire. Gente como anjos, como anjos serenos que beijam o sulco das lágrimas.
Estamos cada vez mais frios, mais separados, mais ausentes uns dos outros, mais incapazes de nos levantarmos do chão porque há tesouros que ignoramos, valores que começamos a esquecer, que preferimos não ver, não imitar, não aprender, não agradecer. E assim a malha vai ficando mais larga mais larga e o calor esvaindo-se por aí expõe-nos ao gelo da crise.
Bom ano, bom coração.

Máxima
«Jesus vive perpetuamente para interceder por nós.» (Hebreus 7:25)

Mínima

«Deus visita-nos, mas, a maior parte do tempo, nós não estamos em casa.» (Joseph Roux)

[11 de Fevereiro de 2007]

domingo, 11 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé



You’ll never walk alone*

Escrevo a meio da visita apostólica de Bento XVI a Portugal. O peregrino do Bem da Verdade e da Beleza chegou, entretanto, ao Santuário de Fátima, como um filho que veio visitar a Mãe rodeado de muitos irmãos e irmãs. A sua simplicidade e pequenez já nos tocaram: não parece um pastor rijo de cajado na mão, é um valente, um menino manso como um cordeirinho dos Pastorinhos. Os frutos da sua visita serão abundantes, porque semeados na humildade de quem vive da esperança.
Nestes dias de beleza e de espiritualidade apostólicas parece-me quase descabido citar o que citarei, o hino do Liverpool, equipa de futebol de Inglaterra: *«Tu nunca caminharás sozinho.» Mas é isso que leio na força de Bento XVI ao vê-lo caminhar lento mas firme, trémulo mas resistente, cansado mas confiante. Vejo-o a espaços e vejo que não caminha só. Caminha como um pai, acena como um patriarca, fala como quem confirma, puxa a justeza das palavras como quem lança caboucos. Vejo que lhe batem palmas, que abre com gosto a janela do papamóvel, que sorri e acaricia como um avô, que vem uma e outra vez à varanda da nunciatura, que acarinha aqui um menino, ali uma turminha, e além beija dois bébés. (Ah, os meninos, meu Deus!) E abençoa sempre. Vejo que as multidões acorrem, correm, se apinham. Os corações abrem-se, os ouvidos ouvem, as famílias franqueiam-lhe os sorrisos da alma. (No Terreiro do Paço havia tantas famílias jovens que não foram poucos a surpreender-se com a multidão daqueles trambolhos que são os carrinhos de bebé!)
Ninguém merece caminhar sozinho. Bento XVI não caminhou sozinho em Portugal. Não caminhará nunca sozinho.
Ninguém merece ficar parado com medo de caminhar só. Ainda que agrilhoado à mais redonda e pesada das impossibilidades ninguém está impedido de caminhar e crescer. Se não física, pelo menos espiritualmente. O lugar duma pessoa, muito mais se tem fé, se é peregrino, são muitos lugares e sobretudo os caminhos. Peregrino foi quem nos iniciou na fé, peregrino foi Jesus, peregrina é a Igreja. Sou eu, és tu. Enquanto vives esperas caminhando. Enquanto vives muito há por caminhar. Caminhar é algo que tardamos em aprender, embora alguns aprendam e depois não sejam mais que múmias. Caminhar é sempre caminhar com. Connosco, com os pecadores, com Deus, com os anjos e os santos.
Quem acredita em Deus nunca está só, gritou ao mundo uma nuvem de jovens azul turquesa! Sim, quem caminha acreditando nunca está só, porque Deus vai lá bem no íntimo, mais íntimo a nós mesmos que nós próprios, como hóspede sereno e valoroso companheiro de jornada. É essa, parece-me, e atrevo-me, a alma do Papa: Ele sabe que não caminha só. Por isso, muito gosto eu daquele caminhar feito de passinhos curtos, passinhos de quem é certo que caminha cansado, de quem, porque também é certo, quer caminhar connosco, com todos, os que têm fé e os que a não têm. São uns passinhos de quem jamais deixará alguém para trás porque nunca caminhou só.
O seu caminho é o da verdade, o íngreme caminho do Calvário de Jesus. Nem todos vão por aí, mas é por aí que ele vai caminhando. Ele sabe o caminho e sabe que por vezes não é mais que um trilho na noite, um trilho de ásperas pedras e de rudes rijos tojos. E nem por isso ele pára, hesita ou fica para trás. Ele não desiste e não desilude. Anima-nos a enfrentar a aspereza da vida e a débacle dos sonhos.
Ninguém merece caminhar sozinho. E aí vai ele pelos caminhos do mundo, como irmão cuidando do amparo de cada irmão e de cada irmã. Ao ver-te, Pedro, caminhado assim, lembro os caminhos mais belos porque menos percorridos. Que o caminho é ao Céu, que ao Céu todos chegaremos qualquer que seja o caminho — e são tantos! Lembro que é melhor ir em comunidade, dois a dois, que um só por si. Esta noite, todas as noites, todas as luas e todos os sóis, hei-de caminhar com qualquer só que percorra os carreiros da terra do sei lá, com esse que julgando-se só caminha, afinal, acompanhado, porque é assim que eu quero que ele vá.
Algum experto declarou que as batalhas só as ganham os soldados cansados. Leio caminhos em vez de batalhas, e fica assim: só chegam ao fim quem nos caminhos se cansou. É preciso sair, é preciso caminhar e cansar. Vamos, pois, sem medo para o caminho que consuma a nossa esperança: o Céu.
Venha o que vier, quer trema o mundo ou se abalem os fundamentos: ninguém está só, ninguém caminha só.
E a lamparina da fé bruxeleia tremeluzente nas noites dos nossos dias.

Máxima
«Sai da tua casa, vai para a terra que te vou mostrar.» (Génesis 12:1)

Mínima

«Onde os homens fecharam portas, Deus abriu janelas.» (Bento XVI, em Lisboa)

[20 de Maio de 2010]

sábado, 10 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé



A resposta de Jesus faz pensar
In memoriam de Paulo Sérgio Pacheco, morto no adro da Igreja de Paredes.
A meteorologia da notícia previa o seguinte: O fim de semana 27 e 28 de Fevereiro anuncia-se com dias de tempestade em Portugal (pelo que ouvi só a baptizaram quando chegou a França, Xynthia). Preventivamente, desmarcaram-se muitas actividades.
Os factos da notícia dão conta do seguinte:
Nesse fim de semana em Portugal a Xynthia derrubou 2500 árvores. Em França matou 50 pessoas; em Portugal uma, um menino de 10 anos. Morreu em Paredes, no Adro da Igreja Paroquial. Chegada a hora o pai acompanhou-o à catequese. Havia uma caminhada programada, mas o tempo não estava para aí virado; por isso ficaram na igreja para visionar um filme. Antes da catequese e com o pai por ali, o menino jogava à bola que saltou mais que a conta — o que é natural, pois até a bola do mundo salta mais que a conta nas mãos dum menino! E foi parar junto duma tília centenária onde o Paulo correu a buscá‑la. Entretanto, um enorme ranco de tília saudável caiu e caçou-o. Desprevenido e inocente. Nenhum dos presentes, nem todo o desespero e amor juntos conseguiram erguer o enorme ranco. O menino esvaiu-se e morreu perante impotência de todos. Morreu no adro da igreja, quando, como qualquer reguila, brincava inocentemente, esperando para entrar na catequese. O estupor revoltado dos presentes, dos familiares e dos que vieram a chorar a tragédia, declarava, com e sem palavras, com e sem lágrimas, que uma igreja não é lugar para se morrer tragicamente.
Uma definição de infância é o acumulado em gérmen de todas as esperanças. Um menino aos dez anos poderá vir a ser um bombeiro, um chopin, um van gog ou um missionário. Por isso dói mais a dor duma morte assim tão fim dum tesouro enorme de esperanças!
Dói-me a morte do menino reguila. E dói-me a dor da família açoreana cuja casa esbarrondou encosta abaixou, e a dor das famílias madeirenses, e das chilenas, e das turcas, e das do Haiti, e das. E hão-de seguir doendo‑me muitas outras dores. Umas que a natureza não perdoa, outras que os homens infligirão a outros homens. Mas doer-me-ão sempre mais as inocentes.
O Evangelho da Missa do domingo terceiro da Quaresma (Lc 13:1-9) informa-nos que uns desconhecidos comunicaram a Jesus a horrível notícia da matança duns homens galileus no recinto sagrado do Templo. O autor da matança foi o óbvio Pilatos. A indignação alastra entre a população, porque o sangue dos homens chacinados se juntara ao dos animais sacrificados a Deus. Mas, porque comunicaram essa informação a Jesus? Sinceramente não sabemos. Mas sabemos a resposta: Jesus responde recordando outro acontecimento trágico, a morte de dezoito pessoas esmagadas pela queda dum torreão da muralha próximo da Piscina de Siloé.
Vejamos: em ambos acontecimentos trágicos Jesus declara que as vítimas não eram mais pecadores que os que ficaram vivos, e acrescenta a mesma advertência: «Se não vos converterdes, morrereis da mesma maneira».
A resposta de Jesus faz-nos pensar. Jesus recusa sem mais que as desgraças sejam castigo de Deus.
(E não é isso que pensa a gente com fé e sem fé? Não é isso que pensaram os de Paredes quando lhes morreu um menino inocente, que andava a jogar à bola: Que Deus o teria castigado, ou por ele a sua família e comunidade?)
Não, Jesus não pensa que Deus, o Bom Deus, seja o Homem do Fraque, ou um justiceiro que anda pelo mundo castigando os seus filhos, semeando doenças e tragédias por aqui e por acolá. Deus não paga o mal com o mal. Deus não serve a frio taças de licor-maldade a nós pecadores!
Não, também não. Jesus não é filósofo. Ele não disserta sobre a origem do sofrimento nem proclama nenhuma teoria do mesmo. Não nos amarfanha nos nossos medos. Não confirma a culpa das vítimas nem acentua a vontade de Deus. Jesus não tem medo de olhar olhos nos olhos os homens que O confrontaram, e de lhes propor a sua leitura destes acontecimentos: através deles Deus chama-os à conversão e à mudança de vida.
Ainda nos lembramos bem do terramoto do Haiti, do esbarrondamento da Madeira e do terramoto do Chile. Como poderemos entender estas tragédias (e a morte do Paulo Sérgio) desde Jesus? Como nos ensina Jesus a lê-las? Assim: A pergunta certa nunca é «—Onde estava Deus naquela altura?», mas onde estamos nós. Aquilo que nos pode pôr a caminho da conversão não é perguntar por que permite Deus esta ou aquela tragédia, mas porque permitimos nós (e ainda mais os decisores) que tantos, e sobretudo os pobres, permaneçam indefesos perante a natureza!
O Pai do Crucificado encontramo-lo na identificação com as vítimas; o protesto contra a sua indiferença ou a negação da sua existência não nos leva ao seu encontro. Mas a luta contra a dor do mundo sim. Só então, de olhos e alma lavados, por entre luzes e sombras, poderemos entrever a Deus sofrendo com as vítimas e alentando os que se cansam na reconstrução dum mundo melhor.
(E na minha fé entrevejo-Lhe, condoídos, os olhos marejados de lágrimas salgadas pela familiaridade com as dores humanas; pelas dores da família do Paulo Sérgio, de Paredes; pelas dores da família do Leandro Pires, de Mirandela. Na minha fé sei que o Pai Bom Deus tem preparada uma bela bola saltitante para jogarem juntos, até ao fim, por entre árvores, e numa jubilosa sinfonia de vitória de quem sabe que já não há derrota a temer. Se choram os pais, já não choram os meninos. Na minha fé entrevejo uma partida de futebol no Céu: ambos são companheiros de recreio. Muda aos cinco, acaba aos dez… Aos dez mil! Oh, eterno recreio!)

Máxima
«Deixai vir a mim os pequeninos.» (Mt 19:14)

Mínima

«Sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança (António Gedeão)

[10 de Março de 2010]

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé


«— Olhe e já agora, veja lá se manda para ontem o seu artigo». Foi assim, de rajada seca e certeira que recebi a sentença para novo artigo, «porque o Jornalinho tem de chegar cedo a casa dos peregrinos!» Seja. Que por mim nenhum peregrino há-de chegar atrasado.


Santos impopulares
Chega Junho, chega o Menino. Digo, a peregrinação ao Menino. É também o mês, dizem, dos santos populares! Curioso nome o de santos populares que, talvez, não inocentemente, estabelece a divisão com os outros, os não-populares. Pelo contrário, não deveriam existir senão santos, santos populares. Mas já que criaram a designação deixem-me que discorde dela. Os Santos Populares são santos visivelmente impopulares! Vejamos.
S. António, dizem-no de Lisboa, os portugueses; e de Pádua, os italianos. Paulo VI foi mais consensual e chamou-lhe António-de-todo-o-mundo. O nome verdadeiro era Fernando de Bulhões, nasceu em Lisboa e morreu em Pádua. Celebra-se a 13 de Junho e foi um pregador. Impressionava pela palavra, fustigava as consciências, era um intelectual de grande craveira. Quando o não quiseram ouvir — isto é, levar à prática a sua pregação — foi pregar a peixes! Esses tinham pelo menos uma virtude: ficavam calados enquanto pregava! Já que não converteu os homens dedicou-se aos bichos!
S. João nasceu em Ain-Karim, Palestina. Mereceu o nome de Baptista por ter baptizado o primo, Jesus, e as enormes multidões que se aproximavam de si. Celebra-se a 24 de Junho. Era seis meses mais velho que Jesus. O seu nascimento foi uma alegre bem-aventurança para a família, mas deve ter deixado muito cedo o lar e para ir viver no deserto. Era austero no viver, e fustigava a sociedade do tempo como se as víboras habitassem as suas casas. Denunciou a hipocrisia do rei do tempo e como prémio Herodes ofereceu a sua cabeça num prato, a uma bailarina cujo bailado o encantara. Arrastou multidões, avivou as brasas da esperança, mas morreu ingloriamente, desamparado e à mercê da iniquidade do poder ao tempo.
S. Pedro celebra-se no dia 29 de Junho e com ele Paulo. Não é certo que tenham morrido no mesmo dia, embora haja quem o diga. Popularmente só se referencia o primeiro e só se festeja o primeiro. Pedro foi o primeiro chefe da Igreja de Jesus. Era um pescador bruto, rude e impulsivo. Era imponderado e belicoso. Estava mais habituado a tratar com peixes que com homens. Falava sem pensar e sonhava demasiado elevado. Quando teve de defender o sonho (porque lhe prendiam o Mestre) foi o único a deitar mão à espada. Mas só cortou uma orelha, que o Mestre logo repôs! Já entronizado chefe da Igreja reserva-se demasiado para dentro da comunidade, ao ponto de Paulo ter de o enfrentar para ganhar espaço e liberdade a fim de se dedicar a anunciar Jesus aos não-judeus. Por fim, deu a vida por Cristo, mas como nem disso se julgava merecedor pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. Parece-se muito a um santo impopular e ao contrário.
São Paulo era rabino judeu, fariseu radical, evangelizador de helenistas, cidadão romano, escritor exímio, missionário incansável, fundador de comunidades, pastor dedicado, fabricante de tendas, Apóstolo de Jesus. Foi tantas coisas que parece não ter tido tempo para sardinhas, pimentos e pão. Também não é por aí que é um santo popular. Era homem de amizades sinceras, profundas e exigentes, daquelas que magoam por que muito amarram ou muito dividem. É convertido, melhor dito: um zeloso homem de fé radical que se converte ao Cristianismo. Mistura explosiva que fazem dele um homem frenético sem tempo a perder. A urgência era a sua marca, tão urgente que parecia impaciente. A sua personalidade forte, a vontade férrea e a defesa da fé verdadeira chegaram a deslaçar amizades. Não parece e não é um santo suave, ameno, popular. Com a sua festa neste ano, iniciamos o jubileu bimilenário do seu nascimento.
António, João, Pedro e Paulo são santos impopulares que o coração do povo ama. São muito impopulares e muito contra-corrente aos apetites do povo. Sim, são do povo. São nossos. Mas são tão fiéis a Jesus que parecem avessos ao que o mundo hoje consome. (E nesses dias quase só consome sardinhas, pão e vinho!) A culpa não é deles, é da radicalidade de vida exigida por Quem os chamou. São impopulares porque se abriram a Jesus. Mas porque se abriram de forma tão bela à fonte da alegria, teríamos de fazer festa quando os festejamos. E fazemos. Mas ainda que os convoquemos para a festa a sua impopularidade é como o vinagre, que apesar de sadio tempero e benéfico purificador, recordámo-lo mais por não caçar moscas.

Máxima

Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. (São Paulo)

Mínima

Paulo, apesar de grande, submeteu-se a Pedro para que essa fosse a regra dos séculos futuros. (Bossuet)


[ 24 de Abril de 2008]

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Notas de Roda-pé


Um sorvo
Era um encontro de jovens, em Agosto, em Segóvia, no convento de S. João da Cruz. Ali os dias são quentíssimos, a paisagem é de restolho ressequido; os corvos grasnam o dia todo por cima da Igreja da Senhora de la Fuencisla. São tantos e tão insistentes que quando se calam, nos sentimos melhor. Em chegada a noite também ficamos melhor, porque a temperatura amaina.
Nesse dia de que quero falar saímos enquanto o sol era meigo. Calcorreamos caminhos de pó por entre restos de searas e de campos enormes. Parámos bem antes do meio-dia, bem antes do sol queimar. Parámos sob as únicas árvores que se viam por ali. Mas antes de merecermos almoçar, reunimo-nos à volta dos textos de S. João da Cruz. E como é diferente lê-los naquela terra quase só terra, quase só céu!
Passámos ali a tarde. Chegámos por fim a casa cansados e suados, com os corpos a suspirar por um banho. Antes da ceia, porém, estava prevista uma hora de oração. No meio da frescura da capela depuseram uma vela no chão e uma tina de água.
Quero lembrar que entre nós havia um catalão, de 17 anos, que ninguém sabia ao que viera. Estava ali tão deslocado como um peixe a apanhar banhos de sol. Não sabia nada daquilo. Não sabia nem rezar nem o que era um convento nem porque tínhamos de nos juntar a horas certas e fazer tudo junto. O nome, julgo, era Rufo. Apesar de destoar Rufo era simpático, embora quase só falasse de bebedeiras de vinho!
Foi também à oração, que começou e foi decorrendo junto ao Poço de Jacob, onde Jesus se encontrou com a Samaritana e lhe pediu de beber; onde Jesus foi remoçando o coração ressequido daquela mulher, acabando ela a pedir-Lhe: — Dá-me, Senhor, dessa água!
Era assim entre cânticos, o Evangelho e os apelos da Santa Madre, que ia decorrendo a oração. Ali, se traçava o itinerário de fé que cada um de nós deve percorrer: Jesus aproxima-se. Depois é reconhecido e acolhido como a única água que pode matar a nossa sede.
A certa altura, foi cada um de nós até junto da água e só tinha que fazer aquilo que quisesse fazer: mirar, tocar, santiguar-se... Havia um cântico: — Dá-me, Senhor, dessa água. O cântico ia correndo e a fila andando, e à medida que cada um se aproximava da água cumpria o ritual. E regressava ao seu lugar.
Rufo foi o último. Todos vimos como se tardou diante da água. E nós cantando. Ficou ali, imóvel, impressionado, resoluto. Depois, ajoelhou e deu um grande sorvo antes de lavar a cara. O cântico parou mas ali deve ter nascido um santo, pois no restante do encontro o rapaz já não foi mais igual!
(Ignoro o que posteriormente se passou com a vida de Rufo; se ficou a gostar mais de vinho ou de água. Mas o que é certo é que se naquela tarde não foi tocado pela sede de Deus, fomo-lo nós perante o seu gesto tão inesperado.)

Desaparecida
Encontrei algures uma notícia e fiquei olhar para ela. Como quem vê um boi a olhar para um palácio. Um boi não sabe distinguir uma janela duma porta, o frontispício do telhado, uma estátua duma floreira. Para o boi aquilo é um palácio ou lá o que é, mas como não se come não é nada. Fiquei mais ou menos assim quando li uma notícia sobre o roubo duma ponte. Uma notícia assim não parece o que é, e deixa-nos incrédulos. Eu fiquei. Olhava para as letras e via-as juntas e ordenadas, formavam um texto que era uma notícia, ou brincadeira. Dei por mim a pensar: é daquelas notícias papa-tolos, bem escritas mas sem sentido! Seja. Mas seja o que seja vou trazê-la para aqui.
Os conteúdos eram estes: Na República Checa, entre os inícios de Dezembro e meados de Janeiro deste ano roubaram uma ponte. Era uma ponte de aço, ali disposta para unir duas cidades. Não era um viaduto qualquer, era mesmo uma ponte e pesava 4 toneladas. (Um carro pesa uma e meia!)
As pontes são para mim das construções mais interessantes. São como as vitórias, juntam o que andava separado, vencem abismos, unem as margens que porque o são andam sempre desavindas, fazem comunhão, fortalecem comunidades. São causa de alegria e de júbilo, facilitam a vida e antecipam os encontros.  É porque provocam união que as pontes me seduzem. Para além de me ser incompreensível como foi possível roubar uma ponte e ficar mais de um mês sem saber que fora roubada, passo a enumerar os meus outros espantos por causa desta notícia: Não foi o David Coperfield porque ele encena ilusões, não muda a substância da realidade!; Como é que duas cidades ficaram tanto tempo sem se aperceberem que estavam separadas?; Era mesmo uma ponte, ponte?, uma ponte que fazia falta? Era mesmo uma ponte que servia para o que serve uma ponte: unir?; O mais certo é ter sorrateiramente acabado na casa dum socateiro qualquer: mas poderá uma ponte de um só homem ser verdadeiramente uma ponte?

Máxima

Eu não vim por mim. (João 7:28)

Mínima

Narrei-me à sombra e não me achei sentido
hoje sei-me o deserto onde Deus teve
outrora a sua capital de olvido.
(Fernando Pessoa)

[4 de Março de 2008]

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Notas de Roda-pé


Morcegos
Há uma piada passada entre dois sacerdotes, com o seguinte diálogo:
— Tenho na minha igreja uns morcegos, e não sei que lhes fazer...
— Fazer o quê?, diz o segundo.
— Não sei. Até a Equipa de Pastoral e a Fabriqueira fizeram de tudo.
— De tudo o quê?, insistia o segundo.
— Já tentámos de tudo para os espantar da igreja.
O outro rindo às gargalhadas, responde-lhe:
— Ó pá, é muito fácil. Dá-lhes o Crisma que tu vais ver!

Jovens
Não sei se a piada se percebe de imediato, mas ela fala simplesmente da ausência dos jovens na Igreja. Já passou à história aquele momento da Igreja em que todo o nascido nela entrava pela do Baptismo e por ela saía no dia do funeral. Já não é assim. Nem todos entram na Igreja, e dos que entram a maioria abandona-a na adolescência. Por aqui vão ficando até ao Crisma. Depois vão-se, desaparecem, esfumam-se. Parece que sentem alergia, e depois do Crisma...
Eu sei que a maioria ainda se diz Católico. E são-no, mas à sua maneira. Pessoalmente não vivo sossegado só porque cá fiquei, nem por verificar que o índice de Católicos é bastante alto. Não vivo sossegado, mas inquieto. Inquietam-me muito as muitas ovelhas vagueando por aí sem pastor, à mercê de lobos e de mercenários.
Voltemos aos jovens. As Jornadas Mundiais da Juventude são um ledo engano. Mas não são de desprezar. O que ali se vê não corresponde à vida das comunidades locais. Eu que participei em três sei o que são. São uma festa que eu vivi, quase delirante, enquanto jovem seminarista. São uma festa que eu vivi, cuidadoso e cauteloso, no início do meu sacerdócio. Mas quer-me parecer, que nem no antes nem no depois têm implicações imediatas. Pelo menos ao nível comunitário, porque tal vivência tem muito de pessoal e íntimo e isso não é tão fácil de medir.
Eis um grave problema pastoral. Os jovens fogem da Igreja para as celebrações do futebol e dos concertos, dos ralis e das discotecas. É ali que os perdemos. E quando, cansados, dali regressam, porque alguns sempre regressam, o trabalho de formação — pelo menos esse — está muito atrasado. (Sempre quero aqui contar que este ano só porque o Paris-Dakar foi anulado, eu tinha mais jovens na missa desse dia: os que em Lisboa iriam assistir à partida da prova quedaram-se por cá!)

Jesus jovem
Devo confessar a verdade: O que eu venho aqui falar com os leitores do Mensageiro é sobre Jesus. Jesus jovem. Onde pára o Jesus jovem? Porque não se vê? Este ver a que me refiro é o ver celebrativo (mais que o histórico). Quero eu dizer que a celebração litúrgica ajuda a enquadrar e formar a memória do discípulo que é cada um de nós. E o certo é que os jovens Católicos não vêem o jovem Jesus! Nem nas celebrações nem na história.
Ninguém vive sem modelos e sem mestres. (Agora também Lhe chamam Guru e Coach!) E como é bom, por exemplo, podermos celebrar o baptismo de alguém recordando o de Jesus, aquele momento inesquecível em que, saindo das águas do Jordão, viu o Espírito Santo e ouviu o Pai testemunhar o seu amor por Ele.
Explico-me melhor: a nossa referência maior é Jesus. Olhá-l’O e imitá-l’O é caminho seguro. Por isso a Igreja usa sabiamente a liturgia para enfocar em Jesus o nosso olhar e amor. É assim que aprendemos d’Ele, com Ele caminhamos e aprendemos a crescer.
Vamos aos factos: na Festa da Anunciação, nove meses antes do Nascimento, recordamos que Ele começou a ser humanado e que a nossa vida tem dignidade desde a sua concepção; na Festa do Natal celebramos o seu nascimento, óptima lição para os pais, familiares e amigos; na Festa da Sagrada Família é o olhar de toda a família, como família, que é convocado; na Festa do Santo Nome de Jesus (festa celebrada oito dias depois do Natal) recordamos a missão salvadora de Jesus e a verdade do nome de cada um de nós; na Festa da Epifania, somos todos, mas todos mesmo, de todas as idades, condições, religiões ou sem ela, somos todos convidados a adorar o Menino; na Festa da Apresentação a família é mais uma vez convocada, e também aqueles que desde a longa noite da história O esperam ver, como Simeão e Ana; no Baptismo, aos trinta anos, sentimo-nos convocados para como Ele assumir o papel de anunciadores da Boa Notícia.
Enfim, não há idade que não possa ir beber a Jesus. A vê-l’O humanado e aprender d’Ele, que é o Homem perfeito. Bem, há uma idade que O não vê: os jovens. Os jovens não O vêem jovem. A sua vida oculta em Nazaré deixou-nos sem relato que iluminasse a vida dos jovens. Depois que chega aos doze anos a vida de Jesus oculta-se e só volta aparecer três anos antes de morrer.
Conheço um convento que tem um Menino Jesus carpinteiro. Um jovem trabalhador. Gosto muito desse Menino Jesus. Os frades puseram-no mesmo à entrada do claustro, onde têm as suas celas. Entra-se e vê-se o jovem carpinteiro a trabalhar a madeira, com um mascoto no ar. Há ali uma mensagem: Vê-l’O dedicado a trabalhar, afadigado e comprometido com as obrigações da família e da sociedade. Jesus foi menino e jovem crente e um aprendiz, foi um mestre da Palavra e também um mestre carpinteiro a quem São José ensinou tudo o que sabia.
É disso que se trata: sabemos que o jovem Jesus foi um jovem fiel no caminho da fé, fiel no trabalho e na sociedade, mas não há um relato que no-lo diga explicitamente. O mais que sabemos, quero dizer, o mais que ouvimos, é o relato da sua peregrinação a Jerusalém, na Páscoa dos seus doze anos. Terminadas as festas os pais regressam e Ele ali fica, sentado entre os sábios a responder e a interrogar. Quando os pais O re-encontram, regressa. Regressa para continuar obediente e a crescer em estatura, sabedoria e graça. É esse o único, discreto e pouco empolgante modelo que temos para oferecer aos jovens: o modelo de adolescente obediente, dedicado, aprendiz em formação, fiel à família (e às coisas do Pai), fiel à fé judaica em que está inserido, crescendo no corpo e no espírito, em sabedoria e em graça, carinhoso para com os familiares, solícito para com o pai na sua morte, esteio para a mãe que fica viúva e certamente alegre com os companheiros, amigo das festarolas... E também preocupado com o seu futuro.
Convenhamos que não é tão pouco assim, mas o silêncio que se faz sobre a juventude de Jesus não os ajuda muito. Porém, naquela ocorrência dos doze anos e no escuro do longo silêncio da vida oculta, vemos, com um pouco de dificuldade, um belo programa de vida para os jovens, um programa que só ali se pode encontrar!

Máxima

Quem não quiser trabalhar, também não coma. (2 Tes 3:10)

Mínima


Também entre as panelas anda o Senhor. (S. Teresa de Jesus)

[21 de Janeiro de 2008]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Notas de Roda-pé


Milagres
Os tempos vão difíceis. Os mares agitam-se. À nossa frente cavam-se vagas sobre vagas. Os abismos parecem comer-nos. O que não se ouve publicamente sussurra-se na intimidade, e traga-se no combate diário da rua. O dinheiro não chega, a contenção não estica, as dívidas crescem. O trabalho é para quem o trabalha, e esses — quase todos — vêm de fora; os empregos são para nós. O colega da secretária ao lado tosse, o outro reclama, o terceiro rezinga, o quarto barafusta por tudo e por nada (mais por nada), o do Sindicato dormita e nada vê (é o que me dizem, que eu não sou do Sindicato). O patrão quer o que é seu, liquidez. E verdadeiramente ainda não chegou o Inverno que sempre traz frios, humidades, chuvas, narizes vermelhos e entupidos, olhos inchados, cabeças a estoirar.
No meio de tudo isto a fé deveria serenar-nos, acalmar-nos as tempestades e os vendavais repentinos das iras e dos sonhos impossíveis. Deveria fortalecer-nos e robustecer-nos. Mas parece que agora já não se transmite nem se ensina paciência, mas exigência crua e o exercício do direito a rabiscar no Livro de Reclamações. Mesmo sem razão. Está bem de ver que os que têm fé seguem o caminho mais difícil, mais demarcado, mais exigente. E vemos como os outros. E sofremos como os outros. Na verdade, não se pode ter fé e ser-se depois bandoleiro e rezingão impenitente. A vida vai difícil para todos, até para quem não tem fé. Por isso, vamos pelo caminho da paciência, da confiança. E da esperança: procuremos ir sempre de bem para melhor.
Frequentemente os tempos difíceis empurram-nos para extremos, por um de dois caminhos: ou pelo da impaciência infértil, ou pelo da depressão inconsequente. E quando os sonhos de chumbo nos caem na cabeça, que fazer? E quando batemos contra o muro da realidade, que reclamar? Às vezes, quase sempre, reclama-se por milagre. Até os mais impenitentes dos não-crentes acabam reclamando-o . Estão no seu direito. Mas é nestas alturas que devemos fazer falar os sábios. O primeiro chama-se Gath Brooks e aparece cheio de razão nas últimas linhas deste texto. O segundo chama-se Einstein, e pelos vistos sabia mais coisas para além de ciência. Dizia: «Há duas maneiras de viver a vida; uma é como se nada fosse milagre, outra é como se tudo fosse milagre. Eu acredito no último.». Não podemos parar de acreditar. Porém, eu prefiro mais o que ensinava São João da Cruz: «É preferível sofrer por Cristo, que fazer milagres». Fazer, ou pedir. Ou já agora, declarar que tudo é milagre. Amar o que Ele amou; amar como Ele amou. Este continua a ser o nosso programa de vida. E não é por só olharmos para o céu que se vêm os milagres na terra. Ou, melhor dito: Não é olhando só para Ele que vemos os muitos milagres por fazer na vida de tantos pequeninos!

Sete coisas

O fenómeno da moda são os blogues. Como não sou sociólogo não poderei dizer se vamos atrasados, adiantados ou como o costume: assim assim. Esta noite o H. mandou-me um mail informando-me do seu novo blog. (Entretanto, tem outro de que eu me percebi sem dele me ter falado...) O título é uma coisa parecida com Eis-me aqui. No H. não me estranhou a referência. Fui ver. Ainda não tinha começado. Havia apenas uma breve declaração de interesses. Descobri então o outro e dei uma olhada. Percebi ali que entre os garotos blogueiros da Comunidade há um jogo; tipo — como eles dizem — tipo: 7 coisas em que sou bom, 7 coisas em que sou mau..., e por aí adiante.
O H. declara que a sexta coisa em que é bom é: «Rezar». Assim só, simplesmente. Rezar. Boa, H., pensei! Boa. É boa mesmo. Não pensei encontrar tal surpresa, mas encontrei. E na pessoa do H., como já disse, nem me estranhou.
Como estamos nos dias de Santa Teresa de Jesus, nossa mãe, lembrei-me do que ela ensina sobre a oração (registo só isto o ensinamento mais curto, para não complicar): «A oração é um diálogo de amigos, estando-se muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama». É isso mesmo, H., vai por esses blogues todos — e são tantos como as areias do mar! — e diz que gostas de rezar, que és mesmo bom a rezar. Oxalá todos sejam teus amigos, que quem não sabe de amigos e de amizades não sabe de oração. Pelo menos ao jeito de Teresa, claro. Vai, que haja muitos amigos na tua vida. Junta-te a eles, para que eles façam de ti um mestre da arte de rezar. Força, junta amigos que saibam rezar. E se não souberem, pelo menos que saibam de amizade. Depois será fácil rezar. Se há tantos que se juntam para dizer e fazer o mal, por que não haveríamos nós de querer o bem e lutar por ele juntamente com os amigos que ajuntamos? É por isso, H., que eu te digo: Vá, força, faz muitos amigos, escreve em todos os blogues e não tenhas vergonha de dizer — nem que seja em sexto lugar — que sabes rezar. Eu julgo que sim, que é fácil, pois conheço muitos dos teus amigos e o apreço que têm por ti. Ah! Só mais uma coisa e com ela termino. Depois da amizade que faz bem à oração (e ao coração) a nossa Santa Madre pedia só uma outra coisa: «Só vos peço uma coisa: que O olheis!». E é claro. E é justo. Como poderíamos gostar de rezar e de ter amigos se não incluíssemos o melhor Amigo no nosso círculo de amigos? Se não gostássemos d’Ele. Ou se gostássemos sem gostar de O olhar? Sim, H., sê amigo forte de Jesus! E olha-O!
(Quando acabei de escrever este breve apontamento já era outro dia. Dei outra olhada ao outro blog do H. e pude verificar que escrevera lá o Pater Noster.)

Máxima

Agradeço ao bom Deus pelas bênçãos que tem concedido à minha vida, algumas das maiores dádivas de Deus são orações não atendidas. (Gath Brooks, Cantor norte-americano de música country)

Mínima


Tudo o que é verdadeiro, venha donde vier, procede do Espírito Santo. (S. Tomás de Aquino)

[19 de Novembro de 2007]