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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Notas de Roda-pé



Elo
Foi Ele que propôs a Aliança. É Ele que sustenta a Aliança. É Ele quem renova a Aliança. É Ele quem restaura a Aliança. Ele é o elo mais forte. Ele é concerteza o elo mais forte, mas necessita de nós... O elo mais forte não derrota ninguém, espera por nós, necessita de nós, joga connosco. O elo mais forte precisa do elo mais fraco. Não joga ao «bota fora». Fora ou dentro joga sempre o jogo da vida connosco. Vida em aliança. Ele é o elo mais forte, mas não fica mais fraco se lhe ganharmos o jogo. Aliás, o elo mais forte joga para perder. E ganha se ganharmos. E nós ganhamos se Ele perder. Foi Ele quem o disse. Na cruz Ele perdeu para ganhar e ganhou-nos de vez, mesmo que antes tenhamos perdido ao romper a aliança. O elo mais forte ganhou perdendo, e na sua derrota ganhamos nós, o elo mais fraco.
Ó feliz culpa!

Oxalá
Alguém chamou «mística do oxalá» àquela tendência demasiadamente humana de frequentemente enchermos a boca e o coração com adiamentos: «Oxalá eu fosse rico!»; «Oxalá a minha mulher tivesse carácter»; «Oxalá a saúde dos meus filhos fosse melhor»; Oxalá o meu patrão fosse honesto»; «Oxalá o meu sócio fosse pontual»; «Oxalá eu tivesse mais tempo»; «Rezarei quando tiver mais tempo, oxalá..»; «Quando me reformar começo a ler a Bíblia».
Pois sim, na era da vertigem vivemos para o «oxalá» quando se esperaria a capacidade de viver para o «hoje», o «já». Lamentamos, arrastamo-nos.
A vertigem é provavelmente virtual, muito pouco real. Ou talvez nos tenhamos convertido em virtuais e já não nos lembremos que nada é para amanhã. É hoje, aqui e agora, nas circunstâncias concretas da vida que o encontro se dá. Sim, o encontro. Com que volúpia vivemos o adiamento do encontro! Julgamos necessário criar condições ideais de aconchego, e ele dá-se na valeta dos caminhos. Julgamos necessário convocar toda a imprensa, e ele dá-se no anonimato. Julgamos necessário esperar pelo descanso merecido, e ele acontece quando as mãos estão atadas às redes (e também no fim de uma campanha fracassada...). Julgamos necessário cursar todos os conceitos, e ele dá-se no pré-conceito! Julgamos, estruturamos, adiamos. E afinal é onde me encontro, e como me encontro, que Deus se quer encontrar comigo.

Bíblia
Ana Maria Alves nasceu no dia 4 de Julho de 1902, em Pico de Regalados, Vila Verde. Nasceu na Casa onde mora. Tem cinco filhos, dezasseis netos e vinte e nove bisnetos. Não fora a descendência e a rotina da sua vida pouco teria mudado: trabalho e fé em Deus.
Agora tem mais tempo, e já que o tem emprega-o no que sempre gostou: ler! Acabou de ler as memórias da Irmã Lúcia (sem recurso a lentes!) e não passa dia que não leia a Bíblia! Custa-lhe, isso sim, ler letra miudinha como a das Cartas de S. Paulo, mas não lhe custa nada ler o Evangelho de S. Marcos.
Não creio que exista receita para a longevidade. Mas viver cem anos empapado em Palavra de Deus deve ser caso raro. Ao nível da fé costumamos chamar pão à Palavra. Não me admiraria que tal ementa favorecesse o optimismo e o gosto de viver de Dª Ana Maria Alves. Quanto caberia aprender dela!

Todo
Há homens que nos marcam. Às vezes nem sabemos por quê. Mas o certo é que nos marcam. O dr. Raimundo C. Meireles marcou-me. Não sei porquê mas marcou-me. Penso que foi a sua simplicidade e o facto de ser velho e lúcido. Após 42 anos de trabalho académico jubilou-se em 1999; brevemente celebrará o seu jubileu sacerdotal.
Recentemente um jornal entrevistou-o e perguntou-lhe que diria às gerações mais novas que as iluminasse na complexidade da vida actual. A resposta não podia ser mais inesperadamente iluminadora: «contradigo-te para que possuas a totalidade» (S. Agostinho! Nem mais. O todo não a parte é o que nos sacia. Não apenas o acelarador mas também o travão. Não apenas a tradição mas também o progresso. Não apenas a inovação mas também a conservação. Não apenas a velocidade mas também a contemplação. Oferecer a outra parte a quem só se abre à contrária. Oferecer a totalidade a quem se confina a uma fracção. Ó que programa mais exigente! Mais exigente para o mestre que para o discípulo. Não basta contradizer, é necessário oferecer a parte em falta oferecendo a visão global que promove o progresso de que necessitamos.

Filhos
Li uma notícia curiosa num daqueles rodapés que os telejornais inventaram como se fossem talhos a debitar os produtos à disposição do cliente. O recurso é curioso, passa informação menor sem implicações de maior. Num destes dias li que o governo passara a promover o aumento do número de filhos por casal. Não garanto que o texto fosse este, mas a mensagem era. Fiquei perplexo e duvidoso, mas a mensagem passou de novo. Não havia dúvida. Não garanto a fundamentação que possa ter, não li nem ouvi mais nada sobre o assunto.
Como não vão longe os tempos em que o ideal era ter um ou dois filhos! Só um ou dois! Quem não se lembra do esforço que se fez em promover o aumento da qualidade de vida e educação dos filhos (e para tal se propunha a diminuição dos mesmos...)? Então, como é? Já é necessário inverter o discurso? Bastará apenas apostar num filho? Porquê agora a necessidade de aumentar a natalidade? Porque é que em tão pouco tempo variam tanto as opiniões e a legislação e em assuntos tão importantes?
Mais uma vez o discurso da Igreja Católica se vê confirmado. O que antes era contestado e ridicularizado por arcaico («não havia televisão», lembram-se?) agora é actual e imperioso. Não se sugere, apoia-se. Não se aconselha-se, sustenta-se com subsídios. Em poucos dias mais um discurso nosso sai reconhecido..., embora apenas numa nota de rodapé!


1’ de sabedoria
Estavam todos os discípulos seriamente envolvidos numa discussão a respeito da dor e do sofrimento humano.
Segundo uns, a causa da dor é o egoísmo; segundo outros é a ilusão; outros ainda afirmavam que se devia à incapacidade de distinguir o real do irreal. Por fim consultaram o Mestre, que disse:
-- Todo o sofrimento que existe vem da incapacidade que as pessoas têm de ficar paradas e a sós consigo mesmas.

 [16 de Julho de 2002]

domingo, 5 de maio de 2013

Notas de Roda-pé


Figo
Os coreanos eram nossos amigos até nos ganharem. Simpatizavam connosco e idolatravam o Figo. Como não sabiam dizer f-i-g-o diziam algo parecido, ou seja, o possível já que não têm o fonema <>. Não sabiam dizer o nome do ídolo, mas gostavam do Figo à mesma. Quando os ouvi tentar dizer o nome de Figo deu-me quase vontade de rir.  Soava estranho.
Como deve soar estranho aos ouvidos dos coreanos o nome António! Como é que dirão António? No passado dia de S. António dei comigo a pensar isso mesmo. Como é que ao rezarem os coreanos dizem António? Quero dizer, como é que ao rezarem a Deus através da intercessão do Santo português lhe vocalizam o nome? (Se é que vocalizar bem interesse para o sucesso da prece!...)
E como soaria aos ouvidos dos coreanos o nome dos seus santos mártires ditos por portugueses? Como diríamos a um coreano os nomes de S. Agostinho Yi Kwang-Hon, S. Madalena Kim Obim, S. Lucia Park Hui-sun, S. Damião Nam, ou S. Damião Nam Myong-hiog? Entender-nos-ia?
E a verdade é que ao longo do ano nós portugueses invocamos os santos mártires coreanos e os católicos coreanos invocam o nosso Santo. Há nisto uma comunhão e um cruzamento de fé e culturas que em tempos só a religião possibilitou e potenciou. E está bem de ver que o fez antes do futebol. Hoje, porém, o veículo desta comunhão cultural já não é mais (pelo menos em grande escala) a religião. As fintas do Figo substituiram o arrojo, audácia e valentia dos missionários. Mudaram os tempos, mudaram os heróis. Só não mudou a necessidade que temos deles e a representatividade que eles significam. Mesmo que não consigamos dizer bem os seus nomes.

Dúvidas
Às terças-feiras costumo ouvir o professor Máximo Ferreira. É um astrónomo. Da última vez perguntaram-lhe em directo como nasceu o universo. Terá sido por intervenção divina ou foi o Big Bang (a última e mais credível explicação científica: a matéria primordial terá explodido num enorme Big Bang que deu origem ao que conhecemos e ao muito que desconhecemos. A explosão foi tal que o universo após milhões de milhões de anos ainda continua em extensão, em crescimento!)? O professor Máximo Ferreira professa a teoria do Big Bang, porque é científica. E porque não precisa nada de Deus. Não me preocupa que Máximo Ferreira não precise de Deus. É livre de explicar o que quiser como quiser. Aliás, apressou-se a dizer que é melhor nem nos preocuparmos com Deus. (Eu sei que o que quer dizer é que Deus não conta nada para explicar a origem do universo...)
Antes de continuarmos é necessário dizer que a ciência não tem todas as certezas e tem muitas dúvidas. (E o professor sabe-o melhor que eu.) E agora cabe perguntar: Tudo bem, professor; o mundo começou com o Big Bang, e quem provocou o Big Bang? E porque é que a teoria científica há-de necessariamente excluir a existência de Deus e a sua responsabilidade (e também desejo, vontade e amor) na origem do universo através do Big Bang? Se foi mesmo pelo Big Bang que tudo começou a começar a quem se deve a criação das condições para tudo pudesse começar a acontecer?
O professor Máximo Ferreira vai continuar com dúvidas.

Mortos
Na Nova Aldeia da Luz os mortos vão à frente. Melhor, chegam à frente! A aldeia da Luz vai ser afogada pela albufeira do Alqueva e como resultado toda a aldeia se deslocará para a Nova Luz. Depois de tudo negociado lá chegará o dia da mudança. Inevitavelmente.
Parece que o que mais custa a mudar são os mortos (aqueles que já não têm nem vontade nem querer...)! Ninguém gosta de perturbar o sono dos mortos, esta é uma crença poderosa. Mas o certo é que as negociações envolveram a mudança do cemitério pelo que também os mortos se mudarão. E serão os primeiros a habitar a nova aldeia! Interessante: mesmo depois de morrermos continuamos a viver e a habitar. Habitamos os sonhos e os corações dos nossos amigos e familiares; habitamos a última herança que nos é permitida: o cemitério. Talvez a morte não seja um fim tão fim assim!
Na Nova Luz os mortos irão à frente como à frente da colheita vai a semente lançada à terra. Serão os mortos os primeiros a habitá-la, serão eles quem primeiro rasgará os caminhos. Só depois chegarão os vivos. É como se não fosse possível habitar algo que ainda o não tivesse sido. E talvez não pudesse ser de outra maneira. Afinal de contas são os mortos quem verdadeiramente vive. E se a morte é a porta de entrada para a vida, então quem ainda não morreu também não vive. E como é que quem não vive poderia ser luz e guia para quem não vive (mesmo que esteja vivo)?

Clix
A Internet é talvez o mais poderoso meio de comunicação. É por isso mesmo um desafio, não uma ameaça. Coloca qualquer pessoa em qualquer lugar que se encontre como companheiro de alguém no lugar mais remoto que imaginar se possa. Claro que também liga pessoas da mesma rua, ou vizinhos do mesmo prédio. É um meio tão interactivo e tão participativo, tão directo e imediato que a Igreja não quer deixar de dizer sobre os telhados (na Internet) aquilo que pensa e vive por baixo deles. Foi nesse sentido que para a celebração do dia mundial das Comunicações Sociais o Papa desafiou os cristãos a estar criativamente presentes na Internet para que ali manifestem os seus pontos de vista, assumam as suas responsabilidades e realizem a obra da Igreja.
A Rede é uma porta para a evangelização! O maior fórum para a proclamação do Evangelho! E o Papa sabe disso.
Para celebrar esse dia as paróquias de Travassô e Pessegueiro do Vouga (Diocese de Aveiro) celebraram missas pela Net! A novidade chamou a atenção e surpreendeu alguns desatentos. Apenas os desatentos.
Dias depois dois jovens casaram-se. Ele era de Vizela, ela da região de Aveiro (mais uma vez!). Conheceram-se pela Net. Namoraram-se ali. Decidiram casar. No dia do casamento eram noivos tão felizes como os noivos normais (não me admiraria que num futuro próximo os normais fossem os que se conhecessem na Rede!). E o portal Clix esteve presente na celebração do casamento, afinal de contas apadrinhara o namoro! Ainda que involuntariamente.
Ora aí está. Não há espaço que escape ao âmbito de acção da Igreja. Porque haveria a Net de ficar de fora? Que ali nasça amor sincero, que ali os jovens possam começar a construir a sua casa sobre a rocha é uma grande e feliz esperança!. É verdade que talvez seja um minúsculo caso e nada representativo. É possível. Talvez seja semente rara, perdida e calcada pelos caminhos da Rede. Talvez. Mas é desejável e necessário que também ali se possam construir histórias de amor com futuro, com frutos.

1’ de sabedoria
Todo o mundo ficou admirado quando ouviram o mestre dizer a seguinte metáfora que é tão moderna como actual: «A vida é como um automóvel».
Todos aguardaram em silêncio esperando uma explicação.
-- Sim, disse por fim o mestre. Sim, um automóvel pode ser usado para levar-nos longe e a grandes alturas.
Novo silêncio...
-- Mas há pessoas que preferem atirar-se para a frente dele deixando-o passar por cima delas. E depois dizem (e há quem diga com elas...) que a culpa é do automóvel.

[19 de Junho de 2002]

sábado, 4 de maio de 2013

Notas de Roda-pé



Auschwitz
Auschwitz é o outro nome do mal. Ou melhor é o mesmo nome. São a mesma coisa. De tal modo o nome remete para o campo onde o mal cultiva o horror que se pode falar de um tempo antes de Auschwitz e um tempo depois de Auschwitz. Foi o maior dos campos de concentração da Alemanha Nazi (na verdade eram três campos de concentração!). Em cinco anos, de 1940 a 1945, ali morreram mais de 2,5 milhões de pessoas! Antes de morrer, porém, eram obrigados a trabalhar intensamente como mão de obra escrava até ao último esgotamento («O trabalho liberta», afirmavam os Nazis!). E os que dele não morriam foram exterminados nos duches em que eram gaseados e depois eliminados nos fornos crematórios. Assim expiaram as culpas de serem diferentes, ou adversários políticos ou simplesmente judeus ou cristãos.
No complexo de extermínio de Auschwitz a dignidade humana morreu às mãos do mal. O desrespeito pela pessoa humana chegou a tal ponto que se negou que valesse algo. Em memória do Holocausto o estado polaco criou em Auschwitz um museu. Quem o visitou diz que, à saída, o silêncio diz: «Nunca mais!».
Há alguns anos o Vaticano sugeriu que naquele lugar em que o mal imperou se fizesse memória dos que ali pereceram. O silêncio e a oração seriam a forma da memória. Uma comunidade de freiras católicas, carmelitas, chegou mesmo a viver e a rezar ali. Mas os judeus de todo o mundo e outras cabeças bem-pensantes levantaram a voz e forçaram a saída das freiras que levaram com elas a cruz de Jesus que se via num pátio. Contudo, diga-se, os judeus não tiveram o monopólio das mortes em Auschwitz...
Um destes dias a imprensa noticiou, num minúsculo quadradinho, que em Auschwitz se construiu um centro comercial que inclui uma discoteca. Contradições, ou talvez não..., pensei. Como não se ergueram vozes (e ainda bem, porque se se erguessem teriam dito que eram católicos saudosistas com sede de retaliação...) quero entender que a morte ignominiosa de tantas pessoas é hoje melhor honrada com o riso, o divertimento e o consumo que com o silêncio e a oração! O futuro julgará a insensatez!

Café quente
Sábado à noite. Um sábado como outro qualquer. No tabuleiro da ponte 25 de Abril ficou parado um ligeiro de mercadorias. Pouco depois informam o 112 que o condutor se apeara e ameaçava suicidar-se. A noite está fria e ele está ali há muito tempo, desiludido de si e dos outros... Cortado o trânsito sobre a ponte acorrem a PSP, GNR, Polícia Marítima e Bombeiros. A primeira leitura confirma que a tragédia está iminente. Arrojado um jovem bombeiro adianta-se sobre o abismo e pela noite dentro ao encontro do suicida. E oferece um pouco de conversa e um café quente. O suicida aceita, e depois de dois dedos de conversa e o café quente desiste dos seus nefastos intentos.
Sobre o gelado abismo encontraram-se duas pessoas, um desesperado e um salvador. Era noite. Um ofereceu uma ponte de regresso. Era uma ponte cheia de calor. O outro precisava tão só que lhe aquecessem as desilusões da vida. E regressou pela ponte que lhe estenderam. Enfim, tanto frio e tantas vidas que se perdem porque não há calor bastante que dilate as pontes e possibilite encontros salvadores como este!

Hino
Passados cinco séculos da chegada dos primeiros missionários portugueses Timor tornou-se independente. É o oitavo estado de língua portuguesa e o primeiro estado independente a nascer neste século.
Não assisti a toda a cerimónia da independência e transferência de poderes, mas o que vi comoveu-me. Tinha curiosidade em confirmar se o presidente Xanana Gusmão cantaria ou não o hino do novo país, o país de que é presidente. Porém, não me foi possível tal confirmação. Compreendo que Xanana se sinta desajustado na tarefa e no lugar para que foi eleito. Compreendo e aceito que seja mais fácil pintar para a história o quadro de herói que realmente é. Já não compreendo bem que um presidente não cante o hino do seu país. Terá cantado, não terá cantado? Não sei. Consta que o hino de Timor Lorosae contém referências ao colonialismo de Portugal. Talvez isso desagrade a Xanana; e talvez desagrade pelo muito que Timor ainda precisa de Portugal.
À hora em que escrevo a selecção ainda não jogou com os EUA. Ouço, entretanto, dizer que Timor está a fazer tudo para arranjar um satélite que faça chegar ali as emoções do jogo. É preocupação pelos portugueses que lá vivem, mas não será só por eles.
Quando se falava da lesão de Figo este terá dito que não queria que ela se tornasse questão de estado. Claro que queria falar de Portugal. Mas agora já não tenho bem a certeza. Ou melhor, penso que também Timor puxa por Figo e pelos outros dez da selecção lusa. É claro que Figo também não quererá desiludir os adeptos timorenses. Quer dizer, o que a História separa une a emoção do futebol!

Crianças
No passado dia 1, nos diferentes jornais da noite vou vendo formas diversas de festejar o Dia Mundial da Criança. Nunca são demasiados os festejos, diga-se. Salto de uns para outros, dum canal para o outro e outro. E além dos festejos também deparo com denúncias, entre elas a de que há muito trabalho infantil em Portugal. E há.
A seguir ao noticiário seguem as novelas. Como não as sigo não arrisco um número mas sei que são muitas as crianças nelas intervenientes. Durante um telejornal uma criança-a-fazer-que-era-jornalista entrevista uma criança-actriz. Esta revela com algum embaraço que os últimos trabalhos em televisão a obrigaram a chumbar o ano. Pois, penso eu, e nem admira...
No écran segue a novela e nela vão desfiando-se presenças várias de diferentes crianças. E eu que não sou mais inteligente que ninguém pergunto-me: E quem se lembra (e protege) das crianças intervenientes em actividades como filmes, telenovelas, desporto, moda? Não é de certeza errado afirmar que nestas actividades, pretensamente lúdicas, as crianças são exploradas como, de resto, o são noutras actividades cujas denúncias são frequentes. Mas porque o serão numas situações e noutras não?

1’ de sabedoria
-- Qual é a acção mais nobre que uma pessoa pode realizar?
O Mestre respondeu: -- Parar e dedicar tempo à meditação.
O Mestre, porém, raramente era visto sentado a meditar. Vivia continuamente envolvido pelos trabalhos da casa e do campo. Atendia as pessoas, escrevia livros e, acima de tudo, ainda arranjava tempo para fazer a contabilidade do mosteiro. Ao testemunhar a azáfama alguém lhe perguntou:
--Parar e meditar?, mas o senhor passa o tempo a trabalhar!
-- Ora, respondeu o mestre, quem disse que alguém, enquanto trabalha, precisa parar de meditar?

 [3 de Junho de 2002]

terça-feira, 30 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Letreiro
Na estrada de Manhuncelos para o Castelinho há uma tabuleta. É uma tábua envelhecida pelos invernos a que ficou cravada num pinheiro. A tábua está escrita a letras azuis. E diz assim: «Deite o lixo no que é seu ou comam-no». Claro que a frase carece de concordância mas cumpre o que se lhe pede: faz passar a mensagem.
Como o local é semi-desértico proporciona-se para os atentados ecológicos (chamemos-lhe assim...). Passa-se por ali, e como ninguém vê, deixa-se ficar o que quer que seja.
Tal como estamos não estamos bem. O lixo que não serve ou que não se quer reciclar despeja-se num quintal ou num terreno bem longe de nós. Quem leva com ele em cima é que não fica bem, daí o tom ameaçador da mensagem: se não sabe destruir o seu lixo coma-o!
Infelizmente não posso estar mais de acordo. Reconheço que nem todos se podem responsabilizar pelo ‘desaparecimento’ do seu lixo, mas todos podemos ser mais responsáveis com o lixo. E como ninguém se atreve a comer o seu lixo também ninguém devia atrever-se a dá-lo a comer a outros, que amor com amor se paga!

Lixo
De algo parecido me lembrei eu quando vi as notícias da poluição ali para os lados de Várzea de Ovelha. A notícia veio publicada duas vezes. Mesmo assim (e apesar de terem sido publicadas com pouco tempo de intervalo) as denúncias parecem-me poucas.
Eu já lá tinha passado e sou testemunha. Se não de tudo do muito que as palavras e as fotos documentam.
Não sou publicitário. Mas passando a ironia sugeriria das notícias de Várzea algo parecido à receita da tabuleta de Manhuncelos. Seria assim: «Você deseja, você merece. E nós pensamos em si. Venha passear pelas nossas encostas, apreciar as nossas paisagens! Não pense, disfrute!
«Oferecemos destroços de carros e pneus, frigoríficos, televisões, latas de tinta e roupa velha, tralha variada e restos de materiais de construção. E brindes-surpresa.
«Por vezes o cenário é polvilhado de vísceras de animais (e se for o seu dia de sorte até poderá assistir ao espectáculo de vários e diferentes anatomias de animais mortos!).
«Como bónus extra programa e sem onerar o preço poderá ainda contemplar em acção a fauna local: insectos, ratos, ratazanas, cobras...
«Ao terminar o espectáculo oferecemos um copo de água recolhida no local.»
Eu sei que é exagero. E daí talvez até nem seja. A verdade é que se nós somos os agredidos pela paisagem violada alguém há que, mais abaixo de nós, bebe da água que conspurcamos.

Traição
Falemos de escândalo. Talvez até exista uma razão obscura, ou talvez até seja simples coincidência. Mas quase não há dia em que não se relatem escândalos com padres. O modelo do escândalo português passa sobretudo pela incompatibilidade de diálogo entre o sacerdote e os fiéis; o escândalo anglosaxónico é mais violento e repugnante, a pedofilia.
Àcerca do segundo existem algumas reflexões que se podem construir. A primeira é sobre a eleição. Jesus quando escolheu os seus primeiros apóstolos rezou muito e foi em diálogo com o Pai que os elegeu. Depois ensinou-os, falou-lhes intimamente, deu-lhes poder, enviou-os a anunciar e curar, lavou-lhes os pés, matou-lhes a fome. E no fim de tudo foi traído por um dos seus. Traído com um beijo...
Contemplando a morte de Jesus vemos que, nada menos nada mais, foi um eleito quem O atraiçoou! Contudo, a Igreja não se centrou na traição, mas na força transformante da vida da Comunidade Apostólica. Infelizmente o escândalo não é algo novo para a Igreja!

Lupa
Segunda reflexão. A Igreja Católica dos EUA reconhece a gravíssima gravidade das acusações de abuso sexual de menores. Mas também reconhece (como o afirmam testemunhos exteriores à Igreja) que as acusações são exageradas e exageradamente empoladas o que configura a ideia de perseguição. E nem sequer se chama a atenção para a imensa maioria de sacerdotes que permanecem fiéis e serenos, de conduta exemplar ao serviço dos fiéis.
É verdade que existe pedofilia na Igreja dos EUA. São cerca de 30 casos nos últimos vinte anos. Não escusa, mas são uma pequena porção comparados com os mais de cem mil (103.660) acontecidos na sociedade estadounidense só em 1998! Não é a Igreja que está doente, é toda a sociedade norteamericana! O crime é sem desculpa, mas de que lupa se servem os meios de comunicação para transtrocar os dados, para hiperinflacionar uns valores e encobrir outros? Melhor seria não ter de se falar do tema — por não existir assunto, claro. —, mas já que se fala deve dizer-se que 30 casos de pedofilia ou cem mil são sempre crime independentemente de quem os cometa.

Validade
Terceira reflexão. Quer seja o Papa João Paulo II a celebrar a eucaristia quer seja um sacerdote condenado à morte a eucaristia é sempre eucaristia porque o actor principal é Cristo que nos dá o seu Corpo e Sangue. Na verdade, nunca a eucaristia depende da santidade dos sacerdotes. Eles, como qualquer humano caiem em pecado. Isso o sabia já quem os escolheu... e, contudo, escolheu-os.
Porém, tal não invalida nem desculpa a má conduta e escândalo de alguns sacerdotes.  Nos tempos difíceis que se avizinham mais que nunca se exige a opção pela santidade. Sim, esta deveria ser a opção radical e permanente dos cristãos, ordenados ou não.

Napoleão
Conta-se que quando Napoleão e os seus exércitos engoliam a Europa o Imperador declarou a um cardeal: «-- Vou destruir a vossa Igreja!». O cardeal respondeu: «-- Não, não poderá!». Napoleão repetiu: «--Vou destruir a vossa Igreja!». Confiante o cardeal respondeu: «-- Não conseguirá. Nem sequer, alguma vez, nós o conseguimos fazer»!
Uma coisa é verdade: é cada vez mais difícil ser-se padre. Mas Jesus continua connosco e connosco quer reescrever os novos Actos dos Apóstolos do século XXI! Que resposta alcançará?

1’ de sabedoria
-- De que serve ter um mestre?, perguntou um visitante a um dos discípulos.
-- Para ferver a água você precisa de um caldeirão que seja intermediário entre a água e o fogo..., respondeu o discípulo.

[23 de Abril de 2002]

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Letreiro
Na estrada de Manhuncelos para o Castelinho há uma tabuleta. É uma tábua envelhecida pelos invernos a que ficou cravada num pinheiro. A tábua está escrita a letras azuis. E diz assim: «Deite o lixo no que é seu ou comam-no». Claro que a frase carece de concordância mas cumpre o que se lhe pede: faz passar a mensagem.
Como o local é semi-desértico proporciona-se para os atentados ecológicos (chamemos-lhe assim...). Passa-se por ali, e como ninguém vê, deixa-se ficar o que quer que seja.
Tal como estamos não estamos bem. O lixo que não serve ou que não se quer reciclar despeja-se num quintal ou num terreno bem longe de nós. Quem leva com ele em cima é que não fica bem, daí o tom ameaçador da mensagem: se não sabe destruir o seu lixo coma-o!
Infelizmente não posso estar mais de acordo. Reconheço que nem todos se podem responsabilizar pelo ‘desaparecimento’ do seu lixo, mas todos podemos ser mais responsáveis com o lixo. E como ninguém se atreve a comer o seu lixo também ninguém devia atrever-se a dá-lo a comer a outros, que amor com amor se paga!

Lixo
De algo parecido me lembrei eu quando vi as notícias da poluição ali para os lados de Várzea de Ovelha. A notícia veio publicada duas vezes. Mesmo assim (e apesar de terem sido publicadas com pouco tempo de intervalo) as denúncias parecem-me poucas.
Eu já lá tinha passado e sou testemunha. Se não de tudo do muito que as palavras e as fotos documentam.
Não sou publicitário. Mas passando a ironia sugeriria das notícias de Várzea algo parecido à receita da tabuleta de Manhuncelos. Seria assim: «Você deseja, você merece. E nós pensamos em si. Venha passear pelas nossas encostas, apreciar as nossas paisagens! Não pense, disfrute!
«Oferecemos destroços de carros e pneus, frigoríficos, televisões, latas de tinta e roupa velha, tralha variada e restos de materiais de construção. E brindes-surpresa.
«Por vezes o cenário é polvilhado de vísceras de animais (e se for o seu dia de sorte até poderá assistir ao espectáculo de vários e diferentes anatomias de animais mortos!).
«Como bónus extra programa e sem onerar o preço poderá ainda contemplar em acção a fauna local: insectos, ratos, ratazanas, cobras...
«Ao terminar o espectáculo oferecemos um copo de água recolhida no local.»
Eu sei que é exagero. E daí talvez até nem seja. A verdade é que se nós somos os agredidos pela paisagem violada alguém há que, mais abaixo de nós, bebe da água que conspurcamos.

Traição
Falemos de escândalo. Talvez até exista uma razão obscura, ou talvez até seja simples coincidência. Mas quase não há dia em que não se relatem escândalos com padres. O modelo do escândalo português passa sobretudo pela incompatibilidade de diálogo entre o sacerdote e os fiéis; o escândalo anglosaxónico é mais violento e repugnante, a pedofilia.
Àcerca do segundo existem algumas reflexões que se podem construir. A primeira é sobre a eleição. Jesus quando escolheu os seus primeiros apóstolos rezou muito e foi em diálogo com o Pai que os elegeu. Depois ensinou-os, falou-lhes intimamente, deu-lhes poder, enviou-os a anunciar e curar, lavou-lhes os pés, matou-lhes a fome. E no fim de tudo foi traído por um dos seus. Traído com um beijo...
Contemplando a morte de Jesus vemos que, nada menos nada mais, foi um eleito quem O atraiçoou! Contudo, a Igreja não se centrou na traição, mas na força transformante da vida da Comunidade Apostólica. Infelizmente o escândalo não é algo novo para a Igreja!

Lupa
Segunda reflexão. A Igreja Católica dos EUA reconhece a gravíssima gravidade das acusações de abuso sexual de menores. Mas também reconhece (como o afirmam testemunhos exteriores à Igreja) que as acusações são exageradas e exageradamente empoladas o que configura a ideia de perseguição. E nem sequer se chama a atenção para a imensa maioria de sacerdotes que permanecem fiéis e serenos, de conduta exemplar ao serviço dos fiéis.
É verdade que existe pedofilia na Igreja dos EUA. São cerca de 30 casos nos últimos vinte anos. Não escusa, mas são uma pequena porção comparados com os mais de cem mil (103.660) acontecidos na sociedade estadounidense só em 1998! Não é a Igreja que está doente, é toda a sociedade norteamericana! O crime é sem desculpa, mas de que lupa se servem os meios de comunicação para transtrocar os dados, para hiperinflacionar uns valores e encobrir outros? Melhor seria não ter de se falar do tema — por não existir assunto, claro. —, mas já que se fala deve dizer-se que 30 casos de pedofilia ou cem mil são sempre crime independentemente de quem os cometa.

Validade
Terceira reflexão. Quer seja o Papa João Paulo II a celebrar a eucaristia quer seja um sacerdote condenado à morte a eucaristia é sempre eucaristia porque o actor principal é Cristo que nos dá o seu Corpo e Sangue. Na verdade, nunca a eucaristia depende da santidade dos sacerdotes. Eles, como qualquer humano caiem em pecado. Isso o sabia já quem os escolheu... e, contudo, escolheu-os.
Porém, tal não invalida nem desculpa a má conduta e escândalo de alguns sacerdotes.  Nos tempos difíceis que se avizinham mais que nunca se exige a opção pela santidade. Sim, esta deveria ser a opção radical e permanente dos cristãos, ordenados ou não.

Napoleão
Conta-se que quando Napoleão e os seus exércitos engoliam a Europa o Imperador declarou a um cardeal: «-- Vou destruir a vossa Igreja!». O cardeal respondeu: «-- Não, não poderá!». Napoleão repetiu: «--Vou destruir a vossa Igreja!». Confiante o cardeal respondeu: «-- Não conseguirá. Nem sequer, alguma vez, nós o conseguimos fazer»!
Uma coisa é verdade: é cada vez mais difícil ser-se padre. Mas Jesus continua connosco e connosco quer reescrever os novos Actos dos Apóstolos do século XXI! Que resposta alcançará?

1’ de sabedoria
-- De que serve ter um mestre?, perguntou um visitante a um dos discípulos.
-- Para ferver a água você precisa de um caldeirão que seja intermediário entre a água e o fogo..., respondeu o discípulo.

[23 de Abril de 2002]

terça-feira, 23 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Ivan­
Ivan é pedreiro. Ivan é ucraniano. O pedreiro e o ucraniano são o mesmo Ivan Babchuk. Como muitos dos homens do seu país aventurou-se, largou velas e zarpou. A aventura trouxe-o até nós. Algures em Lamas, lá para os lados de Satão, Viseu, é o seu porto de acolhimento.
Ivan, o pedreiro ucraniano, é também sacerdote. Só que ninguém sabia. Agora que toda a gente sabe o pedreiro continua a ser sacerdote e a exercer como tal. E continua a ser pedreiro. À semana trabalha como pedreiro, ao domingo reza a eucaristia na igreja local. O padre Ivan não é sacerdote católico, mas o abraço do Pároco local foi inevitável. Aceitou as portas abertas e entrou. Celebra missa para os compatriotas. Diz quem nunca viu outras missas que a missa do padre Ivan, sacerdote cristão ortodoxo, é diferente.
Nas missas do padre Ivan católicos e ortodoxos dão-se as mãos, abraçam-se no mesmo abraço, rezam ao mesmo Deus, comem o mesmo Jesus, honram o mesmo Cristo. Isto é, celebram no domingo o que vivem à semana. Se à semana dão as mãos para amaciar a pedra porque não haveriam de, ao domingo, celebrar o Senhor de todas as coisas?
O contacto com o diferente é por vezes trágico. Aqui, pelo menos, por enquanto, mãos diferentes — à semana ou ao domingo — dão-se, comungam-se, constroem fraternidade como quem, pedra a pedra, vai erguendo em sua vida uma casa para Deus!

Belém
Foi em Belém que Jesus nasceu. Sabemos que foi num buraco, rodeado por animais e pelo espantado de Maria e José. O buraco onde Jesus nasceu é hoje uma basílica, um lugar sagrado para os cristãos. Este lugar sagrado tem um nome: Basílica da Natividade.
Há dois anos, na praça que envolve a basílica — a Praça da Manjedoira — o papa João Paulo II celebrou missa e proclamou que «a mensagem de Belém é a boa notícia de reconciliação entre os homens, de paz a todos os níveis de relações entre pessoas e as nações».
Passados dois anos não são palavras de paz e reconciliação que se ouvem na Praça da Manjedoira. Ali ouvem-se tiros de metralhadora e os potentes motores dos tanques israelitas. Lá dentro, no templo cristão, estão duzentos refugiados árabes (há quem lhes chame «bandidos e terroristas palestinos»); também lá estão uma comunidade de frades franciscanos. Cá fora, à volta, em permanente vigilância estão os tanques e soldados judaicos. Um templo cristão é albergue de árabes cercados por judeus!
As religiões são o melhor caminho para a paz, mas no local onde nasceu o Príncipe da paz elas estão em guerra. Naquele local sagrado os anjos proclamaram a paz aos homens de boa vontade, mas ali já não se respira nem paz, nem cânticos de anjos e as corajosas vozes dos frades andam assustadas.

Tiros
As notícias não são todas certas. As certas dizem que recentemente os tanques bombardearam uma porta da Basílica e provocaram um incêndio. O incêndio chegou a assustar, a porta foi arrebentada e o templo violado. Outro tanque disparou contra a Virgem da fachada e estropiou o rosto da Virgem e mutilou-lhe um braço. Alguém, a propósito escrevia: «A Virgem perdeu um braço e o seu belo rosto está mutilado. Tornou-se uma das centenas de mulheres palestinianas abatidas pelos judeus no decurso do presente conflito». Não é exagero nenhum.
Outras notícias são mais incertas. Entre os refugiados (alguns armados) já há mortos. Ao que parece um quereria render-se, mas os soldados judeus jogaram pelo seguro: um palestiniano morto é de facto um palestiniano rendido, e mataram-no. Mas há notícias de mais mortos abatidos nos claustros da igreja. Decididamente as armas nunca falam de paz, nem podem nunca honrar quem nasceu para a semear em todos os corações independentemente da cor.

Armas
Angola parece ser o reverso de Israel e Palestina. Parece que vai vestir o fato da paz. Um alto dirigente da UNITA questionado sobre o assunto disse que a paz com o governo angolano tem um preço muito alto (afinal combateram-se durante pelo menos vinte anos!). Mas esse preço alto é sempre mais baixo que o preço da guerra!
Não ouvi palavras tão sábias do outro lado.
E que vão fazer às armas, perguntaram ao mesmo dirigente. E ele respondeu: «armas? armas para quê? Quem precisa de armas?». Ninguém precisa claro, mas eu sugiro que se faça com as armas o que o profeta Isaías sonhou: sonhou que as armas eram transformadas em relhas de arado, enchadas e pás, em ferramentas que matem a fome e tragam o progresso.

Bölöni
O senhor Lazlo Bölöni é treinador do Sporting e provavelmente será campeão. Simão Saborosa é jogador do Benfica que este ano já não conseguirá ser campeão. Simão é provavelmente o melhor jogador do actual Benfica. Ultimamente Sporting e Benfica anda de candeias às avessas, mas isso não são contas do senhor Bölöni e, vai daí, visitou o azarado Simão que tinha sido operado a uma grave lesão. O homem que está a ganhar visitou o que está a perder. Há muita gente que não compreenderá este estreitar de mãos.
Em metáfora de jornalismo desportivo poderia dizer-se que o leão foi ao ninho da águia visitar uma das suas estrelas. Em tempos de tanta inflamação é bonito saber-se deste gesto de solidariedade entre dois adversários, não necessariamente inimigos. O futebol também pode ser uma escola de virtudes, e pelo reflexo amplificado que tem na sociedade deve ser, no mínimo, espaço de sã (con)vivência!

Feliz
O professor Moniz Pereira é um senhor. Levou uma vida a escolher e a fazer campeões de atletismo. Parece que escreve e faz canções e também as canta. É uma vida cheia que vale uma entrevista. Ou muitas.
Numa entrevista perguntaram-lhe se era feliz. Claro que sim, respondeu. E acrescentou: «Os que se dizem infelizes não sabem viver». Com a idade que tem; com a experiência que tem; e com os frutos que tem a carimbar-lhe a idade e a experiência não serei eu a contradizê-lo.

1’ de sabedoria
-- Eu desejo aprender, pode ensinar-me?, perguntou alguém ao Mestre.
-- Não creio, respondeu o Mestre, que você saiba aprender.
-- Então, ensine-me!
-- E você pode aprender a deixar-me ensinar?
Ao perceber que os seus discípulos estranhavam as suas palavras o Mestre disse:
-- Todo o ensino só começa a acontecer quando se começa a aprender. Mas a aprendizagem só acontece quando se ensina alguma coisa a si mesmo.

[9 de Abril de 2002]

domingo, 21 de abril de 2013

Notas de Roda-pé




Moscovo
O Papa foi a Moscovo. Mas não chegou a sair do Vaticano onde estava reunido com oito mil jovens universitários. São as maravilhas da sociedade da informação. Quando o seu rosto e a sua voz apareceram no écran da catedral católica de Moscovo os mil jovens moscovitas acolheram-no com uma salva de palmas. De cinco minutos, nada menos. Nesta visita virtual o Papa falou. Falou que:
«É necessário construir uma nova Europa.
«Só os homens e mulheres novos poderão renovar a história.
«É necessário promover o diálogo entre a fé e a cultura nas universidades para que a levedura do Evangelho estimule e sustente espiritual e moralmente a investigação.»
Antes do Papa falara um académico. Anatoly Fiodorovic Jotov, professor de Filosofia, participara no Vaticano no Jubileu dos professores Universitários. Então compreendeu «o quão perigoso é que a ciência não tenha ética, pois produz monstros!», e por isso «pediu à Igreja para ser baptizado». Depois do Papa falou outro académico, Yuri Antonovich Simonov, professor de Física teórica e director do Laboratório de Física nuclear do Instituto ITEP de Moscovo. E conclui: «o laboratório e o oratório complementam-se!». Felizmente há técnica e ciência. E ali há também fé. Felizmente.

Cherne
Quem ainda puder leia Joaquim Fidalgo, Público, dia 20, página 14; e Ana Sá Lopes, Público, dia 21, página 6. Leia e reconhecerá ali os sinais dos tempos para os de tempos e olhares curtos.
E a contrabalançar fique-nos uma frase da Narração da Paixão segundo S. Mateus (26, 56): «Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram». Pudera! Estava preso... Não mostrara ser o Messias desejado... Já não se lembravam dos milagres... Frustrara todas as expectativas.... Não tinha nada para dar. É isso, não tinha nada para dar. (Aparentemente, claro...).

Semente
Isaías Duarte era arcebispo de Cali, Colômbia. Era, digo bem. Depois de presidir a um casamento na igreja do Bom Pastor retirou-se para a sacristia, depôs os paramentos e à saída ainda sorriu para os 140 católicos com quem celebrara em fé o amor. Ao entrar no carro aproximaram-se dele dois jovens pistoleiros que o atingiram com seis balas. E mataram-no. Não foi nada a que não se esteja habituado por aqueles lados...
D. Isaías prometera revelar a influência do dinheiro da droga na política colombiana. Ao avisar o que iria revelar o bispo sentenciou-se. Mas quem o matou não sabe (ou não quer saber) o seguinte: Não sabem ou não querem saber que era verdade o que o bispo tinha para dizer. E a prova é que assinaram as palavras do bispo com balas e com sangue. Se fosse mentira por que o matariam?... 2. Não sabem ou não querem saber que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos (foi o teólogo Tertuliano quem o disse, e a história prova-o). Por isso aquilo que o bispo não disse (mas que outros deixaram que fossem balas e sangue a dizê-lo) di-lo-ão as sementes do seu martírio.

Notícias
No último Sporting-Salgueiros, quase no final do jogo, liguei o rádio. Para saber o resultado e ter som-de-fundo enquanto trabalhava. Faltava pouco para terminar. Numa pausa do jogo ouço este comentário do relatador «— ...E o senhor que estava a ler o jornal já está quase a terminar! Já vai nas últimas páginas! (E em jeito de desabafo e desaprovação) Vir ao futebol para ler o jornal...».
Pois é, pá... Nem sei como foi o jogo. Mas vou ajudar-te a entender o homem. Certamente não era espião (ou então disfarçava bem); talvez fosse portista; talvez nem gostasse de futebol; ler é melhor que ver futebol; era o Nelson do Masterplan; era...
Pois é. O pior é que assim como aquele respeitável cidadão insultou o futebol, assim outros e outras respeitáveis insultam o Estado, a Pátria, o Outro, a Igreja, a Moral. Valha-nos quem nestes campos ainda se indigna com a distracção e desleixo de tantos.

Pedras
Gosto muito quando as bocas cantam a fé. Gosto de entrar em procissão e de ouvir (e cantar com quem canta) aquele cântico que todos sabem: «Nós somos as pedras vivas do templo do Senhor»...
No dia 10 de Março eu não estive na bênção da igreja paroquial de S. Ovídio, em Vila Nova de Gaia. Mas deve ter sido esse o cântico de entrada que aquela comunidade cantou. O templo ainda não está concluído, mas também nenhum de nós o está. E assim como o templo já serve para abrigar a glória de Deus e a comunidade reunida, assim, nós, as pedras vivas, vamos aperfeiçoando o altar do coração onde vive e celebra a Santíssima Trindade.
A igreja paroquial de S. Ovídio ainda não está concluída. Fique-nos ainda o testemunho do Pároco àcerca da colaboração das pedras vivas de S. Ovídeo: «ao longo de 40 anos muitos colaboraram. Lembro um operário que ofereceu um mês de trabalho (mas a Comissão não aceitou tão grande sacrifício); lembro um novo casal que não comprou um novo móvel para sua casa para que a Casa de Deus fosse mais bela. Lembro muitas migalhas, muitas areiazinhas...».
É assim mesmo, nós somos pedras vivas!

Páscoa
Há poetas clarividentes. Um poeta declarou estarmos ameaçados de vida. E estamos. São os frutos da Páscoa de Jesus. Morreu para viver. Morreu para que vivêssemos. Morreu para nos ameaçar com a vida. Ó feliz culpa! Páscoa feliz!


1’ de sabedoria
-- Ajude-nos, Mestre, a encontrar a Deus!
-- Nisso ninguém os pode ajudar.
-- Por que não?
-- Pela mesma razão pela qual ninguém pode ajudar peixe algum a encontrar  o oceano.

[24 de Março de 2002]

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Solnado
O senhor Raul Solnado cumpriu cinquenta anos de vida artística. Houve o foguetório do costume, mas talvez não tanto como mereceria. Registo apenas um breve declaração sua «em cinquenta anos aprendi a dizer “não” e foi isso que me fez chegar até aqui». Também o ouvi dizer não ser rico, que escolhera o outro caminho, e que era isso que o fizera chegar às bodas de ouro com uma imagem inatacável. Lá terá razão. Se o diz é porque tem razão.
Não posso deixar de destacar a humildade da afirmação: aprendi a dizer “não”, e em consequência sou pobre... Mas está no coração de todos nós, concluo eu!
Por estes dias lia algo parecido. Era uma reflexão sobre o saber dizer “não” quando deve dizer-se não, ou dizer “sim” quando é de se dizer. Sobretudo, espelhando-me na reflexão de R. Solnado, penso ser nosso dever reflectir (e dizê-lo urgentemente aos nossos jovens) sobre o drama da nossa sociedade que nos prepara para a aquisição e não se atreve a falar e a propor o despojo; que nos amestra para a acumulação e a posse de coisas e mais coisas (e de pessoas e ideias), mas nunca nos ensina o desprendimento! É verdadeiramente espantosa a simplicidade da resposta à pergunta por que não temos mais Solnados em todas as áreas da nossa vida colectiva!...

Martínez
Ainda é jovem e tem duas filhas que vivem longe. Actualmente vive em Espanha, mas já residiu nos EUA «onde tinha tudo»... É calmo, tranquilo, comedido. Durante cinco anos e meio esteve preso, três dos quais no «Corredor da morte» à espera duma injecção letal que nunca chegou porque se descobriu o erro judicial e foi ilibado. Na prisão estudou Ciência Política e Teologia.
Como é que, na prisão, se vive e se resiste à espera da morte? Joaquín José Martínez resistiu confiando. Sempre confiou e confessou corajosamente a sua inocência. Confiou em si, e sobretudo em Deus. Veja-se:
«Deus é tudo para mim. Ele é a vida. É fácil de dizer isso, mas a verdade é mesmo essa. Se não acreditasse em Deus, se não confiasse que Ele me ajudaria, que sempre estaria a meu lado eu teria ficado louco»!
«Com tantas horas para pensar como as que tive alcancei um contacto pleno comigo mesmo e com Deus».
«Acreditar é a única maneira que existe para se continuar a viver quando a linha do horizonte é a cela da frente e se tem data marcada para morrer».
«Hoje estou vivo [na terceira parte da minha vida] e é apenas isso que conta»!
Hoje vive em Espanha. Livre. Vive a terceira parte da sua vida com a consciência de que é pequenino, mas vive calmo, sereno, comedido e sem raiva. Porque existe só Um que pode preencher a nossa necessidade de posse.

Divinus
Apareceu aí nos escaparates um disco com «sucessos portugueses». O autor é o grupo Divinus. O disco está no top por uma de duas razões e até talvez pelas duas, e quem sabe, até talvez por outras... A primeira tem a ver com o nome que remete para o além, para o sublime, para o diferente, o inusual e o sagrado. A segunda porque os sucessos são interpretados segundo o modelo do canto gregoriano. Depois, claro, a palavra «sucesso» é em si apelativa, logo também ajuda a subir no top. Dizem os entendidos que os sucessos foram bem escolhidos e bem interpretados. Só que aquilo não é canto gregoriano, é outra coisa.
Mas a coisa resultou.
Estes «sucessos» têm duas virtudes. Uma é a de chamar a atenção para essa grande música que é o canto gregoriano. Outra é que é sempre preferível ouvir interpretações originais do gregoriano, aliás disponíveis nas discotecas, porque, essas sim, revelam toda a espiritualidade e transcendentalidade que vai falhando aos nossos dias. Valerá a pena ouvir os Divinus?, talvez. Mas melhor que a água do cântaro é a da fonte!

Votar
Domingo há eleições. A democracia não é possível sem exercermos a nossa obrigação cívica depondo o nosso voto na urna. Por isso, domingo vá votar. Não votar é votar no partido da abstenção. E a abstenção é a negação da democracia. Exerça o seu direito, cumpra o seu dever. Não nos deixe governados por alguém que não venceu o partido dos que se negam a construir a democracia, a abstenção.

Vitória
Em Nova Iorque onde antes estavam as Torres Gémeas estão agora dois enormes fachos de luz. Excelente ideia. Já muitos haviam referido que a vitória fora derrota. Os EUA não se amedrontaram e ultrapassaram por cima aquele drama enorme.
Mas resistir à tentação da reconstrução das Torres foi uma vitória maior ainda. Nem construir umas torres ainda maiores seria vitória tão grande. Onde uns semearam escuridão outros fizeram renascer luz; onde reinou a morte impera agora a luz. Honraram-se os mortos com dignidade e ilumina-se a memória dos vivos. Olhando aqueles dois enormes fachos de luz todos seremos impelidos a dizer «Nunca mais»! Parece-me uma excelente ideia. Quem poderá agora derrubar a luz? Que aviões ou que armas, que idologias ou fanatismos poderão derrubar a luz? Quem poderá apagar a memória de tal horror?

1’ de sabedoria
O Mestre tinha um discípulo obcecado pela ideia da vida após a morte; um dia disse-lhe o Mestre:
-- Porque vives perdendo o teu tempo pensando no que vem depois da vida?
-- Mas, é impossível não pensar.
-- É claro que é possível não pensar.
-- Mostre-me então, desafiou o discípulo, como se pode viver não pensando no que vem depois da morte?
-- Simplesmente vivendo o céu na terra!
-- E onde está o «céu na terra»?
-- está á sua volta, aqui e agora!

[12 de Março 2012]

domingo, 14 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Montanhas
O ano de 2002 foi consagrado como o ano das Montanhas e do Ecoturismo. É intenção primeira promover o contacto com a natureza. E defendê-la também. Penso que é uma excelente ideia. Uns promoverão, estou certo disso, o contacto com a montanha; outros chamarão a atenção para as agressões de que ela é vítima. Creio que as duas acções são legítimas e necessárias. Pela minha parte devo dizer que da minha janela vêem-se montanhas. Mas as montanhas que vejo já não são as mesmas que eu via antes. Estão a mudar muito as montanhas. Agora rebentam lá bombas e pouco a pouco vão aparecendo feridas. Grandes feridas. É o que vejo. Onde antes via verdura e água transluzindo como prata sob o sol de Inverno hoje vejo restos escuros de pedra. E só podem ser grandes esses restos, por que a distância a que os vejo também é grande...
É a febre do ouro em Marco de Canaveses! Não é bem a do ouro, mas a da pedra. Claro que compreendo que se tenha de trabalhar para “ganhar a vida”. E também compreendo que também aqui deve existir a oportunidade de se ser rico. Mas o que já não compreendo bem é que a nós, cá debaixo, só nos reste a possibilidade de contemplar os restos das entranhas da montanha de Rosém...

Oração
Canta um poeta que quando a terra quis rezar surgiram as montanhas. E tem razão. Só as montanhas sentiriam o apelo de se elevar (e nos elevar) para o alto. São as montanhas como braços que a natureza elevou para louvar o Autor da criação. Digno de todo o louvor é quem criou a criação! E não podendo cantar com hinos nem com trinos a natureza inventou as montanhas que se elevam para Deus. É o seu jeito de louvar, elevando-se...
Sensível à beleza da criação S. João da Cruz canta assim: «Ó bosques e espessuras, / plantados pela mão do meu Amado, / dizei-me se por vós terá passado»... Há na natureza algo da beleza de Deus. E quem passa pela natureza como que passa a caminho dAquele que por ela primeiro passou vestindo-a de formosura, Deus! A natureza é assim espelho da Sua beleza e possibilidade de bem nos caminharmos para Ele. Daí que menos se percebam as agressões de que ela é vítima...

Retiro
O primeiro domingo da Quaresma fala do retiro de Jesus antes da sua vida pública. Foram quarenta dias e quarenta noites de deserto, de solidão! É extraordinário como o retiro está de novo na moda! Novos e velhos não resistem ao apelo e retiram-se do bulício do dia a dia, e às vezes do de fim de semana que não é menor. Os retiros dos velhos não são como os dos novos. Os primeiros são mais certinhos, mais calmos, mais ponderados, mais atentos, mais sintonizados. Os segundos são também interessantes, levantam mais interrogações, explodem em energia, convicções e generosidade. Não prefiro uns ou outros, ambos têm a sua beleza.
Porém, outro tipo de retiros começa a ganhar terreno. São os retiros de silêncio. Durante um fim de semana desligam-se os telemóveis, os televisores e telefonias, a internet e os jornais... Não se fala, ouve-se. Não se comenta, silencia-se. Não se aprende, abre-se o coração.
A Laurinda Alves, na última Xis fala disso. Diz que são retiros que roçam a poesia e que curam! Ajudam a ouvir-nos e a entender-nos; separam o principal do acessório e são de uma força tremenda! Afinal de contas, é nos retiros de silêncio que ela tem encontrado as respostas para os maiores mistérios da vida!

Quaresma
Há quem não goste da Quaresma. Lá têm as suas razões. Acabamos de celebrar o segundo domingo quaresmal, o da Transfiguração. A Trindade Santíssima revelou-se como o Deus fiel que cumpre a sua palavra. Ficamos a saber que o futuro do homem fiel não é nem a ruína nem a cruz, mas a glória. Que não estamos ameaçados de morte, mas de transfiguração. E embora isto não elimine a sombra e a tentação, dá, contudo, sentido ao nosso caminho ainda que caminhemos (quase só) de noite.

Domitília
É portuguesa, de Faro. Tem 46 anos, é solteira e vive há 33 anos nos EUA. Primeiro lavou a roupa de emigrantes e deu explicações de matemática, e à noite estudou com os pés metidos numa bacia de água fria porque era preciso tirar vintes. Hoje gere fortunas, vive num apartamento pequeno e as horas vagas oferece-as como voluntária. O mundo de Wall Street,  do Carnegie Hall e do Metropolitan, e os sub-mundos da fome e do horror da Etiópia, Haiti, Angola, Guiné não lhe são estranhos.
Chama-se Domitília dos Santos, deu uma entrevista a Adelino Gomes publicada na Pública e diz coisas assim:
«[Quando fui trabalhar como voluntária para a Etiópia] entrava no meu quarto às nove da noite e só podia sair dele às cinco da manhã. Pedi uma tábua para dormir no chão, tinha ratos na cama»;
«Para se ter sorte é preciso trabalhar muito e bem»;
«Um homem ou uma mulher só vencem com trabalho, trabalho, trabalho»;
«Há pessoas cuja vocação é dar aulas a crianças. A minha é ajudar crianças e velhos a morrerem com dignidade»;
«[Quando olho para o mundo ocidental, penso:] Você está a discutir por cinco dólares, a discutir porque não lhe deram não sei quê? É irrelevante. Na Etiópia as pessoas não têm nada, pão, açucar, nada para comer»;
«Desejo ir à missa todos os dias. Fico mal disposta quando não vou»;
«A pessoa rica é aquela que consegue ser feliz gerindo o seu dinheiro»;
«O meu ídolo é Jesus Cristo. E depois a Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela, Martin Luther King, Gandi»;
«O meu lema é ‘faz o teu melhor, e não te preocupes com o resto»;
«Actualmente quero aumentar o negócio e ganhar menos. Para distribuir mais pelas pessoas à minha volta»;
«Rezo e conto em português».
Felizmente ainda existem pessoas interessantes! Alguma destas coisas poderá ser afirmada logo à noite por algum dos candidatos a Primeiro Ministro?

1’ de sabedoria
O Mestre parecia que frequentemente desencorajava os seus discípulos a viver dependendo sempre dele. É que o Mestre sabia que caso isso acontecesse eles jamais conseguiriam entrar em contacto com a Fonte interior.
Por isso, um dia, disse-lhes o Mestre:
-- Existem três coisas que, estando perto de mais são nocivas; e estando longe de mais são inúteis. Devem, portanto, ser mantidas a uma distância média. São elas o fogo, o governo e o director espiritual.

[26 de Fevereiro de 2002]

terça-feira, 9 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



Arley
Arley era jovem e tinha sonhos. Mas trucidaram-lhe os sonhos de jovem. Tinha 30 anos e de nome completo Arley Arias García. Era sacerdote, colombiano, e foi assassinado numa emboscada. Em Maio de 1999 a guerrilha queimou-lhe a igreja paroquial e Arley voltou a construí-la. No dia 22 de Novembro do ano passado uns desconhecidos assassinaram-lhe um irmão. Mas nem assim Arley, o P. Arley, abandonou o sonho de ver o seu país pacificado, e por isso se preocupava em ser ponte de paz. Várias vezes, com sucesso, junto da guerrilha, tinha solucionado vários sequestros. Até que chegou a sua hora de ser mártir. E foi. Testemunhou com a vida o amor ao seu povo, à Igreja e a Deus.
Na Alocução do Angelus de 3 de Fevereiro, como se falasse do P. Arley, dizia o Papa: «Os mártires não desprezam a vida. Permanecem, isso sim, fiéis ao Deus da vida e aos seus mandamentos e aceitam o martírio».

Eleições
Saídos de umas aí vamos nós para outras eleições. É interessante verificar como alguns dos nossos políticos usam carimbos que não autenticam nada. À luz da doutrina social da Igreja Católica aí vão dez princípios que o Papa tem proclamado no sentido de orientar os políticos (sobretudo, os cristãos):
1. Servir a sociedade procurando o bem comum e promovendo a participação solidária de todos.
2. Viver e trabalhar em coerência com os princípios cristãos que o inspiram.
3. Fundamentar a sua actuação na inalienável dignidade da pessoa humana.
4. Interpretar a justiça de acordo com a doutrina social da Igreja, conforme o seu leal entendimento.
5. Promover a justiça e a igualdade de oportunidades para todos, em especial para os mais necessitados ou desfavorecidos.
6. Cuidar que a lei positiva se enraíze na lei natural.
7. Defender a cultura e a vida, de modo especial, em relação aos mais indefesos: os não nascidos, crianças, idosos e doentes terminais.
8. Defender a família como célula básica da sociedade e como escola de valores.
9. Promover o diálogo, longe dos afrontamentos.
10. Submeteras leis do mercado à justiça e à solidariedade.

Assis
Em Assis o Papa reuniu as religiões do mundo. Fê-lo mais uma vez num tempo em que já ninguém esconde o enorme esforço para remeter a religião para trás da cortina. No palco vê-se de tudo menos religião. Porém, quanto mais se remete para trás do cenário mais a religião vem para boca de cena. Assis é sinal disso. O 11 de Setembro também. O que antes remeteram para o oculto e o privado veio para a rua e para a luz do dia! Existem dois trabalhos muito comuns na sociedade actual. O primeiro, como fica dito, trata de ocultar a religião. O segundo é lançar poeira aos olhos. E já que vamos para eleições aí vai o desafio do esclarecimento. Porque não nos dizem os senhores políticos o que pensam fazer à Lei da Liberdade Religiosa? E à Concordata? E às Instituições de Solidariedade Social? E à presença das Igrejas nas escolas e nos meios de comunicação social? E já agora, as religiões são espinhos na sociedade ou parceiros de diálogo?
Que o Estado seja laico e não se deixe manipular. Mas que quem nos governe reconheça a nossa matriz cultural, a nossa história, as nossas referências religiosas. Não defendam a (nossa) fé, clarifiquem as vossas opções. Digam o que entendem por direitos, deveres e privilégios. E nem importa que coloquem o assunto religião na gaveta, mas depois não se aproveitem dos nossos recursos e potencialidades sociais renunciando às responsabilidades próprias.

Milagres
D. Fernando Mascarenhas, marquês de Fronteira, desafiou a Comunidade de Leitores a ler e debater um livro policial. Começaram a falar de detectives e personagens suspeitas e acabaram a falar da Bíblia. Alguém disse: «à parte os milagres, a Bíblia podia passar-se hoje».
Devo esclarecer que tanto quanto percebo a Bíblia passa-se ainda hoje, até nos milagres. A verdade é que aquilo que se passa na Bíblia é o grande diálogo de salvação entre Deus e Humanidade. E aí está o milagre: Deus faz-se entender e amar pelo coração humano! Inclinou-se sobre a Humanidade para a elevar até junto do seu coração! Querem maior milagre? Que Deus me desafie todos os dias a saltar para os seus braços não é isso um grande milagre? Serão precisos mais milagres?

Quaresma
Começou a Quaresma. Repete-se à comunidade cristã o convite oficial para renovar a sua cordial adesão ao projecto de Jesus. O Povo  de Israel nasceu na quaresma do deserto. Por isso, todos os anos peregrinamos ao deserto onde nada há — ou melhor onde só há Deus! — para renovarmos as raízes. Foi no deserto que Deus educou o seu povo, ali lhe provou o seu amor de pai e lhe falou ao coração. «Desejo convidar todos os crentes, diz o Papa, a uma ardente e confiada oração ao Senhor, para que conceda fazer a cada um uma renovada experiência do seu amor». Boa Quaresma...


1’ de sabedoria
O mestre perguntou aos seus discípulos:
-- o que é mais importante, a sabedoria ou a acção?
Os discípulos responderam todos juntos:
-- A acção, naturalmente! De que vale a sabedoria que não se concretiza em acção?
E o mestre retorquiu:
-- E de que vale a acção que não nasce dum coração iluminado?

[12 Fevereiro de 2002]

sábado, 6 de abril de 2013

Notas de Roda-pé



€urros
Chegou o Euro. Finalmente. Chegou o euro, chegaram os €urros. Inevitavelmente. Um bar duma área de serviço das auto-estradas francesas recebeu um pagamento em euros de brincar: eram do jogo do Monopólio!; em Lisboa um restaurante pagou-se 600 contos duma refeição de 4.000$00; e no Funchal um outro pagou-se 3000 contos!; Lionel Jospin, primeiro ministro francês, pagou dois ramos de flores a preços exorbitantes... Aparentemente sem fazer contas!; o nosso ministro das finanças sabia a que correspondiam 50 euros, mas já não sabia quanto eram 100!; e o balcão duma instituição bancária austríaca entregou euros aos clientes a preços 25 vezes menos o seu valor! Dizem que a SIC saiu por aqueles dias à caça dos €urros. Andou a filmar e a interrogar velhinhas a contar euros. Parecia o Minas e Armadilhas! Filmou muito, mas não muitos erros. Chegou o euro, chegaram os €urros. E em boa verdade os €urros vieram de quem menos a SIC esperava.

Geração
O Vicente Jorge Silva inventou a Geração Rasca. Outros responderam dizendo que afinal era à rasca! O Carlos Cruz acaba de inventar a Geração Fantástica. São meninos e meninas de dez/doze anos. Algo há neles, na óptica de quem e de como os apresenta, que faz deles fantásticos. Talvez estejamos mesmo contemplando uma geração fantástica que, a sê-lo, será sempre devedora da actual. É fantástica até nos tiques que inevitavelmente copia. Afinal é filha do nosso tempo, não haja dúvida.
Parece que o futuro está garantido. Há matéria prima, faltará trabalhá-la.
Vi quase todos os testemunhos fantásticos e parece-me que nem tudo vai mal. Temos um compromisso com o futuro e existem as condições que impedirão de o falharmos. Mas como ninguém é fantástico antes de tempo faltará sê-lo convicta e persistentemente. A ver vamos.

Mestre
Como se abraça um mestre? Um destes dias passava pelo Porto e já era quase noite. Numa rua com um jardim minúsculo mas bem iluminado vi um velhote todo embrulhado no seu surrão escuro. Vi-o e tive a tentação de lhe dizer que se animasse porque, afinal de contas a vida é bela e o ano só tinha começado ontem... Pensei e ia a dizê-lo quando reparei que o velho era o meu velho mestre R. Castro Meireles (um dos poucos a quem me atrevo a chamar assim.). O diálogo foi assim:
-- (surpreso) Ó senhor doutor...
-- (surpreso também) Ó carmelitano!
-- O senhor está bom, sente-se bem?
-- E tu onde estás agora?
-- Estou em Avessadas. Sente-se bem? Quer que o leve a casa?
-- Não. Não. Subi agora da ponte D. Luis por aí acima. Parei aqui e estava a rezar. (Atrás havia uma trupe de outros velhos a jogar às cartas.) E tu como estás?
-- Mas sente-se bem?...
-- Sim, sim... Parei só p’ra rezar. Estava a rezar... Cuidado com os quarenta anos, cuidados com os quarenta anos... Podes ir-te embora, fico aqui a acabar de rezar e já vou embora.
Ainda me ofereci outra vez para o levar a casa. Mas não deixou. Só queria ficar ali a rezar por nós que andamos nos quarenta anos. Despedi-me saudando-o mas sem o abraçar, afinal estava a rezar por mim. Por mim que não sei como se abraça um mestre que está a rezar.

Xis
Há uma revista feita ao contrário das outras. Ao menos é o que eu acho. É feita com fé, com amor e com muita esperança. É feita pela positiva, a pensar em ajudar. E ajuda, ajuda muito. Sai ao sábado juntamente com o jornal Público e chama-se XIS. A revista é interessantíssima e como é feita ao contrário das outras serve, ajuda, sugere, voluntaria-se, anima, encoraja, acalenta, arrisca, aponta caminhos e soluções.
Eu gosto da XIS, e não sou só eu. Quem a faz também. Costuma dizer-se que as boas notícias não são notícia. A Laurinda Alves acredita que a boa notícia é duplamente uma notícia. Ainda bem que assim pensa. Porque do seu esforço e do esforço da sua equipa sai uma revista diferente porque é capaz de anunciar boas notícias.
Vivemos um tempo anestesiado pelas más notícias e pelos comentários que no dia seguinte elas provocam. Basta ouver os telejornais e confrontar-nos com as tais conversas. E basta verificar o choque que as más notícias já não nos provocam.
Uma revista como a XIS não deveria existir. Quero dizer, não deveríamos precisar duma revista a dizer bem, a dizer boas notícias. Não deveria existir simplesmente porque o que não precisamos mesmo é de más notícias. Mas já que o nosso céu noticioso é tão escuro ainda bem que lá apareceu uma estrela polar.

Escolinhas
Entrei para o Seminário tinha acabado de fazer dez anos. Pouco depois só se aceitavam rapazes com 12 e mais tarde com 15. Agora preparamo-nos para aceitar com idades superiores. As coisas mudam, e entre elas a disponibilidade das famílias em libertar os filhos para os Seminários. Além disso o tempo da infância e da adolescência alargou-se o que torna cada vez mais tardia as rupturas necessárias. Recordei-me disto quando há dias vi uma reportagem sobre escolinhas de futebol. Não sei dizer mas talvez fosse na França ou na Suiça.
A reportagem mostrou o dia a dia duma dessas escolinhas, a captação de vocações, o acompanhamento, as práticas e prelecções, os treinos e os estudos, as visitas às famílias e aos amigos, as saudades das famílias e as dos eleitos, as lesões, as competições, os ciúmes, os anseios, as esperanças, os sonhos. Havia uma ressalva, salvo dum ciganito, de ninguém se dizia que pudesse vir a ser uma estrela.
Havia uma coisa que mantinha aqueles adolescentes unidos no sonho: poder vir a brilhar numa constelação qualquer do futebol europeu! Era isso que os fazia suportar todas as dificuldades que todos diziam detestar.
Só não os vi rezar, porque se os visse a caminho da capela diria que até parecia um Seminário.
Enquanto ia vendo a reportagem pensava nas similitudes entre as escolinhas de futebol e os Seminários. Porém, as primeiras são, sem dúvida, mais sedutoras que os segundos. As primeiras estão cheias, os segundos vazios. E, sinceramente, não sei dizer quem mais falta faz, se o sacerdote se o fazedor de sonhos que é o futebolista!

1’ de sabedoria
Disse o mestre a certo aluno que o venerava com certo exagero:
-- Quando a luz iluminar um muro não tentes venerar o muro iluminado. Venere antes a luz que ilumina o muro!

[21 de janeiro de 2002]