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terça-feira, 11 de março de 2014

Homilia do encerramento do Ano Pastoral do Carmo


«O amor de Deus nos impele»

Caríssimos irmãos e irmãs,

1. Se nesta tarde eu pudesse imprimir no vosso coração uma palavra, seria gratidão. Se eu pudesse ir carimbando coração a coração, marcaria essa palavra: gratidão. Convido-vos a fazer este exercício de eucaristia, isto é, de gratidão; a eucaristia antes de ser para aprender é para adorar o Senhor que está no meio de nós, que está connosco nesta barca que é esta Igreja do Carmo; e depois para agradecermos. Fazei um exercício de memória: ide ao baú do vosso coração e encontrareis lá muitas coisas para agradecer ao Senhor. Certamente Ele nos fez passar - talvez até sofrer - muitas maravilhas ao longo desta semana, recolhei-as, juntai-as, lembrai-vos delas, não tenhais medo de vos dispersardes, não vos preocupeis se não ouvirdes a homilia, ide à procura do que quiserdes agradecer ao Senhor, melhor, do que tiverdes que agradecer ao Senhor, pois eu gostaria muito que esta eucaristia fosse gratidão, agradecimento. Gratidão por aquilo que o Senhor concedeu a cada um de nós de forma privada, de forma que até nem sabemos agradecer, nem sabemos reconhecer; gratidão por aquilo que o Senhor concedeu à nossa comunidade, à nossa família. Agradeçamos ao Senhor com palavras simples, dizendo: Senhor, pelo Espírito Santo Tu me trouxeste tanta coisa, que eu nem sei agradecer. Aceita na pobreza das minhas palavras e do meu silêncio, aceita esta vontade de Te dar graças, por aquilo que do Pai me foi trazido por Ti a mim e à minha família do Carmo.

2. Quero, depois, alargar este agradecimento à Comunidade: estivemos reunidos esta tarde, desde as 16:00h até agora, em reunião de avaliação do nosso Ano Pastoral. Não éramos muitos – talvez 17 ou 18, não importa já o número. Fomos repassando o nosso Ano Pastoral, as nossas actividades, a nossa oração, o que fizemos bem, menos bem, o que foi bem conseguido e o que não foi tão bem conseguido. Estivemos a agradecer ao Senhor tantos e tantas que estiveram tanto tempo e tantos momentos, dando da sua vida, do seu tempo, do seu saber, ajudando à nossa oração…
Alguém nos dizia estes dias: Que belo é poder entrar nesta igreja e poder olhar o altar, ou o trono, ou a tribuna e ver flores! E alguém respondeu hoje: E como é duro estar lá quando os músculos apertam, como é duro estar lá a prepará-las! Quero sintetizar no trabalho das flores, que se aqui se encontram diante do nosso olhar, todo o trabalho que pusemos ao longo do ano preparando as nossas reuniões, a nossa oração, esta eucaristia e outras, as nossas reuniões de cultura, de formação que fomos tendo, que nos foram enriquecendo…
Quero agradecer ao Senhor, e peço ao Espírito Santo que esteja em mim e nas minhas palavras, para agradecer como convém a Deus o chamamento a que nos chamou, o carisma que nos concedeu para certo serviço, o convite a fazer algo no Carmo e que uns fizeram vindo para rezar e outros fizeram vindo antes para preparar…
Quero agradecer - E acabo por aqui, porque não me calo, teria muito que agradecer e ficaria todo o dia a agradecer tudo o que tantos fizeram por esta comunidade! -, por esta comunidade, por esta celebração, por toda a família carmelitana que vamos construindo.
Agradeço, muito sentidamente, tudo o que disseram esta tarde, tudo o que ajuda a construir a beleza de sermos corpo de Cristo, de sermos Igreja, na nau, no barco, enfrentando o mar e as tempestades…

3. Quero dizer-vos também esta palavra simples que estava na segunda leitura: «O amor de Deus nos impele»! Que frase bonita! Eu já a conhecia, mas hoje tropecei outra vez nela: o amor de Deus, irmãos caríssimos, irmãs caríssimas, nos impele! Impele é obriga, empurra, mas de forma mais doce, mais bela. Impelir, acho eu, é como aquelas velas preparadas nos mastros dos navios: vem o vento e empurra a vela que empurra o barco! É o amor de Deus que nos impele, que nos empurra. É assim que eu desejo - e quero agradecer ao Senhor -, a Sua presença amorosa, este Amor que vai impelindo as velas da vida de cada um de nós e da Comunidade, que vai soprando sobre cada um de nós, que vai soprando sobre todos nós, que não nos deixa caminhar sozinhos, que não nos deixa a remar sozinhos no meio do mar, que não nos deixa a puxar pelo barco sozinhos e sem orientação, que sabe aonde é que devemos ir.
É o amor de Deus que nos impele!
Meus irmãos, que nada mais nos obrigue, que nada mais nos ajude, que nada mais nos empurre senão o amor de Deus. Aquele amor que São Paulo contemplou na cruz do Senhor, o amor de Jesus crucificado e ressuscitado, o amor que é Jesus na Cruz. É o amor de Deus que nos impele, é o amor de Deus que atira com a nossa vida para a frente, atira cada um de nós, atira a vida das nossas famílias, e com certeza a vida das nossa Comunidade, não é o nosso amor, a nossa força, a nossa vontade, não é a nossa dor, não é a nossa filosofia, não é a nossa capacidade, não é a nossa vontade: é o amor de Deus, é Deus!
Tudo isto (força, inteligência, sabedoria, vontade) tem de ser posto ao serviço do Evangelho, ao serviço da Comunidade, mas só o amor de Deus impele a nossa barca!
Guardai também esta frase, pois é grande: É o amor de Deus que nos impele… e às vezes não damos mais porque somos preguiçosos, não queremos esticar a vela para que o Amor não enfune em nós…
O amor de Deus nos impele. Agradeço mais uma vez àqueles que deitaram mãos à barca, esticaram as velas para que o Amor de Deus enfunasse a vela, para que remássemos em frente. Virão vezes que será preciso mudá-la, que será preciso pôr mais vela, virão vezes em que será preciso pedir ao Senhor força, ânimo para continuar; concerteza que é preciso, mas chegaremos. Permaneçamos disponíveis para dispor e alargar as velas, porque o que o amor de Deus deseja é soprar sobre nós e empurrar-nos para a frente.

4. Depois, dizer-vos: Gosto tanto desta página do Evangelho! Porque é curioso: Jesus falou, e olhai que não falou só para aquele tempo; falou para este em que estamos, para o aqui e agora, falou para este que estamos a celebrar. Jesus falou aos do seu tempo, e falou para hoje, para mim e para ti, para nós. O que Jesus falou cumpriu-se, ainda que depois dormisse.
A narrativa de hoje segue-se a um dia de pregação. No fim disse aos discípulos: vamos para outro lugar, vamos para a outra margem, para o outro lado. E entraram na barca e começaram a remar, porque se é para ir para outro lado é preciso trabalhar. Veio então uma tempestade que quase afunda a barca, e Jesus a dormir. E a água a entrar e eles a remar e o vento a soprar e Jesus a dormir, e a agua a entrar e o vento a soprar e eles a tirar a água e Jesus a dormir, e barca a afundar e eles a remar e Jesus a dormir. E quase se afundou…
Acordaram Jesus e disseram-lhe: Desperta, Senhor, e salva-nos! Estamos a morrer! E Jesus falou ao mar e ao vento e tudo abrandou… e chegaram a outra margem.
Não é assim que nos sentimos muitas vezes? Não é assim que a Igreja navega no meio do mar? Não parece tantas vezes que o abismo parece que nos come? Não parece que nos afundamos? Não é assim que as nossas vidas navegam, parecendo que nos afundamos? Não parece que Deus não se preocupa de nós, que não pensa em nós, que vai a dormir? Então não é isso que dizemos muitas vezes a Deus: que a vida nos corre mal e que Ele não se importa de nós?
Sim, é. Mas não damos conta que Ele está? Ele está! Está no meio do barco, está no meio da tempestade, comprometido connosco! Ai se tivéssemos fé.
5. Gosto muito deste Evangelho porque é de hoje, para cada um de nós que possa estar sobressaltado a viver a sua fé! Confia, confiemos. Jesus está. Mesmo que a dormir, está. Está. E a tua fé se não é confiada em Jesus – ainda que a dormir – adormeceu, morreu. O Evangelho diz-nos: Confia! Confia, porque Ele está.
Eu sei no que estais a pensar: nas tempestades da vida e da fé! (Mas não vos tinha pedido no princípio para pensar em agradecer e no que tanto devemos agradecer?) Sim, calma. A vida às vezes corre-nos mal. Mas, calma. Jesus está. O Senhor vai connosco. O Senhor navega connosco. Homens de pouca fé! Ele está no meio de nós! Sim, Ele está na nossa barca. Está de coração aberto para nós: confia no Seu coração, que Ele está no meio de nós.
Disse o Senhor aos discípulos: Vamos para a outra margem. Aqui é que já é mais difícil, porque também isso é ordem de Jesus à Igreja, e ao Carmo hoje! Disse-nos Jesus nesta tarde, neste Evangelho que eu considero que é todo para os tempos de hoje; disse-nos não para nos assustar, nem para nos pôr à prova, disse-nos: vamos para a outra margem!
Caríssimos irmãos e irmãs, é difícil ir para a outra margem, isso é mais difícil. Eu sei de pessoas que não se atrevem a passar pontes, quanto mais meterem-se num barco, sair da margem confortável e do porto seguro, enfrentar correntes, ir para a outra margem! Mas, cuidado: olhai que é ordem do Senhor! Olhai que o Amor nos impele! Olhai que as ordens de Senhor, são obras do Senhor… são obras de Amor! Olhai que há uma margem onde nós não estamos, que não pisamos, onde nós não queremos entrar, onde nós temos que ir! Olhai que há uma margem com muitas tempestades pelo meio que parecem que nos estragam e nos comem! Olhai que nós temos obedecer ao Senhor!
6. Estás aqui para ouvir a voz do Senhor: mas não estejas consolado na tua margem! Não basta ficares onde estás! No outro lado é preciso que Jesus esteja: levai-O para lá! (E olhai que também aponto para mim, que tanto me custa ir para lá.)
Este Evangelho é para hoje. Ele diz-nos que estamos consolados na nossa margem, no nosso trabalho, na nossa vida, na nossa forma de ser, no nosso descanso e que estamos de tantos homens e mulheres afastados de Deus, longe de Cristo, morrendo, destruindo-se sem uma palavra do Evangelho. E nós não queremos ir para a outra margem…
Espero que isto não seja uma homilia amarga, porque é a verdade.

7. Caríssimos irmãos e irmãs: temos que escutar o Espírito, que hoje nos diz: vai sem medo, vai com confiança, vai com fé… mesmo que Jesus durma na tua vida. Desculpai, mas a missa é isto. Desculpai, mas é isto mesmo.
Terminamos o Ano Pastoral do Carmo. Vamos continuar por aqui, vamos rezar. Quando rezardes, e havemos de rezar muitas vezes juntos e outras vezes sozinhos, pedi isto ao Senhor: faz-nos, Senhor, faz-me chegar à outra margem, faz-me ser bom discípulo, porque ainda sou um discípulo medroso, como aqueles que iam no teu barco, faz-me chegar ao outro lado. Faz-te ir sem medo, dá-me a mão, dá-me confiança, dá-me coragem, vem comigo.
Sim, havemos de chegar lá porque Ele está connosco até ao fim dos tempos.
Que assim seja.

Igreja do Carmo de Viana do Castelo
[20 de Junho de 2009]

segunda-feira, 10 de março de 2014

Para que conste!


Há cem anos os rios cresceram demasiado no Congo. Há cem anos o pó esparso da terra humedeceu-se de vermelho. Generosamente. Há cem anos – não tão longe assim – morria um menino envolto no anonimato da sua pele escura, na comunhão de infortúnio da sua raça e na esperança dum povo que ia renascendo das águas.
Na repetição dum movimento da história nada original nem engrandecedor, um poderoso punhado de europeus ricos, superiores, brancos, ilustrados, esmagava em lagar alheio uma nação africana, pobre, inferior, negra, humilde, que, abrindo pouco a pouco, os olhos para a luz da fé em Cristo se foi entregando mansamente às mãos sanguinárias
de exploradores habitados por ideias enviesadas de progresso.
E o que parecia poder ser soterrado sob a capa do medo num tugúrio fétido foi constituído em luzeiro mais brilhante que o Sol, que ao não poder ser escondido denunciou a fonte do ódio e da injustiça e foi devolvido ao seu povo como gérmen de vida fecunda.
A vida de Isidoro Bakanja, menino mártir da fé em Cristo e do amor a Nossa Senhora do Carmo pela adesão ao seu Escapulário, poderia ter ficado diluída no rio do tempo.
Volvidos cem anos do seu martírio recordámo-lo no Carmo de Viana do Castelo,
porque a luz do seu testemunho se universalizou e inundou este sereno – talvez demasiado sereno! – cantinho da Europa.

(A história tem as suas ironias!)

A Exposição 
Isidoro Bakanja, negro puro e mártir
é uma maneira outra de escrever o seu testamento jamais escrito. Já não a sangue e bem longe ainda dos raios de glória com que mereceu ser coroado. Felizmente um jovem artista vianense emprestou a sua sensibilidade europeia (ou global?) para recerzir a pureza do testemunho do jovem negro. E por fim, remirando também eu, desde o meu cantinho, concluo que nenhum outro que não o Hugo Soares nos poderia propor a mesma justeza do olhar sobre o mártir. É concerteza para nós uma dádiva poder saborear tanta graça e maravilha.
Associa-se o sr. António Branco, da OPART, Gafanha da Nazaré. A sua presença engrandece-nos por que o sei conhecedor de martírios (e milagres) em África e Portugal. Fico-lhe igualmente grato pela sua sensibilidade generosamente semeada e partilhada, ele que, como o Hugo, nada me deve. E tanto lhes devo!
(Para que conste!)

[23 de Julho de 2009]

domingo, 9 de março de 2014

Ó Trindade que eu adoro!



O Grande mistério da Trindade é um convite ao louvor e à acção de graças, mais que à compreensão dessa imensa realidade maior que toda a nossa compreensão junta. Ó Trindade que eu adoro! É uma sentida exclamação da B. Isabel da Trindade que nos introduz na vivência mais íntima deste mistério. Saboreemos alguns textos sobre a Santíssima Trindade:
Ó meu Deus, Trindade que eu adoro!
Ó meu Deus, Trindade que eu adoro,
ajudai-me a esquecer-me inteiramente,
para me fixar em Vós, imóvel e pacífica
como se a minha alma estivesse já na eternidade.
Que nada possa perturbar a minha paz,
nem fazer-me sair de Vós, ó meu Imutável,
mas que cada minuto me faça penetrar mais
na profundidade do vosso Mistério.
Pacificai a minha alma, fazei nela o vosso céu,
a vossa morada querida e o lugar do vosso repouso.
Elevação à Santíssima Trindade
da B. Isabel da Trindade 1880 – 1906
 
 
Exclamação
Ó alma minha!
Considera o grande deleite e grande amor
que tem o Pai em conhecer a Seu Filho
e o Filho em conhecer a Seu Pai,
e o ardor com que o Espírito Santo
se junta com Eles,
e como nenhuma das Três Pessoas
se pode apartar deste amor e conhecimento,
porque são uma mesma coisa.
 
Estas soberanas Pessoas se conhecem,
estas se amam,
e umas com outras se deleitam.
Pois que necessidade há de meu amor?
para que o quereis, Deus meu,
ou que ganhais?
 
Oh! Bendito sejais Vós!
Oh! Bendito sejais Vós, Deus meu, para sempre!
Louvem-Vos todas as coisas, Senhor, sem fim,
pois não o pode haver em Vós.
 
Alegra-te, alma minha,
que há quem ame a Deus como Ele merece.
Sétima Exclamação
de S. Teresa de Jesus 1515-1582
 
Salmo de contemplação
A que posso comparar-me, Senhor?
Com os passarinhos do ninho,
que se o pai ou a mãe
não lhes dão alimento, morrem de fome.
Assim a minha alma, Senhor:
em Vós, não tenho apoio, não posso viver.
 
A que posso comparar-me, Senhor?
Com um pequeno grão de trigo,
sepultado na terra.
Se o orvalho não o desperta
e o sol o não aquece, logo definha e morre.
Mas se Vós o regais com a doçura
do vosso orvalho e o calor do vosso sol,
da pequena semente plena de vida
e de vigor logo brotarão raízes
e germinará um caule forte e rico de frutos.
 
A quem me compararei, Senhor?
A uma rosa cortada
que na mão que a cortou, logo murcha
e perde o seu belo perfume.
mas se unida ao seu caule
permanece fresca, brilhante
e intacta no seu perfume.
Guardai-me em Vós, Senhor,
e comunicai-me a vossa vida.
 
A quem me compararei, Senhor?
Com a pomba que dá de comer
aos seus filhos,
com a ternura duma mãe
que alimenta o seu filhinho
Salmo composto por Mariam Baouardy,
a B. Maria de Jesus Crucificado 1846 – 1878
 
Ó meu Deus!
Ó meu Deus,
Trindade de Amor no meio do mundo,
Que a partir d´hoje possamos
(já que Tu és nosso Pai e Amigo)
perseverar a carminhar alegremente para Ti!
Consagra o mais profundo centro
da nossa alma,
refugia-Te em nós,
encontra-Te connosco,
para que permaneçamos em Ti,
nos carminhos da Humanidade.
Amen.
Oração à Trindade
de Verónica Parente, jovem leiga Carmelita
[Chama do Carmo - 07 de Junho de 2009]

sábado, 8 de março de 2014

A Missa dos caçadores

 
Não é preciso ser-se sociólogo para ler a contundência dos dados: os cristãos das nossas comunidades estão a abandonar a Missa dominical. A Missa já não é capaz de nutrir a fé da maioria dos cristãos nem os vincula à comunidade como o fez durante muitos séculos. E o mais surpreendente é que vamos deixando que a Missa se perca, sem que tal provoque reacção em nós. Mas afinal, não é a Eucaristia o centro da nossa fé? Podemos permanecer passivos sem tomar alguma iniciativa? Causa-nos isto alguma dor? Por que o não dizemos com mais força? O abandono acontece até entre os que nela participam responsável e incondicionalmente. Que fazer? Estamos a fazer tudo o que podemos?

 Poderemos continuar assim?

(Acabo de chegar das confissões. Ando com a ideia na cabeça e não sei como começar. Falarei de duas confissões.) Uma mãe confidencia-me que dos quatro filhos adultos 3 não vão à Missa, significando com isso o abandono da prática religiosa. Um rapaz confessa-se porque a filha vai fazer a Primeira Comunhão. Na empresa gozam-no porque já não está de moda ser-se Católico. Ele vive na dúvida, mas ainda vai trilhando os caminhos da fé que a mãe lhe ensinou. Ainda assim, vacila. Tem mais dois irmãos, que já não vão à Missa. Domingo vão ao almoço da festa, mas não irão comer da mesa da Festa!

Estamos seguros?

Estamos seguros de que andamos a fazer bem aquilo que Jesus nos pediu que fizéssemos em Sua memória? Como fazer da Eucaristia o centro significativo da vida e a experiência viva e incarnada da Ceia do Senhor? Não sou do tempo das multidões nas igrejas nem me lembro de na nossa Igreja do Carmo se celebrarem oito missas ao Domingo (o dobro das actuais!). Não creio que regressemos ao passado, ou que tal seja sequer desejável. Mas que o assunto me preocupa, isso é verdade! E dói-me a alma sempre que ouço louvar aquelas Missas celebradas às seis da manhã (ou antes!), que se enchiam de gente a transbordar pelas portas e rezadas em quinze minutos! Se me dói... E não é por não saber celebrar assim — coisa que nunca faria! —, mas por, talvez, durante demasiado tempo demasiados padres terem celebrado missas assim e os cristãos a elas se terem afeiçoado. Como é que uma missa assim pode envolver os sentidos, convocar a inteligência, a sensibilidade e a emoção, desvelar o mistério, nutrir sacramentalmente? Sim, sou contra as Missas dos caçadores; embora, por vezes, pouco melhor saiba fazer... E é assim com estas cogitações na cabeça que ando meditando e preparando a Reunião de Encerramento e Avaliação do Ano Pastoral da nossa Comunidade, para a qual se devem sentir convidados todos os colaboradores da nossa acção pastoral e demais amigos e fiéis que se queiram associar.

Actividades que sobressaíram
Entretanto, elenco alguns aspectos dignos de registo maior na celebração do nosso Ano Pastoral. São concretizações fortes (outras nem por isso) que devemos agradecer a todos e sobretudo ao Senhor; que devemos repensar, valorizar e cuidar se se devem repropor. Ficam aqui declaradas para que as possamos meditar durante a nossa semana e as possamos reflectir em conjunto no dia 20, Sábado, pelas 16:00h, na Sala dos Terceiros (Estas e outras que V. entenda que o devam ser; ou até mesmo outros assuntos que lhe possam ter parecido menos positivos):

I. Acções que reapareceram
1. A Chama do Carmo, embora a actual em novo formato e periodicidade semanal;
2. Retiros espirituais nos tempos fortes.

II. Novos propostas e actividades
1. Reunião de Abertura e Reunião de Encerramento do Ano Pastoral;
2. Adoração Eucarística Mensal, que se realiza entre as 13:30h e as 20:00h;
3. Encontros com a Palavra, que sucederam aos Encontro Bíblicos;
4. Coral da Missa Vespertina;
5. Jovens Missionários Kanimambo;
6. Colaboração de mais Acólitos, Leitores e Ministros Extraordinários da Comunhão e Entradas solenes nas Missas dominicais.
6. Convívio com os colaboradores da pastoral da nossa Comunidade (em San Cámpio);
7. Espaço E, ainda que não muito aproveitado;
8. Exposição dos presépios;
9. Surgimento do blog da Chama do Carmo.

[Chamado Carmo - 14 de Junho de 2009]

E depois do Ano paulino?


Era uma noite quente e cansada. Não convidava à reflexão mas a bebidas frescas e ao afago da brisa suave. Ainda assim, na passada Quinta-feira, 18 de Junho, a Sala dos Terceiros encheu-se para escutar o Pe Armindo Vaz, Carmelita Descalço, teólogo e biblista a quem a Academia bem conhece mas desconhecido para os que vivem para além do claustro. Foi um gosto ouvi-lo durante mais de uma hora naquela noite abençoada.Ficaram assim inauguradas As Noites do Carmo, que se espera tragam no futuro quem nos faça pensar, nos centre nas pegadas de Cristo e nos sintonize com o pulsar da história da humanidade e da vida da Igreja. O que propusemos ao Pe Armindo foi que nos falasse do depois da celebração do Ano Paulino. E ele respondeu ao desafio fazendo-nos passar primeiramente por um resumido e sumarento esboço da espiritualidade paulina. Aconselha-se vivamente a consulta do blog da Comunidade e a estudar o breve resumo feito pelo próprio: http://chamadocarmo.blogspot.com/2009/06/e-depois-do-ano-paulino_20.html.

O Apóstolo da comunicação
Julgo que até mesmo entre os que pouco sabem do Apóstolo, dificilmente desconhecerão que foi este o maior propagador da notícia cristã. Todos os outros (nada menos que doze!) falaram para dentro da tradição judaica ou tardaram a sair das suas fronteiras culturais. Paulo destacou-se pela urgência de falar para fora. Foi esse o seu carisma, é isso que todos podemos aprender dele: falar, falar para fora, falar clara e corajosamente da salvação de Jesus, falar para quem desconhece que ela é universal. Apresentar a proposta salvadora de Jesus nos sites, blogues, twitter, hi5, mySpace, flickr e tantos outros canais é tarefa quase por começar, inconclusa e que bem podemos aprender do espírito zeloso de Paulo, que cruzou todas as fronteiras culturais do seu tempo, sem se dispensar de a todas anunciar com frescura a Verdade sempre nova que todos anseiam.

Discípulo incansável e fiel
Era uma personalidade inadiável, inflexível, quase violento. Pelas convicções a que aderiu perseguiu convictamente a Cristo na pessoa dos discípulos, chegando a consentir na sua morte. Derrubado, porém, pela Luz e por Ela iluminado o seu erro, foi um discípulo intransponível, um aríete incansável, ardente como uma fornallha e manso como uma pomba. Bom conhecedor do excesso de ofertas sedutoras e enganosas que o mundo sempre (e ainda hoje) proporciona aos que abraçam a fé em Cristo, Paulo fala e incarna o que fala. Por isso, Paulo a si mesmo se ofereceu como modelo de discípulo e de acção; disse: «Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo.» O tempo urge, a sementeira é sempre ali. Volvido o Ano Paulino e a contemplação do modelo, urge, sem medo, imitá-lo, pois o Apóstolo bem sabia que não basta falar é preciso trabalhar.

O sinal da Cruz
Paulo completa no seu sofrimento o que falta à Cruz de Cristo. À primeira vista tal é inaudito e parece impossível, porém por ele é visto como graça e missão de todos e para todo o sempre. Apedrejado, flagelado, prisioneiro, marcado para morrer, doente, com lágrimas nos olhos e as marcas de Cristo em seu corpo, Paulo sofre com um espinho na carne. Perseguido e fugitivo escapou escondido num cesto, passou por perigos no mar, nos rios, no deserto, nos naufrágios, foi incompreendido pelos irmãos de raça, pelos pagãos e pelos falsos irmãos. Mas todo esse sofrimento lhe trouxe vigor, desassombro e ímpeto missionário. Olhando-o só se pode enfrentar o futuro pedindo a mesma energia indomável, a obstinação missionária, vontade férrea, ternura de mãe, calor humano, generosidade de acção, oração e amor à Igreja. O Ano Paulino só pode fortalecer-nos no compromisso de colaboração mais generosamente da salvação dos irmãos pela comunhão no mistério pascal da Cruz do Senhor.

O fim das diferenças e assimetrias
É convicção de Paulo que a partir de Cristo já não existe mais diferenças entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, entre judeu e grego, entre europeu e africano, entre detentor do poder e os deserdados dele. Aos sem poder pede-lhes que acreditem na vida comunitária e que sejam perseverantes na fé, e que pela união a Cristo se revoluciona todo o sistema social que humilha e explora. Agora vivemos em Cristo, como explicou aos coríntios. Todos somos filhos de Deus; essa é a nova condição que possibilita uma nova visão de cidadania, pela qual ninguém é estranho a ninguém. Na verdade, sempre que se evidenciam as diferenças gera-se divisão, estropia-se a harmonia e fere-se a comunhão e a fraternidade. Para o cristão não existe outro viver e consentir que o de Cristo, e Cristo não pode dividir-se ou contradizer-se.
Depois do Ano Paulino, Cristo só pode crescer.

[ChamadoCarmo - 28 de Junho de 2009]

sexta-feira, 7 de março de 2014

Para o Ano Sacerdotal


Na passada Sexta-feira, dia 19, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus teve início a celebração do Ano Sacerdotal. Desde há um tempo para cá que este é o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. Eis, pois, a razão para o início do Ano Sacerdotal ser neste dia. A razão deste ano tem que ver com uma circunstância providencial. É que, em 2009, ocorre o 150º aniversário da morte de S. João Maria Vianney, o Santo Cura D’Ars. Trata-se de um modelo de padre que se santificou no seu trabalho e na sua missão, ultrapassando toda a sorte de dificuldades que se atravessaram no seu caminho.

O Ano Sacerdotal
O Ano Sacerdotal é um ano de toda a Igreja, de todos os seus membros, porque todos fazem parte de um povo sacerdotal, participando, na medida que lhes cabe, no único sacerdócio de Cristo; e porque o sacerdócio ministerial é exercido, em nome e na pessoa de Cristo, em favor de todos, ao serviço de todos. Por conseguinte, este é um tempo para os sacerdotes revigorarmos a nossa identidade e consolidarmos o nosso serviço no meio do Povo.

O Cura d’Ars
Mas quem foi o Santo Cura d’Ars, que neste Ano Sacerdotal o Santo Padre proclamará Padroeiro de todos os sacerdotes? Henri Gheon, poeta e dramaturgo francês, que morreu 50 anos depois de S. João Maria Vianney declarou o seguinte: A vida do Cura d’Ars é tão singela e cheia de ingenuidade que podia contar-se como uma história da Carochinha, começando assim: Era uma vez na França, na província de Lião. Ali vivia um pequeno camponês cristão que, desde menino amava a solidão e o bom Deus. E, sendo que os senhores de Paris tinham feito a Revolução, impedindo o povo de rezar, sucedeu que o menino e seus pais iam à Missa que era celebrada no cantinho de um celeiro. Naquele tempo os padres escondiam-se, porque quando eram presos cortavam-lhes a cabeça. Foi por isso que João Maria quis tornar-se sacerdote. Na verdade, ele sabia rezar mas não tinha instrução alguma. Guardava as ovelhas e trabalhava nos campos, mas entrou tarde demais no Seminário e fracassou em todos os exames. Mas as vocações eram tão escassas que o ordenaram sacerdote. Foi nomeado pároco de Ars e lá ficou até à morte: Era o último cura (pároco) de França no último lugarejo de França. Mas foi totalmente Sacerdote, e isso já não era tão frequente. Foi Cura tão totalmente que o último lugarejo de França teve o primeiro Cura de França, e a França toda viajou para o ver. Convertia quem se ajoelhava a seus pés e se não tivesse morrido, teria convertido a França inteira e até mais! Enquanto viveu nunca compreendeu por que o consideravam assim. E isto só prova que ele mereceu o reconhecimento que lhe concederam. Tudo isto sucedeu no século XIX, que no Paraíso a onde se conhece o justo valor das pessoas, é chamado o Século do Cura de Ars, mas a França não soube nem imaginou isso.

Ser padre é dar a vida
Os episódios aqui referidos são reais. O pequeno camponês tinha apenas sete anos quando na França reinava o rei Terror e os sacerdotes eram condenados ao exílio ou à morte, se não se submetessem ao cisma. As tropas da Convenção marchando sobre Lião para reprimir aquela insurreição, passaram pelo lugarejo de Dardilly onde João Maria vivia. A igreja paroquial foi fechada, o pároco cedeu e aceitou todos os juramentos da Revolução e pouco tempo depois abandonou a batina. Os Vianney passaram de vez em quando a arriscar a vida dando abrigo a padres clandestinos; e é assim que num quarto com janelas tapadas e escondidas por uma carreta de feno aí deixada como por acaso (e com os camponeses fazendo guarda) João Maria pôde receber a Primeira Comunhão aos treze anos. A vocação sacerdotal nasceu-lhe muito cedo, quando ele percebeu que tornar‑se padre significava estar preparado para dar a vida a fim de cumprir o próprio ministério.

Um ano sacerdotal para quê?
A solicitude pastoral do Papa Bento XVI concede à Igreja um Ano Sacerdotal. E para quê, perguntarão alguns? Para melhor contemplarmos e agradecermos o dom do sacerdócio. Para rezarmos e pedirmos mais sacerdotes; mais e mais santos, mais fiéis e perseverantes, e segundo a solicitude do Seu coração. Para procurarmos desvelar a riqueza e beleza da consagração do sacerdote que a si mesmo todo se oferece aos outros (e não apenas os cristãos). Para com eles trilharmos os caminhos da santidade, a finalidade da nossa vida, porque, se uma comunidade ficar sem padre em pouco tempo ali se adorarão os animais. Disse-o o Cura de Ars.

[Chama do Carmo - 21 de Junho de 2009]

«Não Vos importa?»


No Domingo do Bom Pastor, o IV de Páscoa, a Igreja celebra mundialmente uma jornada de oração pelas vocações. A acuidade desta jornada é tal que não é jornada dum só dia, mas duma semana. É alias, uma tarefa de toda a vida. É uma intenção que alguns de nós mantêm viva enquanto têm forças no corpo e na alma. Este Dia ajuda a recordar que todos os dias precisamos todos de rezar pelos operários que se dedicam às grandes messes da humanidade inquieta, para que mais mãos e mais corações operários a elas se dediquem. Bento XVI escreveu uma Carta para este Dia falando-nos da confiança que havemos de ter na iniciativa de Deus e da atenta resposta humana. Mas o que mais ressalta no conjunto de subsídios para este Dia talvez seja a Oração pelas Vocações. Parece diferente. Não sei quem seja o autor da dita Oração. Provavelmente é obra duma equipa de trabalho, mais que dum indivíduo. Concerteza que não é anónima, mas comunitária e eclesial; para ser rezada aqui, ali e além, nas diferentes comunidades. Ouvi-a bastas vezes no www.myspace.com/vocacoes. Pareceu-me diferente: chama-se Dai-nos rostos claros. A oração é sempre dirigida ao Deus do diálogo que na carta que nos dirigiu, a Bíblia, escreveu algum dia: «Eu tenho as minhas delícias em estar com os filhos dos homens». A oração deste ano pelas vocações acho-a mais bela, por me parecer mais diálogo e diálogo mais realista. Parece ter em conta esse gosto de Deus estar connosco, como se vê, por exemplo, na promessa de Jesus: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos». Deus tem muitas maneiras de estar connosco. Está nos sacramentos, mas também na pobreza e na virgindade consagradas, nos que oram sem cessar, nas mãos que tocam com carinho, nas vidas que se desgastam como velas de altar. Mas que diálogo é esse que tanto me impressiona?

«Nós sabemos que as vocações são um dom»
Nesta oração, dirigimo-nos a Deus dizendo-Lhe essa verdade imensa que O reconhece como Senhor de tudo, e que tudo chama à vida. Dele tudo vem, a Ele tudo vai. É uma verdade simples, mas não existe melhor atitude que a simplicidade quando se está (como um pobre) diante de Deus!

«Rostos claros de pessoas felizes»
Pedimos depois que atenda a nossa prece; e nela vai toda a urgência de mais operários e mais apóstolos, para serem enviados aos deserdados do Evangelho. Esta oração pelas vocações denuncia vontade de partilhar, nunca de amealhar. Porém, não pede sem mais, antes qualifica o que pede (e a necessidade sentida): Corações puros, testemunhos santos, rostos claros. É sugestivo o pedido de rostos claros: Talvez se subentenda aquele provérbio que diz que o rosto é o espelho da alma. Ora, almas claras são como lâmpadas na noite, como focos na cabeça de mineiros escuros, como faróis que rasgam noites tempestuosas! (Faz mesmo sentido rezar assim!)

«Não Vos importa que nos faltem?...»
A segunda parte da oração é mesmo ousada! Parece um queixume, uma denúncia, ou até simples desmesura em forma de grito desesperado dum naufrago.
É pura ousadia! Há quem julgue que com Deus não se fala assim. Talvez seja verdade. Mas também é verdade que nos faltam mestres de paciência; apóstolos que sinalizem a beleza profunda — qual Bela adormecida! — dormindo no mais profundo centro de nós mesmos; operários e artesãos que conheçam e saibam pôr-nos em sintonia com a voz do Bom Pastor. E se nos faltam convém que os peçamos com a simplicidade dum filho a pedir ao pai! Não que Deus não saiba, porque Deus bem sabe o que (mais) precisamos. Não é por isso que rezamos. Na verdade, não precisamos de acordar Deus ou lembrá-lo das nossas necessidades. Deus não é tão mesquinho, tão raquítico. Deus é como uma torrente avassaladora que dia a dia, e até quando dormimos, se vai derramando sobre nós. Que devemos fazer para beber da sua água? Abrir‑nos, simplesmente abrir a nossa taça, limpá-la dos engulhos que a atulham, colar as gretas que a negam a si mesma. Sim, vale a pena pedir a Deus com veemência: com o sentido de que quem mais precisa de ser informado é quem pede, não a Quem se pede...
«Cumprindo as indicações de Jesus»
E cumprindo as indicações de Jesus que nos ensinou a pedir, interceder, insistir..., que nos disse que o Pai dará o que é bom a quem Lho pede. É isso que havemos de fazer: bater à porta de Deus e à porta dos corações fortes, despojados e livres para O seguir. Não suceda que fiquemos morrendo de sede, sob a Torrente, com uma taça furada na mão! Eis a razão pela qual rezamos: Temos sede e já quase não sabemos que temos sede!

[Chama do Carmo - 3 de Maio 2009]

quinta-feira, 6 de março de 2014

O Espírito Santo, esse Deus desconhecido e Amor mal-amado!


Já mais que uma vez me perguntaram o nome do meu Deus. E até mesmo cristãos, mo perguntaram por entre confusões e perplexidades. O nome do nosso Deus é Pai. Belo nome para Deus: Pai, Origem, Fonte. E é Filho e Espírito Santo.
Diz-nos a Teologia, suportando-se da Revelação, que o nosso Deus é Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Não há nesta proposição de fé qualquer degradação, como se um fosse menor que outro (embora seja algo inadequado falar de um e de outro!).
É certo, porém, que ao aderirmos a Deus fazemo-lo mais facilmente ao Pai e ao Filho, que ao Espírito Santo; Deus Pai e Deus Filho são figuráveis em categorias humanas, logo de mais fácil adesão.
O Espírito mais frequentemente figurado numa pomba, em vento, água ou fogo, é a real manifestação do Pai e do Filho, visível num abraço que ambos se dão e em que nos envolvem. E ainda assim, apesar desse abraço amoroso que nos dão, o Espírito permanece desconhecido e mal-amado!
No capítulo 19 dos Actos dos Apóstolos conta-se brevemente um contacto havido entre o Apóstolo Paulo e um grupo de discípulos baptizados no baptismo de João Baptista. Quando o Apóstolo lhes perguntou se tinham recebido o Espírito Santos, eles responderamsingelamente: — Mas nós não sabemos quem é o Espírito Santo; nunca ninguém nos falou d’Ele!
Sim, de facto, ainda hoje, muitos baptizados continuam sem saber quem é o Espírito Santo, a viver a sua vida cristã sem se relacionar com Ele, desconhecendo que Ele é o doce Hóspede da alma. De cada alma! Ainda hoje o Espírito Santo é o Grande Desconhecido e um Amor mal amado! Ele não é um poder ou influência, nem uma energia, ou um fogo que se desaba sobre nós. Tem características pessoais, é uma Pessoa divina, isto é, tem características que lhe conferem uma identidade própria. Não desconheçamos o Espírito Santo, porque é o Espírito quem nos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido (Cfr João 16:13);
porque é o Espírito quem nos assiste nas nossas fraquezas, pois não sabemos orar como convém (Cfr Romanos 8:26);
Não é uma criatura, é Deus. Frequentemente rezamos ao Pai e ao Filho, e esquecemos o Espírito. Com razão, Paulo recomenda: Não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção (Efésios 4:30).
Se o Espírito Santo fosse uma criatura, então, como diz SantoAtanásio: «Não teríamos comunhão com Deus n’Ele; pois seríamos estranhos à sua natureza divina.»
Jesus declarou que ia enviar Aquele que o Pai prometera. Por isso, é o nosso Hóspede, e bem íntimo a nós, e nós o seu templo. É o Consolador, o grande dom prometido de Jesus. A tal ponto isso é verdade que só é possível uma vida cristã responsável e madura pelo crescimento em nós da graça de Deus, activado pela acção do Espírito Santo; de facto, diz-se no Livro dos Actos dos Apóstolos, que na primeira Igreja — e assim ontem, assim hoje —, os discípulos «perseveravam todos unidos na doutrina dos Apóstolos, na comum fracção do pão e nas orações».
O Espírito Santo é o selo de Deus, mas mais valeria dizer que, por culpa ou distracção nossa, é o Divino Ausente, Desconhecido e mal-amado, pois que, quem amará o que não conhece?
A 13 de Novembro de 1983, o Papa João Paulo II, beatificouMariam Baouardi (1846-1878), nascida cristã na Galileia, e depois a humilde e inculta carmelita descalça Ir. Mariam de Jesus Crucificado. Pouca gente sabe quem ela foi. Foi mais uma discípula do Profeta Elias, com gosto pelas coisas simples e capaz de reconhecer a presença do Espírito na brisa suave.
Sendo o Espírito Santo para muitos da Igreja o Grande Desconhecido, esta humilde carmelita da Galileia era testemunha da sua acção e do seu culto. Para ela não havia oração válida sem que o Hóspede divino viesse «duma maneira ou de outra». Uma vez escutou uma voz do Céu, que lhe disse: «Se Me queres conhecer e seguir, invoca o Espírito Santo, que iluminou os Discípulos e continua a iluminar todos os que O invocam.» Com ela rezemos a sua oração ao Espírito Santo, que se tornou célebre um século depois que ela a aprendeu do seu Bem-amado:
Espírito Santo, inspirai-me.
Amor de Deus, consumai-me.
Pelo verdadeiro caminho, conduzi-me.
Maria, minha mãe, olhai-me.
Com Jesus, abençoai-me.
De todo mal, de toda ilusão,
de todo perigo, preservai-me.
Amén.

[Chama do Carmo - 31 de Maio 2009]

quarta-feira, 5 de março de 2014

São Nun'Álvares Pereira, herói e santo


Em Portugal é mais conhecido por Beato Nuno, mas também era conhecido e invocado como Santo Condestável. À sua morte no dia 15 de Agosto de 1425, deram voz em Lisboa que tinha morrido o «Santinho do Carmo», morrera Frei Nuno de Santa Maria. Choraram-no os grandes e os pequenos; o povo, os militares e os reis. E sobretudo os pobres.
Hoje, Domingo, 26 de Abril, a Igreja proclama-o santo, isto é, digno de culto universal dos fiéis, seu intercessor e modelo do seguimento de Jesus Cristo. A nossa alegria brota daqui: aquele que há séculos era o pai dos pobres de Lisboa é-nos hoje re-apresentado como pai no céu. Pai, amigo, irmão, intercessor, padroeiro, porque o nome é o que menos interessa.
Nuno Álvares Pereira nasceu em Cernache do Bonjardim (ou no Crato) no dia 24 de Junho de 1360. É um dos 26 filhos de D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Crato, da Ordem do Hospital de Jerusalém.
Aos 13 anos entrou na corte de D. Fernando, como pagem da rainha D. Leonor Teles.
A sua juventude ficou marcada pela bravura frente aos castelhanos que cercaram Lisboa. Foi de seguida armado cavaleiro pela própria Rainha, revestido com as armas do futuro D. João I.
Aos 25 anos foi nomeado por D. João I como Condestável de Portugal, a figura militar mais elevada do Reino. Logo de seguida conquistou o Minho para a causa da coroa portuguesa, e a 14 de Agosto de 1385 desbaratou o exército castelhano em Aljubarrota.
Ao serviço do Reino foi militar invencível, ao ponto de a ele se dever a independência.
Como homem, militar e cristão sobressaem em D. Nuno a sua integridade moral, a entrega à causa nacional, a piedade cristã, lealdade, valor, justiça. Por isso, e mais, lhe chamam herói e santo; herói da nação e santo da Igreja. E se hoje espanta que os epítetos andem juntos, não assim naquele tempo.
Depois de ter assegurado o Reino contra a sofreguidão de uns e a descrença de muitos (menos do povo humilde), senão de todos e até do Rei D. João I, entregou-se a outras causas, sobretudo à piedade e à caridade.
Em Lisboa construiu o Convento do Carmo, que ficou concluído em Julho de 1389. Em 1414 morreu-lhe a filha Beatriz, a única que lhe deu herdeiros; em 1415 participou na expedição a Ceuta, porta da gesta expansionista ultramarina.
Em 1422 distribuiu os títulos e propriedades pelos netos e seus lugar-tenentes e um ano depois, a 15 de Agosto de 1423, com 63 anos de idade, professou no Carmo como simples irmão Carmelita. Viveu como Carmelita 8 anos, embora há muito se tivesse consagrado a Nossa Senhora e à causa da oração e dedicação aos outros. Passou sete anos a pedir esmolas como um pobre, pelas ruas da Capital com um saco na mão, a fim de socorrer o Convento e os pobres. A todos deu bom exemplo de oração e penitência, de amor aos pobres e a Nossa Senhora do Carmo. Na Nota Pastoral dos Bispos de Portugal, de 6 de Março, sobre a sua canonização destaca-se: o valor do homem de Estado que serviu a Nação; o valor do cidadão que escolheu ser solução para uma sociedade em crise; o valor do discernimento: até mesmo quando era poderoso e rico, soube, humilde, entregar-se à causa dos pobres e dos fracos; o valor da atenção ao clamor dos necessitados e do auxílio pronto que sempre e incansavelmente lhes outorgou.
A Igreja portuguesa (e a Universal) e Portugal alegram-se com esta canonização. Não é para menos: os tempos são similares; ambos são de crise. Mas o nosso perde porque lhe falta um Dom Nuno, que, oxalá nos há-de socorrer do Céu!

[ChamadoCarmo - 26 de abril de 2009]

90º capítulo Geral


Teve lugar no dia 17 de Abril, a abertura oficial do Capítulo Geral da nossa Ordem, que decorrerá até ao próximo dia 8 de Maio. O 90º Capítulo Geral decorre em Fátima e é o segundo que acontece no nosso País, depois de em Maio de 1585 se ter realizado o primeiro, no Convento de São Filipe de Lisboa (haveria de ser concluído em Pastrana, Espanha), com a presença de São João da Cruz. O de Lisboa elegeu Provincial (na prática, Geral) o Prior do Convento de Génova, Frei Nicolau de Jesus Maria Dória.
O 90º Capitulo pode ser acompanhado num site criado para o efeito, com actualizações constantes. Este site dispõe dum canal de comunicação directa para que todos os que desejem possam entrar em contacto com a Assembleia Capitular e fazer chegar as suas mensagens. O tema geral é ‘Para vós nasci’, por forma a antecipar as celebrações o V Centenário do nascimento de S. Teresa de Jesus.
Pode aceder através da seguinte morada: http://www.carmelitasdescalzos.com/capitulo.
«Vossa sou, para Vós nasci, que mandais fazer de mim?» é o refrão dum poema-canção de Santa Teresa de Jesus. É também o mote do 90º Capítulo Geral da nossa Ordem, reunido em Fátima. É ainda a alavanca certa para as celebrações do V Centenário do nascimento (1515) da Santa Fundadora. Este mote ou lema recorda-nos que ao nascer nascemos para os outros e para Deus, e que ser Carmelita é ser‑se para a Igreja e para o mundo.
A fecundidade criativa de Teresa acontece em Castela-a‑Velha e sobretudo a partir de 1560, até à sua morte em 1582. O seu lugar ocupa-o ela como capitã na senda das propostas do Concílio de Trento, que vira rasgada a unidade da Igreja. Teresa, em ponderado contraponto ao rasgamento, oferece à Igreja uma proposta carismática de vivência da fraternidade e da contemplação ao serviço do Reino. Sabia-se testemunha, amiga e esposa de Cristo, mas sempre ao serviço da Igreja; e por isso dirá: «Em matéria de fé, eu preferia morrer mil vezes do que opor-me a qualquer coisa da Igreja ou a qualquer verdade da Sagrada Escritura.» (Livro da Vida 33:5)
A sua vida será contemplativa, activa, fecunda. E será assim que contagiará a muitos e a muitas, arrastando-os em pós si. E à medida que irá crescendo na companhia Daquele que sempre nos acompanha, arrastará outros para a conjugação em profundidade desse diálogo de amigos, para a defesa da Igreja, para o serviço de Sua Majestade, porque, como dirá, só se pode dar razão certa daquilo que se faz experiência! E é assim que a vida carmelitana se renova enquanto vida de oração com propósito apostólico, conquanto seja solidária com a vida dos defensores da fé: anunciadores, pregadores, professores, catequistas, teólogos, missionários.
Enfim, a vida de Teresa é uma experiência intensa de Deus e de Cristo que ela injecta nas suas comunidades, por palavras e por escritos, para satisfazer as urgências eclesiais que se faziam sentir na velha Europa de então e não só.
Um Capítulo Geral com tudo o que o envolve (oração, propostas, reflexão, anseios, decisões) é um serviço que uma comunidade de irmãos presta à Igreja; é um acto cujos frutos brotam no tempo muito além do seu acontecer. Assim sendo, o 90º Capítulo Geral deveria constituir-se como uma humilde tentativa de resposta aos homens do nosso tempo marcados pela falta de fé e pela busca inquieta de respostas para o sentido da vida. Assistimos nos tempos que correm a um despertar religioso e a uma busca espiritual nem sempre bem dirigidos e as mais das vezes buscando saciar-se em fontes que à sede só acrescentam sede e mais sede.
Faltam, sentimo-lo, testemunhas credíveis da amizade com Deus, testemunhas do terno abraço do Amigo, testemunhas para quem falar Deus e levar para Deus seja tão urgente como matar a fome e vestir o nu, porque uma e outra tarefa se implicam e ambas complementam o mandamento maior do amor.
A fé cristã é co-edificadora de sociedade, ainda mais em tempos de crise. Apesar de traídos pelos nossos consócios que levaram muitos à ruína, precisamos de colaborar com eles e com todos, e de acreditar que Deus quer o bem da Humanidade e que se recusa a abandonar-nos aos tubarões!
São, pois, necessárias comunidades onde o Espírito Santo exponencie a experiência do perdão como alavanca de re-criação do mundo.
Tomé — no Evangelho deste Domingo, João 20:19-31 — ousou pedir um encontro pessoal com o Ressuscitado, sem se fiar da experiência que os outros lhe contavam. E Jesus deixou-se tocar por aquela honesta incredulidade, aceitando assim que por essa via qualquer um de nós o possa experimentar vivo em sua vida. É como se dissesse algo parecido ao que mais tarde disse Teresa: Para vós nasci, para vós ressuscitei. (Como disse Teresa e tem de dizer qualquer um de nós, com os olhos rasos e o coração alegre, ambos postos no Ressuscitado e para serviço urgente do outro.)

[Chama do Carmo - 19 de Maio de 2009]

terça-feira, 4 de março de 2014

Ressuscitou!


Pela madrugada,
quando nasce a luz para anunciar o novo dia:
Bendito sejas, ó Deus criador,
que fazeis germinar a vida nas trevas!

Na Primavera, quando canta o sol
para que de novo floresça a nossa terra:
Bendito sejas, ó Pai de Jesus Cristo,
que quebrais a pedra dos túmulos!

E quando cai a tarde
sobre o infinito dos nossos caminhos:
Bendito sejas, Deus escondido,
por Jesus, que foi para junto de Vós!

Como o grão de trigo jaz escondido na terra
até que chegue a Primavera:
assim a nossa vida escondida em Cristo
está esperando o seu regresso.

E como pão que se reparte ao anoitecer
no fim dum caminho que recomeçará amanhã,
a nossa fé reconhece que ressuscitou
Aquele que nos dá o seu próprio corpo!

Porque havemos de chorar a sua morte,
se Ele caminha à nossa frente?
O dia vai nascer e gritar a esperança
e a nossa terra vai dar o seu fruto.

Pai de Jesus Cristo, nós acreditamos
com os que acreditam sem terem visto,
com os que buscam sem desfalecer,
com os que pequenos e humildes de coração.

Nós acreditamos:
que Jesus vive e é fonte de vida,
que o seu Corpo é o pão que nos une a Vós,
que o seu Sangue é o vinho duma festa secreta.

Pelo Espírito do vosso Filho, nós Vos pedimos
que guardeis os vossos fiéis na fé.
Que sejamos testemunhas do mistério escondido
que um dia revelestes no silêncio duma manhã,
quando tomastes pela mão o Primogénito
para que fosse a esperança dos homens
que n’Ele morrem e n’Ele renascem.

Dai graças ao Deus da vida: Aleluia!
De madrugada foi retirada a pedra: Aleluia!
Cristo já saiu do sepulcro: Aleluia!

No primeiro dia da semana: Aleluia!
Jesus vem para junto da sua Igreja: Aleluia!
As mãos e lado mostram a vida: Aleluia!

Dá-nos a paz e o Espírito Santo: Aleluia!
Envia-nos a anunciar a esperança: Aleluia!
Felizes os que crêem sem ver: Aleluia!

A morte foi vencida pela vida: Aleluia!
A vida está escondida em Cristo: Aleluia!
Erguei o vosso coração: Aleluia!

Estava morto e vive eternamente: Aleluia!
Ergueu-se glorioso do túmulo: Aleluia!
Eis o dia da paz infinita: Aleluia!

Ide dizer aos que têm medo: Aleluia!
Que Ele vai à frente do caminho: Aleluia!
Para nos preparar a mesa: Aleluia!

Louvai a Deus partilhando o pão: Aleluia!
Dai graças elevando o cálice: Aleluia!
Eis o corpo e o sangue do Amado: Aleluia!

Acabe a morte, venha a graça: Aleluia!
Brote a paz em nossos dias: Aleluia!
Dai graças ao Deus da vida: Aleluia!

Bendito sejais, Senhor nosso Deus: Aleluia!
Que o céu e a terra Vos cantem: Aleluia!
Hosana pela festa sem fim: Aleluia!

Nós Vos damos graças, ó Deus nosso Pai,
por Jesus, o Filho, vossa palavra e vosso rosto.

Ele é o caminho que nos leva até Vós;
N’Ele habita toda a verdade
e ninguém pode conhecer o seu Nome
se não permanece em Vós, ó Pai.

Sim, nós proclamamos que em Jesus, vosso Filho,
se manifesta a vida
e que n’Ele renasce para todos
a esperança da paz sem fim.
Em comunhão com o céu e a terra,
nós Vos bendizemos, ó Deus vivo!
Amen.

[Chama do Carmo -12 Abril 2009]

Chegou a hora de Jesus!


O Evangelho de São João poderia chamar-se o Evangelho da Hora de Jesus. Ao longo da narrativa evangélica várias vezes Jesus vai referindo: «Ainda não chegou a minha Hora».
Nos treze curtos versículos do Evangelho do domingo passado, falava Jesus cinco vezes da sua Hora, e em três delas declara: «Chegou a Hora».
Chegou, pois a Hora de Jesus. Chegou o agora temporal onde se faz presente o hoje eterno de Deus. Chegaram os dias em que Deus «estabelecerá uma nova aliança com a casa de Judá».
Existe, portanto, a Hora de Jesus com cujo sangue se sela a Nova Aliança, e existe também a nossa hora, que, paradoxalmente, viveobnubilada pelo poder das trevas.

A hora do Cordeiro
Segundo São João, o Evangelista, Jesus entregou a sua vida na Cruz, realizando o seu sacrifício supremo na mesma hora em que os judeus imolavam o cordeiro pascal que seria comido na Ceia da Páscoa.
João organizou o seu Evangelho fazendo convergir tudo para a Hora, a Hora da glorificação de Jesus, que passa justamente pela porta estreita da sua tremenda Paixão.
Ao se aproximarem os dias da memória da Paixão de Jesus, pergunto-me: por onde andarão a nossa cabeça e o nosso coração, se não considerando que foi Ele homem de dores, que tremendamente sofreu o martírio mais injusto? Como poderemos viver todos os dias por igual — mais cinzentos, que azuis! —, sem assumir que Ele padeceu, recusando-se a viver impassível e estóico como um super-homem?
Sim. Jesus partilhou todos os nossos sentimentos de dor, medo, angústia, dúvida, lamentação e crise existencial. Em chegada a hora, até Jesus tremeu! E quem não tremeria?

O mediador solidário
E só pode surpreender-se que seja assim, quem ainda não percebeu que Jesus comungou profunda e solidariamente a nossa vida. Ele medeia e dá a vida como um Pontífice que bem conhece de experiência as nossas debilidades e temores. E é por isso que se recusa a pairar sobre a história, preferindo antes, ao ser chegada a sua Hora, oferecer o seu corpo ao impoder do terror.
Páscoa significa combate e vitória contra o mal e o pecado. É a hora da Cruz, porque não existe Páscoa sem Cruz. É a Hora de Jesus, a Hora terrível do julgamento e da expulsão do príncipedeste mundo, que está sentado num trono de arrogância, tem no coração uma pedra negra e dura, cinge-o uma coroa de corrupção e de assassínios e o seu ceptro férreo de injustiça e opressão dos humildes.

A hora do combate
A Hora é agora. E já soaram as trombetas convocando para o combate. A batalha
— à partida ganha, mas sem o sabermos —, tem lugar no corpo triturado de Jesus,
oferecido aos crentes como prova da Nova Aliança entre o Céu e a Terra.
Ele combate, Ele vence por nós. Mas a sua vitória é a sua derrota: é sua a morte às mãos do Inimigo. Porém, confiemos, Ele vence, porque não se ama a si mesmo e soube perder a vida em favor de muitos irmãos.
Se Jesus veio ao mundo que antes criou para, precisamente, nele suceder esta Hora, como, — perguntaremos nós —, como havemos de excluir-nos dela, deixando-O só no combate?

O momento de crise
A Hora é o momento da decisão, é o momento crítico do mundo que quer viver afoito e
despreocupado, de si mesmo para si mesmo. Fechado em bolha de mais vale assim que pior. Enclausurado, como se não existisse sentido se não em si. E é assim que do mundo vai ficando
excluída a ideia da salvação vinda de Jesus, tal como do coração de Jesus, gota a gota, se exauriu a vida. O sentido da vida vem de Jesus, que se deu ao combate por nós, para nos ganhar resgatando-nos ao Inimigo.
A vida cristã é união com Cristo. E se Ele não poupou a sua, também o discípulo não a
poupará nem esconjurará a sua hora, pois não está dispensado do sofrimento nem da decisão pessoal. Também temos a nossa hora!
Jesus não faltou à Hora. Não houve desacerto ou desencontro algum. A Hora da glorificação está próxima, e passa pela Cruz. Quantos discípulos não se espantam com o horror da Hora e fogem, desertando do caminho!
Sim a abençoada Hora chegou, já estamos a viver nela. Porquê fugir? Para onde fugir?

[Chama do Carmo - 5 Abril 2009]