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quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Zaqueu

Caiu-me novamente em mãos o texto de Zaqueu.
Caiu-me nas mãos e nos olhos. Pelo menos.
E saiu-me este comentário: É no que dá meter-se com Jesus!
Vocês sabem do que falo!, como diria o outro.
Veja-se o que disse:
— «Se causei algum prejuízo a alguém,
restituirei quatro vezes mais».
A Lei ordenava restituir o dobro. Zaqueu promete restituir duas vezes o dobro do que roubara e que era exigido pela Lei.
É no que dá meter-se com Jesus!
E já antes prometera:
— «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens».
É o que eu digo:
deveria haver mais homens pequeninos no mundo a querer ver Jesus.

Um programa de vida

Não acordes
sem olhar a natureza e louvar o Criador.

Não comeces o dia
sem dizer ao coração: amar é trabalhar.

Não sorrias a ninguém
sem manifestar a Deus a tua gratidão.

Não fales ao próximo
sem intenção de ouvir o que ele diz.

Não acolhas o sofrimento
sem pousar os olhos na Cruz.

Não repares na injustiça
se uma mão cheia de perdão.

Não caias segunda vez
sem um sinal de arrependimento.

Não olhes o próximo
sem o propósito de ver nele o positivo.

Não ganhes vantagem
sem te mostrares humilde.

Não passes pelo pobre
sem uma mão cheia de generosidade.

Não olhes para quem sofre
sem um gesto de conforto.

Não adormeças
sem fazer o teu exame de consciência.

(D. Augusto César)

Ainda não é Natal

Como é costume, estão a meter-nos o Natal pelos olhos dentro.
E como o Natal é luz (É o nascimento da Luz!), então a coisa é complicada. Não vamos dormir até depois do Natal.
Eu compreendo que o comércio, especialmente o pequeno comércio, o de bairro, tenha de vender. As dificuldades e a concorrência são muitas. E compreendo que se tenha de erguer uma árvore do tamanho da Torre dos Clérigos para promover a saída do dinheiro do bolso.
O que já não compreendo é que ainda não tinha terminado o Verão — portanto, em meados de Agosto — e já havia anúncios na televisão com música natalícia. A mensagem era óbvia.
Espiritualmente ainda nem chegamos ao Advento, que é o tempo de preparação do Natal. Ainda falta mais de uma semana. Por isso, quando nos preparamos para preparar o Natal já estaremos cansados.
Está bem que o Natal seja quando Deus quiser. Mas para quê erguer vozes, luz, músicas e árvores tão altas se depois a torre fica lá e o resto desaparece?

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Quando alguém reza

«Quando alguém reza, algo muda no mundo». (S. Teresa Benedita da Cruz)

De quem é a ignorância?




O ramo de amendoeira

Não me passou ao lado a ordenação episcopal de D. António Couto. Mas por alguma razão o blog se chama depois da hora.
Não me surpreendeu a sua eleição para Bispo. Não me surpreendeu a escolha do seu lema episcopal.
Antes de ser bispo foi poeta e homem enfarinhado na Palavra de Deus.
E só pode continuar a sê-lo.
Vejo um ramo de amendoeira é um lema feliz, porque esperançoso.
A amendoeira floresce no Inverno. É quase um atrevimento só seu.
Obrigado, D. António, pelo atrevimento de nos recordar a esperança
na fragilidade duma flor nascida na invernia.
Vejo-o hoje ainda sem jeito de bispo numa fotografia duma revista. Olhando-a, dir-lhe-ei: Não queira outro jeito se não o de experimentar ver, pensar e dizer o bem, o belo e o bom.
Deus o abençoe.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Mais mas não muito mais

Mais mas não muito mais, em http://carmojovem.blogspot.com/.

Por que não vou à Missa

Conhece-se uma carta dos tempos de crise de São Rafael Kalinowski, onde ele aduz as razões para não ir à igreja. Diz: «Ninguém vai. Dos meus colegas e companheiros ninguém vai. Daqueles que são do meu estatuto social ninguém sabe o que é uma igreja. Rir-se-iam de mim se soubessem que ia à Missa. É por isso que não vou. Para que não se riam de mim, pois teria vergonha.»
É ainda hoje a razão mais válida para muitos. O escárnio.
Agora que o temos no Céu; agora que sabemos que ela bom; agora que o sabemos mais anjo que homem; agora, talvez percebamos o seu caminho. E talvez nos apressemos a percorrê-lo.
Assim queiramos, que Deus ajuda.

S. Rafael Kalinowski

É hoje dia de S. Rafael Kalinowski. É polaco. E Carmelita Descalço. No passado dia 15 cumpriram-se 100 anos da sua morte, mas celebraram-se hoje.
Dele disseram muitas coisas: que a sua vida era bela, que passou pela Terra fazendo o bem, que era mais anjo que homem. Era tudo isso. E mais.
Aos 17 anos deveria ter entrado no Noviciado dos Capuchinhos. Mas não teve coragem. Acabou perdendo a fé.
Foi capitão do exército russo, que trocou pelo da sua pátria, a Polónia. Acabou combatendo os russos. E perdendo. Condenado à morte comutaram-lhe a pena para 10 anos de degredo na Sibéria. Era quase a morte. Não morreu. Combateu-se a si até Deus vencer.
Regressado à pátria pediu para entrar no Noviciado dos Carmelitas Descalços. E entrou. Tinha 42 anos. Foi ordenado sacerdote aos 47.
Nasceu em 1835, morreu em 1907. Era hora de ir descansar. Hora merecida.

sábado, 13 de outubro de 2007

H

O fenómeno da moda são os blogues. Como não sou sociólogo não poderei dizer se vamos atrasados, adiantados ou como o costume: assim assim. Esta noite o H. mandou-me um mail informando-me do novo blog. (Entretanto, tem outro de que eu me percebi — não é difícil!, sem dele me ter falado...) O título é uma coisa parecida com Eis-me aqui. No H. não me estranhou a referência. Fui ver. Ainda não tinha começado. Havia apenas uma breve declaração de interesses. Descobri então o outro e dei uma olhada. Percebi ali que entre os garotos blogueiros da Comunidade há um jogo; tipo — como eles dizem — tipo: 7 coisas em que sou bom, 7 coisas em que sou mau..., e por aí adiante.
O H. declara que a sexta coisa em que é bom é: «Rezar». Assim só, simplesmente. Rezar. Boa, H., pensei! Boa. É boa mesmo. Não pensei encontrar tal surpresa, mas encontrei. E na pessoa do H., como já disse, nem me estranhou.
Como estamos nos dias de Santa Teresa de Jesus, nossa mãe, lembrei-me do que ela ensina sobre a oração (registo só isto o ensinamento mais curto, para não complicar): «A oração é um diálogo de amigos, estando-se muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama». É isso mesmo, H., vai por esses blogues todos — e são tantos como as areias do mar! — e diz que gostas de rezar, que és mesmo bom a rezar. Oxalá todos sejam teus amigos, que quem não sabe de amigos e de amizades não sabe de oração. Pelo menos ao jeito de Teresa, claro. Vai, que haja muitos amigos na tua vida. Junta-te a eles, para que eles façam de ti um mestre da arte de rezar. Força, junta amigos que saibam rezar. E se não souberem, pelo menos que saibam de amizade. Depois será fácil rezar. Se há tantos que se juntam para dizer e fazer o mal, porque não haveríamos nós de querer o bem e lutar por ele juntamente com os amigos que ajuntamos? É por isso, H., que eu te digo: Vá, força, faz muitos amigos, escreve em todos os blogues e não tenhas vergonha de dizer — nem que seja em sexto lugar — que sabes rezar. Eu julgo que sim, pois conheço muitos dos teus amigos e o apreço que têm por ti. Ah! Só mais uma coisa e com ela termino. Depois da amizade que faz bem à oração (e ao coração) a nossa Santa Madre pedia só uma outra coisa: «Só vos peço uma coisa: que O olheis!». E é claro. E é justo. Como poderíamos gostar de rezar e de ter amigos se não incluíssemos o melhor amigo no nosso círculo de amigos? Se não gostássemos d’Ele. Ou se gostássemos sem gostar de O olhar? Sim, H., sê amigo forte de Jesus!
No fim deste breve apontamento já era outro dia. Dei outra olhada ao outro blog do H. e pude verificar que escrevera lá o Pater Noster.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Teresa

Quando o filme começou a ser realizado ou quando parte dele foi filmado em Tomar, recebi por email alguma informação negativa. Era sensibilização de amigos desconhecidos e zelosos convidando-me a boicotar o filme. Na perspectiva desses meus zelosos amigos, aquele era um filme que não devia ser feito, e muito menos visto. Achavam por isso, que eu deveria denunciar tal injúria e ofensa à fé e à tradição carmelitana.
No meu caso a publicidade negativa funcionou. Andei perscrutando os dias em que ele apareceria por perto. Quando apareceu pensei logo em ir vê-lo num cinema perto de mim mas não deu. Fui vê-lo longe, antes que fosse tarde ou já não pudesse vê-lo.
O filme chama-se Teresa, o corpo de Cristo. Confesso que não percebi o título, a não ser que nele se leia algo da teologia paulina segundo a qual a Igreja — todos os seus membros e também Teresa —, são corpo de Cristo. Pode ser que seja isso.
Na tarde em que fui vê-lo só estava eu na sala de 104 cadeiras! Pouco depois chegou um idoso e logo atrás um par de namorados. Éramos 4 a vê-lo!
Que retenho eu do filme?

  1. Não me pareceu um daqueles filmes clássicos. Mas enquadra bem o tempo, o espírito da Igreja espanhola e da sociedade abulense. Depois do que vi, parece-me que os espanhóis não têm medo de recordar e trazer para o presente a memória dos seus heróis. Neste caso, um religioso. A nossa Santa Madre Teresa.
  2. O filme é daqueles que se centra na personagem. Ali conta Teresa e os outros que contam só contam para definir a espessura humana e espiritual de Teresa. Jamais ali se vê a epopeia fundacional da Santa. Mas vêem-se as rochas sólidas donde se erguem as colunas que sustentarão o edifício. Assim, regozijo-me pelo filme evidenciar claramente o seu amor a Jesus Cristo e à Igreja. Só um amor assim de grande justifica que se tenha lançado a uma empresa tão enormemente desconfortável e de tantos riscos (e não só pessoais). E regozijo-me por ali ter visto o amor às suas irmãs e a uma vida simples e fraterna. Sinceramente não vi ali uma Teresa sedutora (que eu guardo na cabeça) que arrasta quase todo um convento de 200 freiras e outras para a fundação da nova Ordem. Mas vi uma mulher centrada em Cristo e senhora duma determinada determinação, capaz de quebrar antes de torcer sempre que se sabia no caminho da verdade. E regozijo-me pela teia das dúvidas que assaltavam o seu coração, que eram apenas os sintomas de querer fazer apenas o que deveria fazer: a vontade de Deus, para estar ao serviço de Deus. Essa foi a parte que eu mais gostei: Teresa querendo acertar, simplesmente acertar o caminho que Deus lhe propunha. Sem mais.
  3. Retenho aquela sociedade amordaçada pelo medo. E os que mais presos estavam eram os que primeiro são convidados a libertar: a Igreja, os sacerdotes, as Ordens religiosas. E a contrastar com todo aquele medo «havia um coração onde reinava o amor». Era o de Teresa. Concerteza haveria outros, mas o filme era dela. Não é que ela não tivesse medo pois o tinha, mas o amor suplantava tudo. Até o medo. Por isso, de futuro rezarei assim: onde houver medo, Senhor, fazei que eu semeie o amor.
  4. E retenho a consciência cada vez mais forte de que não somos nós que nos fazemos. Mas que os outros, os irmãos e irmãs, o contexto social e religioso, os acontecimentos e a Graça, as circunstâncias e o eterno é que nos constroem, nos moldam, nos arrancam do chão. Somos filhos antes de sermos pais. Somos semente antes de sermos semeadores. E ai das sementes cujo terreno em que são lançadas não é fofo, mas hostil; não é fresco, mas fora de prazo; não é arejado, mas bafiento! É desse negro humús espiritual e social que emerge a figura fantástica de Teresa. Se semearam muitos espinhos e muita erva daninha à volta do campo donde brotou, também por perto cresceram amigos que a cuidaram, mãos que a abraçaram, corações que com ela se enlevaram, esperanças que com ela se esperançaram, luzes claras que a iluminaram, livros que a leram.

A meio do filme a rapariga saiu e voltou 45 minutos depois. O velho ressonou e eu recebi uma chamada informando-me dum funeral. Quando o sino de São José informou Ávila da nova fundação as luzes acenderam-se. E subiram os créditos. Só então reparei que a rapariga também tinha adormecido e o rapaz não a queria acordar. Aproximei-me e perguntei: «Desculpe a intromissão, mas por que vieram ver este filme?». «Porque era um filme!», respondeu-me o rapaz. Já não me atrevi a perguntar ao idoso. Foi ele que me veio informar: «Porque sou religioso e o filme fala de religião». Pois. Éramos poucos e pariu la abuela!
Ainda assim, houvesse mais heróis de hoje com coragem para rememorar os do passado e não andaríamos tão ensonados nem tão perdidos.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Duas pessoas

Eu não conheço Beth Ditto. Em boa verdade nunca me foi apresentada, como diria o outro. É cantora. Creio que as canções que canta não frequentam a rádio por onde por vezes me perco. E defende valores que não são os meus, com os quais eu não sintonizo. É por isso que conhecê-la ou não (ou à sua música) me é igual. O mesmo será para ela.
Mas, pronto. A imprensa fala dela e eu sei que a senhora existe, que é uma mulher ácida, que, dir-se-ia, é daquelas que morde a mão que lhe dá o pão. É isso. É uma mulher tão crítica que não se inibe de criticar o seu público, aquele que lhe compra os discos e vai aos seus concertos. Ela é uma mulher que sabe quem é (e sempre o soube). Ela não muda, o mundo à sua volta é que muda ou tem de mudar. Por isso quando actua em concertos está tão segura de si que não se preocupem que não gostem da sua música e da sua performance. É descarada a mulher: «Não me incomoda assim tanto que as pessoas pareçam entediadas. Toco para as duas pessoas na multidão que estão a divertir-se e a prestar atenção.»
Ora aí está uma mulher de convicções. Se houver duas pessoas que gostem, ela canta para elas. O resto se a desprezar, será desprezado por ela.
Viremos isto como me convém. Pergunto-me quantos de nós, na nossa banda, temos disponibilidade e carinho pelo nosso público para tocar para esses dois que permanecem atentos. Confesso que desanimo face ao tédio, ao desinteresse, à falta de garra dos meus públicos. E em boa verdade, costume ter mais que dois ou três animados e interessados.
Se alguma vez Miss Ditto me for apresentada eu vou agradecer-lhe esta lição de vida. Afinal de contas eu tenho melhor mensagem que a dela, mas por vezes não tenho a garra e o convencimento dela.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Nadir

O senhor Nadir tem quase 90 anos e um cara de menino, de menino traquina, apesar da barbinha que ostenta. Ele que me perdoe se a afirmação não é um elogio. Mas aqueles olhitos e a cara miúda falam-me dum catraio extasiado com uma tarde de Verão, sem escola e passeada (ou saltada, ou saltibancada) ao ar livre.
É a segunda ou terceira vez que ouço falar dele. A primeira foi num documentário do Canal 2 em que vi uma tela muito enigmática e geométrica que afinal, depois de lhe ser sobreposta uma fotografia, mais não era que uma praça de Lisboa.
Fiquei curioso com o homem.
Agora está na Galeria do Jornal de Notícias e talvez eu passe por lá. Talvez para decifrar a sua pintura tivesse que conhecer a sua geografia e a peregrinação da sua vida. Mas irei só para ver pedaços de cidades que o não são, que são simples telas. Embora mais que telas pintadas, claro.
No JN de 29 de Junho vinha uma entrevista sua. Retiro duas coisas: uma, o nome Nadir foi sugerido ao pai — que ia a caminho do Registo Civil; outros tempos! Outros tempos! — por um amigo cigano. Duas, a sua pintura não é tanto de inspiração mas fruto do trabalho persistente, aturado, sujo, reclamado, insistido, cuidado. Nã, nada disso. Os pintores não pintam de smoking. «Rebolam muito pelo chão», até deveriam ter um espaço «onde poderiam ir agonizando» à espera de melhores dias, de melhores soluções. Diz ele.
O homem leva esta coisa do trabalho tão a peito que, considera, jamais um quadro está terminado.
Eu estou mesmo a vê-lo com formigas nos dedos, quando vê o quadro antigo seu. A vê-lo cheio de imperfeições a exigirem um retoque, uma melhoria, um aperfeiçoamento. Sim, estou mesmo a ver o ciganito — que me perdoe o mestre! — reguila, atrevido, irrequieto, entrando pela casa dum amigo e logo preso a um quadro seu. E a dizer: «Humm! Estas linhas deveriam ser prolongadas, estes contrastes avivados». E, então, fazendo juz à viveza do raciocínio e do olhar juvenil, ele rapa da algibeira um pincel sempre pronto e conclui por ora — só por ora, claro! — a tela inacabada. Que inacabada fica.
Espantosa ideia a do mestre inacabado. Como deve sofrer só por que tem que vender coisas inacabadas, que lhe fogem do alcance e do remate final.
Sim. Pego agora na ideia e viro-a para mim. E dou comigo a ler-me os pensamentos. É isto mesmo que somos, telas inacabadas pelo Criador. Histórias sem fim à vista. Histórias com fim previsto e escrito, mas prolongando-se sempre para mais além do além que nos tocou viver.
É bem verdade. Somos inacabados, nada é ainda perfeito em nós. Ai de nós se a Graça do Mestre Ciganito — perdoe-se-me a ousadia, meu Deus! — não nos for trabalhando, completando, aperfeiçoando. Sim, meu Deus. É bem verdade. As tuas mãos não param desde o início da criação. Não param de me moldar, de moldar o meu barro tosco, o meu barro seco, áspero, resistente, bruto.
Visita-me, Senhor. Entra, por favor em minha casa. Contempla a minha vida, vê o quadro das minhas imperfeições e inacabamentos, repara como estropiei o que me entregaste. Traz um pouco de água que amacie o meu barro, que inunde as minhas resistências, que afogue os meus defeitos. Que afague as minhas feridas. Afaga-me com os teus dedos, completa-me um pouco mais.
Não te canses, Senhor.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Carta a minha mãe

Esta é a minha carta do Dia da Mãe.
Uma mãe perdoa que lhe chegue tardia,
e compreende que seja divulgada.

Aveiro, 03 de Maio de 2007

Querida Mãe,
saúdo-te neste dia com um grande beijo, daqueles que aprendi a dar contigo.
Neste dia da Mãe assaltam-me recordações que são agradecimentos, e que eu quero recordar para em ti louvar o Senhor. Lembro-me bem que quando era muito pequenino tu tinhas uma espécie de varinha mágica com solução para tudo. Vinha uma dor e tu vinhas prontamente amainá-la; vinha uma febre e tu a serenavas; caíamos, fazíamos uma esfoladela nos joelhos e lá vinhas com um pedaço de algodão molhado em alguma solução milagrosa (ou eram simples lágrimas tuas, não sei) que tudo remediava. Assim até apetecia cair de propósito...
Sabes quando se é pequenino tem-se medo de tudo, menos junto da mãe. Junto dela desaparece o medo do escuro, dos lobos e do vento da serra, das trovoadas e das guerras que não sabemos o que são mas ouvimos falar com medo delas. Sim, junto da mãe não temos medo, se ela não tem medo. Até mesmo do dentista e do homem que pela primeira vez, à beira rio, me cortou os caracóis do cabelo.
Nas dores grandes aparecias, mãe, com os primeiros socorros e umas mãos fortes que cuidavam de mim antes de me confiares a alguém vestido de branco, que rematava os primeiros cuidados. Nas dores leves aparecias com um beijo e uma voz dizendo que não era nada, nada, nada mesmo. E é que tudo passava, porque, como bem sabias, não era mesmo nada.
Os teus joelhos eram fortes. E no teu colo, antes de crescermos, coubemos todos duma só vez. O teu colo foi o meu primeiro banco da igreja. Aí aprendi o Sinal da Cruz, a Avé Maria, o Anjo da Guarda, o Pai Nosso, o Terço, o Credo, a gostar do Sacrário. Ainda te lembras da minha definição de Santíssima Trindade: São três Pessoas, Pai, Filho e Mãe!!! Lembras-te, não lembras?
Quando comecei a crescer e a sonhar, disseste-me que não havia que ter medo dos sonhos. E que para além dos sonhos comuns existiam outros que Deus ternamente vai semeando em nosso coração. Foi assim que fui crescendo, cada vez mais longe do teu colo, contornando os desafios do desconhecido, vencendo os escolhos perigosos da tristeza por estar longe de ti. Sim. Jamais tive abraços e beijos tão doces como os teus, sobretudo se andava triste. Jamais tive voz tão convicta a recordar-me as minhas responsabilidades e a obrigação do meu contributo. E tudo isso sem estudares os grandes psicólogos de referência!
Cresci. Já não sou mais um menino, embora seja ainda o teu menino. Cresci e comigo cresceram as responsabilidades, aumentaram as obrigações. Já não tenho tanto tempo assim para ti, mas sei que o tens para mim. As distâncias afastaram-nos, mas não separaram de vez os corações. Os sonhos continuam a brotar, a agenda a mandar, os compromissos a exigir. Sei que compreendes que a distância nos une, que não afasta nem abre trincheiras. Essa compreensão é outra maneira de as mães amarem os filhos, estimulando-os para a independência, rezando por eles, telefonando de quando em vez para se consolar com uns minutos de voz apressada.
Hoje, mãe, no dia da Mãe, quero agradecer-te tudo (e ao pai também). És a mulher mais sábia que conheci. (Tal como eu, tu sabes que nesta carta disse quase nada sobre ti!). És uma mulher que infinito algum te assustou, que tempestade alguma te abateu de vez. A isso chama-se ser uma mulher de garra. Talvez garra não seja nome de mulher, mas bem poderia ser de ti, mãe. Como mãe. Como mulher.
Neste Dia da Mãe quero agradecer-te tudo, mãe. O feito e o por fazer contigo. E com os meus irmãos agradecer-te, e bendizer-nos a nós também por termos sido abençoados por ti, minha mãe.
Recebe um beijo do teu filho,

João Manuel

quarta-feira, 25 de abril de 2007

As brasas

É no que dá ir pescar. Refiro-me ao Evangelho do domingo passado.
Passados os dias do primeiro espanto sobre a Ressurreição os discípulos foram pescar. Com Pedro ao timão. Em boa verdade, creio, ainda atarantados. Conhecedores da arte pareciam-se mais a marinheiros de água doce.
Não pescaram nada.
Na praia um desconhecido manda que pesquem para outro lado. (Mas não haviam já tentado também aquele? ). E enquanto lançam as redes a praia vai-se aquecendo porque brasas aali se acenderam. E há também um peixe saboroso pronto a ser repartido.
Ah, as brasas!
Como falta, por vezes, o calor nas igrejas e nas orlas das nossas comunidades. Calor humano que aqueça, calor ainda desconhecido que alente desanimados. Calor que aconchegue os cansados. Calor que retempere da labuta.
O Desconhecido, o Senhor, sabe que não há pesca sem brasas no fim. Não há missão sem brasas!